''A nova e a velha elite se uniram

Para Leôncio Martins Rodrigues, o desfiar de escândalos não punidos é fruto da aliança entre os grupos de Lula e de Sarney

Gabriel Manzano Filho, O Estadao de S.Paulo

22 de junho de 2009 | 00h00

Farra das passagens aéreas, CPIs paralisadas, nepotismo cruzado, lideranças afastadas que voltam e continuam mandando, atos secretos... Mesmo estudiosos experientes se espantam com o desfiar interminável de más notícias na vida pública brasileira. Mas quatro décadas de prática diária nesse terreno nebuloso servem para alguma coisa. É o que se percebe na conversa da coluna com Leôncio Martins Rodrigues, professor titular - hoje aposentado - de Ciência Política na USP e na Unicamp, autor de vários livros sobre os partidos e membro da Academia Brasileira de Ciência. A política brasileira é o que é, no momento, diz ele, devido à união entre duas elites, a nova e a velha. Os ex-plebeus ascendentes, ao invés de expulsar as velhas oligarquias, como costuma ocorrer na História, aliaram-se a elas. E Rodrigues avisa: "Para 2010, a definição de um discurso eleitoral não será fácil para a oposição. Ela tem pela frente uma tarefa hercúlea." Como explicar tantos escândalos no Congresso, que culminaram com os "atos secretos" e o desgaste do presidente da Casa, José Sarney? O explícito apoio do presidente Lula- que assim paga a força que lhe deu Sarney no mensalão - configura a união de duas elites. O líder das oligarquias tradicionais do Nordeste junta-se ao líder das novas classes ascendentes. Não é estranha, essa fusão entre classes historicamente contrárias? A união foi possível porque os "novos" aderiram rapidamente ao projeto dos "velhos", de fazer da política uma escada para obter proveitos pessoais, enriquecimento e desfrute puro e simples do poder. É algo de fato original. Entre nós, a ascensão dos plebeus não significou a expulsão dos velhos oligarcas. Eles se entenderam, e chegamos aonde estamos. O sr. imagina quando o País verá a luz no fim do túnel? Confesso que não veja saída a curto prazo. Os que poderiam mudar não têm interesse nisso. Reina a solidariedade entre toda a classe política. Mas há uma coisa que eles temem, a única: é não se reeleger. Portanto, só no longo prazo, com a educação do eleitorado, podemos esperar algo novo. Como a oposição definirá seu discurso eleitoral no ano que vem, num cenário em que o governo Lula continua com apoio imenso? A definição de um discurso próprio para 2010 não é tarefa fácil para os oposicionistas. Lula tem apoio de sindicatos, da classe operária organizada e das camadas pobres - quer dizer, os desorganizados. Ele distribuiu recursos e não se esqueceu das classes médias. E o aspecto extraordinário de sua atuação é que ele conta com generosas doações de grupos empresariais. E esse é um fator essencial nas disputas eleitorais. Quer dizer que a oposição tem poucas chances? Não, significa apenas que ela tem pela frente uma tarefa hercúlea. Os ventos da política, porém, costumam mudar, às vezes rapidamente. No Brasil, já vimos a ascensão e queda relativamente rápida de partidos e lideranças. Adversários dizem que Lula fez um grande estrago ao despolitizar a opinião pública com um discurso personalista. Qual o peso real dessa queixa? Lula tem alguma responsabilidade nisso mas há outros fatores que influenciam as mudanças políticas - especialmente a composição social das elites. Eu entendo que, por razões do próprio desenvolvimento do capitalismo e pelo crescimento das classes médias, caminhamos em direção à consolidação de uma sociedade de massas nascida de um sistema eleitoral com participação total. Esse é um cenário com o qual deveremos contar para os anos vindouros. Terão maiores chances os partidos que lidarem melhor com essa massificação. Minha impressão é que o PT saiu na frente. Por falar em massificação, como o sr. vê o futuro, entre nós, da democracia representativa? Do ângulo da participação, diria que houve um aumento da democratização. Do ângulo do funcionamento, o progresso já não é tão evidente - a maioria do eleitorado não se vê representada pela classe política. Nesse aspecto, a massificação do jogo político não trouxe progressos à democracia. Como já disse, os ex-plebeus que ascenderam prometendo combater as práticas corruptas adotaram essas mesmas práticas rapidamente. Lula livrou-se do PT e ficou acima dos partidos. Aonde essa estratégia vai levá-lo? É uma estratégia dirigida para a manutenção do poder. Por isso, o grande arco partidário que ele montou deve continuar, ao menos enquanto ele tiver os altos índices de aprovação. A classe média brasileira está perdendo seu papel, de ponto de equilíbrio entre ricos e pobres? Há um certo consenso, na sociologia política, de que as classes médias são um fator de equilíbrio social e político. Mas, na realidade, há muitas classes médias, seja pelo critério de renda, de atividade profissional ou de nível de cultura. Por exemplo: os intelectuais tendem a ter um comportamento político muito diferente dos pequenos proprietários, a "pequeno-burguesia vacilante" do marxismo. Os primeiros tendem a ser revolucionários e os segundos, conservadores. Na verdade, é difícil predizer o papel das classes médias. Nos anos 90, uma crise fez desabar o sonho socialista. Agora, outra crise faz o capitalismo correr para o colo do Estado. O que virá em seguida? Como tem acontecido especialmente na América Latina, provavelmente isso vai reforçar as correntes que defendem maior controle estatal da economia. Assim, no cômputo geral, favoreceria a "esquerda". Mas não podemos ser muito simplistas. Se a situação social se agravar, poderemos ver o fortalecimento de tendências radicais, tanto à direita como à esquerda. A direita europeia acaba de conquistar uma grande vitória eleitoral no Parlamento Europeu. O que isso significa? A população europeia vê aparecer, cada dia mais, o fantasma do desemprego e da queda de padrão de vida. As levas de imigrantes pobres introduzem um elemento que não temos por aqui. Provavelmente esse fator pode ter favorecido os partidos conservadores. Como o sr. compara esse fenômeno com o tal ''socialismo do século 21'' na América Latina? Esses regimes que se dizem socialistas, em nosso continente, parecem mais nacionalistas do que anticapitalistas. São uma construção teórica confusa derivada da ambição de poder de lideranças vindas da classe média que se apoiam em setores populares. Diante disso tudo, qual o horizonte das esquerdas brasileiras? Para a esquerda clássica, revolucionária, ''proletária'' não se vê nenhuma chance de crescimento significativo. Ela subsiste em pequenos partidos com base em círculos universitários, na direção de alguns sindicatos, de professores. São organizações que servem de escada para lideranças intelectualizadas que querem entrar na política e encontram pouco espaço nas cúpulas dos partidos já existentes. Direto da fonteSonia Racy ColaboraçãoDoris Bicudo doris.bicudo@grupoestado.com.brGabriel Manzano Filho gabriel.manzanofilho@grupoestado.com.brPedro Venceslau pedro.venceslau@grupoestado.com.brProduçãoMarília Neustein e Elaine Friedenreich

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