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ANA PIGOSSO/GALERIA MARÍLIA RAZUK
ANA PIGOSSO/GALERIA MARÍLIA RAZUK

A nova paisagem de Alexandre Wagner

O pintor mineiro, de 35 anos, uma grande revelação, faz sua primeira individual na Galeria Marília Razuk

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

16 de julho de 2021 | 05h00

O que de imediato chama a atenção nas pinturas do artista mineiro Alexandre Wagner, de 35 anos, expostas até dia 24 na Galeria Marília Razuk, é a fatura fluida de suas paisagens, o que justifica o título da mostra, Água Viva, escolhido pela curadora Kiki Mazzucchelli. Essa pintura rarefeita não é o único ponto em comum com a obra pictórica de Guignard, se consideradas as figuras do mestre mineiro apenas como pretextos para exercitar a própria pintura. No entanto, há na pintura de Alexandre Wagner uma atitude contemporânea de fragmentar a paisagem a ponto de tornar sem sentido a fronteira entre figuração e abstração. Enfim, uma pintura sem fidelidade ao modelo real. Suas telas são paisagens sintéticas construídas a partir de um embate cromático, não dependente da representação.

Também não se trata, ao contrário de Guignard, de construir uma “paisagem imaginária” ou representar uma miragem. Segundo o pintor, ele sempre encarou a paisagem “com a ideia de uma pintura líquida, entre o mostrar e o ocultar”. Também por isso abandonou uma prática sua, corriqueira até meados de 2018, o uso da fotografia como referência. As 30 pinturas da mostra, produzidas entre 2019 e este ano, foram construídas como a paisagem chinesa antiga – que é extremamente moderna, no sentido de não buscar correspondência com o real, reproduzindo os elementos da natureza de maneira livre e diversa de como eles se apresentam (a pintura, como defendem os pintores literatos chineses, não é uma janela para a realidade, mas sua transfiguração).

Alexandre Wagner não usa modelos reais ou apela para a memória afetiva, o que dá à pintura uma autonomia raras vezes vista. O pintor, que só usa tinta a óleo, não o faz por ser submisso à tradição, mas por uma questão técnica, a de imprimir uma transparência à pintura que facilite seu diálogo com o modelo chinês. Não se preocupa, enfim, com a semelhança da forma, mas com o espírito da imagem que emana e dá movimento ao mundo.

“O modo como a tinta é diluída e aplicada, as diferentes faturas e intensidades encontradas em um mesmo campo pictórico, a paleta cromática que joga com os contrastes entre luz e sombra; tudo isso atesta a importância dada pelo artista àquilo que diz respeito ao fazer da pintura, colocando em segundo plano um compromisso maior com o ilusionismo ou a representação”, analisa a curadora Kiki Mazzucchelli.

Segundo ela, uma figura recorrente em muitas das pinturas da exposição é o círculo. Ele aparece, observa Mazzucchelli, “ora como um sol ora como uma lua no horizonte em trabalhos como Miragem (2019) e Cachalote (2019); outras vezes como misteriosas lanternas alaranjadas nos troncos de uma paisagem alagada em Lanternas (2019); e, ainda, em outros momentos, como pontos luminosos levemente deslocados do centro da composição que acarretam uma completa desestabilização do espaço pictórico”.

Sobre sua pintura “líquida”, Alexandre Wagner, que foi assistente do pintor Nuno Ramos por muitos anos, diz que ela levantaria uma dúvida que não existe nas telas de seu mestre neoexpressionista, de fatura matérica. “A pintura dele é afirmativa”, define, reconhecendo em outros pintores de sua geração, como Marina Rheingantz, três anos mais velha, “traços decisivos” e uma “construção firme” que não identifica na própria pintura.

“Como as águas-vivas, o conjunto de obras apresentadas na exposição parece possuir uma morfologia cambiante; são pinturas em que a paisagem engendra o abismo do espaço e o abismo da imagem”, define a curadora, que participa nesta sexta-feira, às 17 horas, de uma live no perfil da Galeria Marília Razuk no Instagram com o pintor, diretamente da exposição.

Um dos pontos que certamente serão abordados nesse encontro é o 'approach' não narrativo da pintura de Alexandre com a tradição figurativa. Apesar de formado olhando mestres como Bonnard e Vuillard, o antigo aluno de Artes da UFMG se interessa mais por questões como a ambígua construção pictórica de alguém como o pintor belga Luc Tuymans. Como se sabe, seus retratos, cobertos por uma camada de névoa, podem tanto evocar um processo de desintegração da memória como a impossibilidade de representar o real. Alexandre Wagner gosta dele porque o belga sugere mais do que mostra. Ele também. A diferença é que Tuymans caminha a passos largos para um mundo cada vez escuro e sinistro – os postes iluminados de um verde amarelado refletido num canal holandês na tela Murky Water (2015), por exemplo.

Já a paisagem do brasileiro é exuberante, tropical, embora por vezes traga reminiscências do verde nostálgico dos filmes de Sokurov e Tarkovski. “O Rodrigo Andrade fala do aspecto líquido de Stalker, um mundo em que tudo é impermanente.” E indefinido, misterioso como sua pintura.

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