A nova China, vista por seu maior crítico

Jia Zhang-ke fala sobre seus filmes que serão exibidos hoje na repescagem da Mostra, identifica o japonês Ozu como mestre e diz que o Ocidente não tem nada a temer

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de novembro de 2007 | 00h00

Por paradoxal que pareça, Jia Zhang-ke vê na Revolução Cultural do maoísmo, nos anos 60, a origem de muita coisa que ainda se passa na China, mesmo após a opção do país pela economia de mercado e sua inclusão no mundo capitalista. ''''Acho que o período da Revolução Cultural ainda não é analisado como deveria. Os diretores da 5ª Geração, que viveram aqueles anos, estão muito isolados da minha geração. Quase não há troca entre a gente, mas eu acredito que muitas coisas que formam a China de hoje vêm justamente da Revolução Cultural. Os próprios censores, ainda muito ativos, são uma herança daquela época.''''Jia Zhang-ke sabe sobre o que está falando. Autor de uma obra que remonta ao longa Pickpocket, de 1997, ele fez depois Plataforma e The World (O Mundo), todos produzidos de forma independente, mas só a partir do terceiro seus filmes passaram a ter distribuição comercial no país. Seguiram-se o documentário Dong e Still Life, que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado (e se chamou, no Brasil, Em Busca da Vida). ''''A China está próxima'''', bradava o diretor italiano Marco Bellocchio nos anos 60, mas a China de Bellocchio, como a de Jean-Luc Godard em A Chinesa, era a do camarada Mao, o Grande Timoneiro. A China que Zhang-ke filma é o país continental que, num curto período de tempo, passou por transformações econômicas e sociais que não cessam de surpreender o Ocidente. O marco zero desta nova China são os acontecimentos da Praça da Paz Celestial, em junho de 1989.O diretor chinês de 37 anos - tinha 19 anos, então - esteve rapidamente em São Paulo, na semana passada, para prestigiar a retrospectiva que lhe dedicou a 31ª Mostra Internacional de Cinema. Seis filmes poderão ser revistos hoje na repescagem (veja o quadro). Na sexta-feira, dia 2, à noite, Zhang-ke regressou à China. Nos quatro dias que permaneceu em São Paulo, ele conheceu um pouco da cidade - e, levado pela TV Globo a passear na Liberdade, comparou o bairro a Shangai. Também concedeu inúmeras entrevistas, não apenas sobre seu cinema, mas principalmente sobre a China, este dragão que assombra o Ocidente com o gigantismo de sua economia. Cada vez mais você ouve falar na China como o motor, com os EUA, da economia mundial. Estrategistas fazem projeções sobre o poderio militar da China e prevêem que a próxima guerra, se (ou quando) houver, será travada entre os dois países. Na entrevista que deu ao Estado, na terça-feira, dia 30, Jia Zhang-Ke disse que o Ocidente não precisa ter medo da China. ''''Filmo as transformações do ângulo das pessoas comuns e o que posso dizer é que nós, chineses, estamos tão perplexos como os ocidentais em relação a tudo que nos acontece.''''Apesar do título, Pickpocket não tem nada a ver com o filme homônimo do francês Robert Bresson, de 1959. ''''Conheço o filme de Bresson, um autor a quem admiro muito, mas o meu foi sugerido pelo que ocorreu com um amigo. Foi feito com base na observação da própria China e não com referências de cinéfilo.'''' Na trama de Pickpocket, ladrãozinho tenta sobreviver em um mundo que muda rapidamente à sua volta. Os companheiros de crime estão se recuperando e casando, mas ele hesita neste novo caminho. A conseqüência é que a namorada o abandona e a polícia continua em seu encalço. Passaram-se dez anos, apenas, mas bastou esta década prodigiosa para que Jia Zhang-ke se transformasse num ''''caso'''' no cinema chinês e um dos mais aclamados diretores do mundo. Ele conta que nasceu em Fenyang, em Shanxi, uma província no interior da China. Lá não havia escolas de cinema nem uma vida cultural particularmente excitante. O cinema só surgiu mais tarde, e a vocação mais tarde ainda.Foi só em 1994 que o cinema, até então rigidamente controlado como instrumento de propaganda, passou a ser encarado como atividade econômica. Formaram-se produtoras independentes, que começaram sua atividade fazendo filmes baratos, usando tecnologia de ponta. Foi assim que Zhang-ke iniciou sua carreira. Com Plataforma, em 2000, sua projeção fora da China já lhe permitiu ganhar apoio financeiro na França e no Japão para contar a história de um grupo de teatro que encara o desafio de expressar as mudanças ocorridas na China nos anos 80, desde a herança de Mao até a influência da cultura ocidental por meio da abertura para o capitalismo. Zhang-Ke podia estar falando de um grupo de teatro, mas este tema se tornou dominante em seu cinema. Mesmo assim, ele admite que as coisas foram ocorrendo intuitivamente. ''''Nunca estabeleci como projeto racional - vou fazer assim. Foi a observação do mundo ao meu redor que determinou as escolhas e uma foi levando à outra.''''No caso de O Mundo (The World), de 2005, ele conta que o parque temático do filme teve ampla cobertura da mídia ao ser inaugurado e que ele próprio o visitara, sem perceber que havia ali material para uma ficção dramática. Foi só bem depois de Plataforma, refletindo sobre as mudanças que flagrara, que ele começou a considerar a possibilidade de realização de um filme. ''''O parque é a expressão dessa China inserida na globalização. Encontram-se ali estações que reproduzem alguns dos monumentos mais conhecidos do mundo, nos mais diferentes países. Há uma exterioridade brilhante, de potência econômica, mas olhando de perto você flagra os problemas de todas aquelas pessoas cujas vidas foram bagunçadas e que sofrem com as transformações ocorridas.''''Essa mesma vontade de olhar o progresso por meio de seu reverso, a exclusão social e o sofrimento de pessoas cujas vidas são desconsideradas, o levou a fazer primeiro Dong e, depois, Still Life, que são projetos complementares. Em maio de 2006, a China inaugurou a usina de Três Gargantas, no rio Yang-tsé, que passa a ser a maior hidrelétrica do mundo, superando Itaipu (e mesmo que ainda opere com metade de sua capacidade). A grandiosidade do projeto imediatamente impulsionou Zhang-ke a fazer um filme, mas ele optou por um documentário, fazendo Dong, em que acompanha o pintor Liu Xiaodong, primeiro fazendo um grande painel que retrata 11 moradores da área inundada pela represa. Com a assessoria do próprio Xiaodong, Zhang-ke percebeu que seu filme estava muito masculino, centrado somente nos homens. Quando o pintor, seis meses mais tarde, resolveu que iria pintar outro grupo de meninas na Tailândia, Zhang-ke o acompanhou com sua câmera na viagem a Bangcoc.Um dos personagens retratados por Liu Xiaodong terminou se transformando numa das figuras de Still Life, que Zhang-ke, até num processo natural, realizou imediatamente, a seguir. Não lhe bastava o documentário. Ele sentiu que necessitava fazer uma ficção para dar conta da amplitude do assunto. Still Life começa com esta barca que chega à área que será inundada, trazendo um homem que busca suas origens. O minerador busca seu passado. Encontra a enfermeira que também procura o marido somente para lhe anunciar que quer se divorciar. A barca chama-se The World (O Mundo), como a ficção precedente. ''''Isso ocorre com freqüência em meu cinema'''', admite o diretor. ''''Gosto de retomar personagens e até situações, gosto de mostrar pessoas cuja vida colide neste choque entre passado e presente.'''' A curiosidade é que Dong, além de ser parte do nome do pintor, quer dizer ''''Oriente''''. O nome chinês de Still Life, por sua vez, é A Boa Alma das Três Gargantas e o que Zhang-ke percebeu, realizando o episódio tailandês de Dong, é que a natureza é muito destrutiva neste país assolado por tsunamis. A partir daí, ele se deu conta de que seria possível transformar o que ocorre na Ásia a partir deste duplo processo de destruição, do homem e da natureza.A área que foi inundada para dar origem à grande represa era um dos mais belos cartões-postais da China. Não foi só a beleza natural que foi destruída em nome do progresso. Quando foi documentar a área, Zhang-ke chegou a uma cidade em pleno processo de destruição, Fengie. Tudo estava sendo abandonado e as pessoas não sabiam direito o que ia ocorrer com elas. Foi este verdadeiro apocalipse que o inspirou na realização de Still Life, título que, em inglês, designa Natureza Morta. Veio daí a divisão em capítulos - o cigarro, o vinho, os bombons, o chá. O ator que faz o mineiro é primo de Zhang-ke (e esta também é sua profissão na vida). Han Sanming já havia aparecido em Plataforma. A enfermeira é interpretada pela atriz-fetiche do diretor, Zhao Tao, que aparece em O Mundo. Os rostos familiares se repetem porque Zhang-ke, no fundo, quer que o espectador estabeleça pontes e veja que cada filme é parte do mesmo processo, pelo qual ele retrata seu país de forma ampla.Como John Huston, que dizia não ter consciência de possuir um estilo, adaptando a forma de cada filme à história que queria contar, Jia Zhang-ke não quer ser escravo de uma forma de filmar, mesmo que a pintura tradicional chinesa seja uma referência visual importante para ele. Zhang-ke conhece o trabalho dos cineastas da 5ª Geração - Zhang Yimou e Chen Kaige -, mas não se identifica com eles. Diz que a própria divisão do cinema chinês em gerações é um tanto arbitrária, criada pelos críticos mas sem muita importância na prática do cinema chinês. Ele reverencia Hou Hsiao-hsien, o diretor de A Viagem do Balão Vermelho -, mas seu mestre, o cineasta que mais admira, é do Japão - Yasujiro Ozu, que flagrou as transformações na sociedade japonesa tradicional, instalado na posição do observador sentado no tatame. ''''Identifico-me muito com algumas situações do cinema de Ozu, com sua visão da família. A evolução na sua maneira de ver o mundo não é necessariamente estilística, mas se reflete no seu estilo. Acho que é o que também ocorre no meu cinema'''', ele diz, anunciando que o próximo filme, algo como City (Cidade) 24 vai tratar dos últimos 50 anos da vida chinesa por meio de uma fábrica fundada em 1957.Na RepescagemHOJE NO CINE BOMBRILO Mundo (Shijie)21h40

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