A Onda e as tentações do nazismo

Dennis Gansel discute responsabilidade social e a função da escola em seu filme que provocou polêmica na Alemanha

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

26 de agosto de 2009 | 00h00

Dennis Gansel fez direitinho sua lição de casa antes de realizar A Onda. O filme - polêmico - baseia-se num episódio real ocorrido na Califórnia, nos anos 60. Um professor reproduz, na sala de aula, o mecanismo que permitiu a consolidação do nazismo no imaginário do povo alemão, nos anos 30. Tudo começa com uma tentativa de entendimento do fenômeno. O professor quer motivar os alunos. Quando um deles diz que uma sociedade verdadeiramente democrática não pode abrigar em seu interior aquilo que Ingmar Bergman definiu como ?o ovo da serpente?, ele inicia o experimento. Logo, a aula e a escola estarão impregnados do ideário do nacional-socialismo. Assista ao trailer do filme A OndaQual foi o dever de casa de Gansel? Ele (re)leu sua Hannah Arendt e entrevistou os antigos garotos - e garotas - da história real, hoje senhores e senhoras na faixa dos 50 anos. Como e por que as pessoas cedem à tentação do totalitarismo? "A questão da liderança é fundamental no processo", afirma o diretor, numa entrevista por telefone, da Alemanha. "Se o líder é forte, carismático, as pessoas se anulam cada vez mais. É fácil seduzi-las com ideias de superioridade. Elas terminam por se eximir de sua responsabilidade. Passam a cumprir ?ordens?, que são legitimadas pelo senso comum, como ocorreu na Alemanha, no passado. A Onda é sobre educação, deseducação, sobre responsabilidade social."Hannah Arendt desenvolveu todo um sistema de pensamento para entender (e debater) o poder absoluto, que Dennis Gansel considera o flagelo das sociedades democráticas. "Vivemos num mundo em que, a todo momento, são flagrantes as denúncias de manipulação da opinião pública." A sala de aula revela-se um território privilegiado, senão ideal, para reproduzir as condições sociais. O repórter cita o caso de Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Gansel não quis ver o filme, até para não se influenciar. Só o viu bem depois. Acha que existem similaridades. "Ambos contam histórias de professores que realizam experiências para o bem, mas elas, de alguma forma, escapam ao controle e se voltam contra eles." Sua preocupação era dar verossimilhança aos personagens. Talvez por estar falando com o Brasil, Gansel cita Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. "É um dos filmes mais impressionantes que já vi, mas não pela violência, em si. O diretor nos leva a compreender as motivações de cada personagem, do traficante ao garoto que não quer seguir no crime."Ele vê um pouco disso também em Tropa de Elite, de José Padilha, que recebeu o Urso de Ouro em Berlim. "As cenas que confrontam os estudantes com a realidade do crime e da polícia são muito fortes." Gansel cita o garoto que se suicida em A Onda. "Houve um recente tiroteio numa escola de Stuttgart. O background familiar do garoto real era muito parecido com o do filme. Do roteiro aos atores, a preocupação foi sempre ser verdadeiro." O repórter lembra outros filmes alemães recentes - Adeus, Lenin, de Wolfgang Petersen; Os Educadores, de Hans Weingartner; e A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, todos muito politizados."Há um novo cinema alemão que quer dar conta da realidade. A crise acentuou a falta de perspectivas da juventude. Viajei muito pelo país com A Onda, participei de debates. Os jovens estão perplexos e muitos deles revoltados com um mundo que exige preparação, mas vai fornecer oportunidades para poucos." No caso da Alemanha, a crise retirou recursos justamente de escolas que atendiam comunidades de imigrantes. "Por princípio, já são os excluídos. As consequências disso talvez só vejamos daqui a alguns anos."

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