A obra de Shirley Paes Leme feita no território do intangível

Artista exibe na Galeria Nara Roesler desenhos em que captura materiais fugazes, como teias das casas de fazenda e fumaça

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2026 | 00h00

Nas cozinhas das casas de fazenda fazem-se nos tetos teias de aranha que se vão tornando negras pela fuligem que sobe dos fogões a lenha. O volume preto de impurezas, resquício do cotidiano rural, que se vai fazendo ao longo dos anos, é o picumã, palavra que em tupi-guarani significa peruca. Delicado, desmancha-se quando tocado, mas algo assim tão ''''fugaz'''' é material de uma série de desenhos que Shirley Paes Leme exibe a partir de hoje na Galeria Nara Roesler.''''Como capturar a percepção de algo do mundo, registrando-o em um suporte convencional e conseguir que o resultado final não seja visto como uma forma fechada em si mesma, com um sentido intrínseco, mas como um índice aberto a inúmeras interpretações?'''', pergunta/escreve o crítico Tadeu Chiarelli no texto sobre a mostra Atitude: Desenho, de Shirley Paes Leme. Capturar e aprisionar são verbos que a artista usa para definir a ação de seu trabalho sensível: utilizando telas ou papéis (suportes convencionais), ela, com a ajuda da mão do acaso, ''''captura o incapturável'''', como diz: o picumã que se vai desmanchando e dançando no ar (o intocável), o desenho que se consegue da fumaça.As obras, iniciadas há uma década e pela primeira vez exibidas em São Paulo, são em preto-e-branco como só poderia ser já que elas vêm da poeira enegrecida. A artista sopra o picumã, fixa-o de maneiras diferentes com o uso também de um gel: de tanta delicadeza, do material e do gesto de Shirley, cada obra se transforma em um universo - agora sabemos que o grafismo dos desenhos menores não foi feito a lápis; que as formas das obras maiores foram conquistadas pelo domínio do que restou do fogo, da fumaça (se concretizam até mesmo por movimentos da ''''pulsação da respiração'''', ela diz).Aprisionar, capturar: Shirley Paes Leme, nascida em Goiás, mas mineira por sua trajetória, busca a ''''mais bela harmonia'''', como cita de Heráclito, nas coisas que pensamos serem do território do intangível. ''''Uso as coisas do universo das minhas brincadeiras na fazenda: o fogo, os gravetos, essas teias das casas. Os artistas cada vez mais querem tratar da cidade, mas eu prefiro o território da zona rural, esse lugar que ninguém vê, mas que é o local em que podemos realmente nos encontrar'''', diz Shirley, que agora vive em São Paulo. Ela apresenta, também, uma série de obras feitas com gemas de ovos - ''''uma tentativa de segurar a vida já que a gema é um embrião'''', afirma - e outra com pólen - enfim, aprisiona algo que é levado pelo vento.A galeria também exibe em seu pátio interno uma pintura site-specific do jovem artista Rodolpho Parigi.

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