A nova lenda do piano cubano

Biscoito Fino lança Zamazu, o festejado disco de Roberto Fonseca, jovem pianista de estilo percussivo que substituiu Rubén González no grupo Buena Vista

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 00h00

Foi um espanto quando, em junho de 2004, após a morte do grande pianista cubano Rubén González, o que restou do Buena Vista Social Club retornou ao Brasil com um substituto de uns 30 anos, um sujeito cheio de ginga, com pinta de astro do hip-hop. A desconfiança só durou até Roberto Fonseca iniciar seu primeiro solo - a platéia no Via Funchal terminaria aplaudindo de pé o ''''intruso''''. Uma noite memorável, que marcava a entrada de uma nova estrela na constelação do piano cubano, já lendária - habitada, entre outros, por Bola de Nieve, Bebo Valdés, o próprio Rubén Gonzáles, Chucho Valdés e Gonzalo Rubalcaba.Desde então, Robertito Fonseca voltou ainda duas vezes ao Brasil, uma delas acompanhando o cantor Ibrahim Ferrer e, em outra, a cantora Omara Portuondo. Também veio sozinho, com sua própria banda, ao Bourbon Street.Foi aí que ele se associou ao pernambucano Alê Siqueira, uma espécie de ponte móvel entre Brasil e Havana, e que produziu seu disco Zamazu, lançado com admirável sucesso na Europa no ano passado. O CD chega agora ao Brasil via Biscoito Fino. ''''Nossa amizade começou quando ele produziu o disco de Omara Portuondo. Logo que começamos a trabalhar juntos, gostei demais do jeito dele. Ele sabe o que o músico quer. Não se importa com qual linguagem está lidando, sabe respeitar todas'''', disse Roberto Fonseca, ao Estado, por telefone, desde Cuba, na semana passada.Roberto Fonseca é rápido e objetivo em suas opiniões. ''''Linguagem'''', por exemplo, ele explica assim: ''''Cada músico tem seu modo de se expressar, e é a isso que chamamos linguagem. Sei que tenho um estilo diferente. Toco piano como se fosse tambor, mas à minha própria maneira. Isso se dá porque sempre gostei muito de percussão, desde tablas a timbaus.''''Há dois anos, Fonseca, que tem agora 32 anos, tocou no desfile da estilista francesa Agnès B, no Men''''s Fashion Show de Paris. Foi nessa ocasião que ele disse algo que pode ser lido como seu manifesto pessoal: ''''Todo mundo imagina um músico cubano com charuto, chapéu, camisa de flores e mojito. Não bebo nem fumo. Quero que saibam que em Cuba não há só praia, sol, palmeiras e maracas. Também temos dias chuvosos.''''Isso significaria que o estilo de Robertito Fonseca em Zamazu é menos solar e celebrativo do que o de seus colegas cubanos? Nananina. Zamazu é simplesmente um dos melhores lançamentos do ano, e a cadência de Cuba se ouve em cada acorde.O álbum foi gravado em Cuba e no Brasil, em janeiro de 2006, quando Fonseca esteve no País com Omara (e quando gravou um disco inédito acompanhando Omara e Maria Bethânia, já no forno para sair), e tem participações de Carlinhos Brown e Toninho Ferragutti, dos cubanos Guajiro Mirabal, Cachaíto López (''''O maior de todos'''', segundo Fonseca), Ramses M. Rodriguez e do espanhol Vicente Amigo. Traz ainda um duo como Omara e uma das últimas gravações do grande Ibrahim Ferrer.É uma bela homenagem. ''''O sonho que sonhou Ibrahim Ferrer se converteu em realidade'''', diz o próprio cantor na letra, que é sua. ''''Perdi um grande amigo. Quando tocávamos, ele era sempre uma dádiva, porque se doava integralmente. Ele me ensinava o tempo todo. Foi um músico incrível'''', diz Roberto.

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