A nova arquitetura segundo Moneo

Arquiteto espanhol que assinou o projeto de ampliação do Museu do Prado fala sobre seu livro de ensaios recém-lançado

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2009 | 00h00

O espanhol Rafael Moneo sempre sustentou que seus mestres não são aqueles deuses do Olimpo da arquitetura que povoam os livros de história - Le Corbusier, Frank Lloyd Wright e companhia. Ao contrário, eles estão aqui entre nós, realizando projetos ousados como o holandês Rem Koolhaas, o canadense Frank O. Gehry, o português Álvaro Siza e o norte-americano Peter Eisenman, um dos principais representantes do desconstrutivismo na arquitetura. Esse credo em seus contemporâneos fez com que Moneo, premiado com o Pritzker em 1996 - o Nobel da arquitetura -, aceitasse dar um curso na Harvard Graduate School of Design, no início dos anos 1990, em que falava não só dos quatro colegas anteriormente citados, como de famosas duplas - a americana Venturi & Scott Brown, formada por Robert Venturi e sua mulher Denise, e a suíça Herzog & De Meuron -, além de célebres arquitetos mortos, como o escocês James Stirling (1926-1992) e o italiano Aldo Rossi (1931-1997). É exatamente a compilação dessas aulas em Harvard que dá forma ao livro Inquietação Teórica e Estratégia Projetual (Cosac Naify, tradução de Flávio Coddou, 368 páginas, R$ 65).A pedido da editora, alguns arquitetos e críticos de arquitetura brasileiros enviaram perguntas a Moneo, autor, entre outros projetos, do moderno anexo do Museu do Prado (2007) em Madri, capital que também ostenta outra grande obra arquitetônica sua, a estação de trem Atocha (1985-88). A Cosac Naify cedeu com exclusividade ao Estado as respostas enviadas pelo arquiteto a esses profissionais da área (Andrade Morettin Arquitetos, Núcleo de Arquitetura, Projeto Paulista, Una Arquitetos, Núcleo de Arquitetura, Projeto Paulista), que poderão ser lidas na íntegra, a partir de amanhã, no site da editora (www.cosacnaify.com.br). Nessa entrevista coletiva, Moneo falou pouco da arquitetura brasileira, que desconhece. Nunca esteve no Brasil e diz que não poderia julgar o que não viu. No entanto, conhece a obra desses arquitetos fora do País e destaca alguns deles entre seus favoritos - Oscar Niemeyer, além de seu parceiro Lúcio Costa, Lina Bo Bardi, Afonso Reidy e Paulo Mendes da Rocha.Na entrevista, Moneo fala também como chegou à lista dos oito nomes contemplados em suas aulas em Harvard, reconhecendo que ela está mais do que incompleta com a ascensão de profissionais como o norte-americano Steven Holl e a japonesa Kazuyo Sejima, fundadora do escritório Sanaa e dona de uma linguagem minimalista, direta, em que o interesse coletivo é sempre levado em conta, ao contrário do voluntarismo presente em projetos contemporâneos ocidentais. "Efetivamente, o tempo transcorrido desde que as aulas foram dadas faz com que o livro seja considerado mais uma obra de história da arquitetura contemporânea do que outra coisa", responde Moneo à arquiteta Cristiane Muniz. Dos oito contemplados em seus estudos, ele cita apenas a dupla Herzog & De Meuron e Rem Koolhaas como modelos, destacando como referências Siza e Eisenman, "que segue atraindo estudantes".A dupla suíça Herzog & De Meuron, para quem ainda não se localizou, vai assinar o projeto do Teatro de Dança em São Paulo, no local onde funcionava a antiga Rodoviária da cidade, do lado oposto ao da Sala São Paulo, no centro. Jacques Herzog e Pierre De Meuron mantêm seu escritório de arquitetura na Basileia desde 1978. Uma exame da obra antiga da dupla, segundo Moneo, permite entender bem o que fazem agora. "Eles ainda perseguem - e com obstinação - uma contundência iconográfica", responde Moneo ao colega Fábio Valentim, da Una Arquitetos, observando que as plantas "sutis" de Herzog e De Meuron ainda são feitas conforme a tradição - ou seja, sem a interferência do computador no processo de desenho (o instrumento serve apenas para explorar sistemas de construção e pesquisar novos materiais).Sobre o holandês Rem Koolhaas e o canadense Frank Gehry, respondendo a uma pergunta do crítico Guilherme Wisnik sobre o caráter programático de suas criações, Moneo define os dois como arquitetos pragmáticos, que resistem a figurar entre os "acadêmicos". Gehry assinou o projeto do Museu Guggenheim de Bilbao, Espanha, obra que durou cinco anos (até 1997) e foi recoberta de titânio. Koolhaas assina a inclinada sede da Central de Televisão da China, que será concluída este ano. "Ele é, sem dúvida, um intelectual, capaz de propor agudas percepções dos problemas que tem a arquitetura desde a sociologia", diz o arquiteto espanhol, destacando as formas sintéticas do colega holandês, para quem a arquitetura autêntica não está na linguagem acadêmica, mas no confronto com o establishment.Isso leva a uma outra questão, a de uma arquitetura rebelde, que aspira a ser obra de arte, como o Museu de Bilbao de Gehry. Respondendo a uma pergunta de Luciano Margotto, do Núcleo de Arquitetura, Moneo lembra que a arte pantagruélica do escultor sueco Claes Oldenburg, associado à arte pop americana dos anos 1960, marcou profundamente a arquitetura do canadense, aproximando-a do mundo formal sugerido pelo artista.Já sobre a condição poética da arquitetura do português Álvaro Siza, cujo modo de produção o aproximaria da poesia de seu conterrâneo Fernando Pessoa, Moneo destaca sua "capacidade de explicitar uma relação entre as coisas, para não dizer entre as formas, de forma iluminadora e inesperada". Para o arquiteto espanhol, não há populismo na obra de Siza, mas a "marca do autor". Siza é autor do projeto da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, que abriga a obra do pintor gaúcho. Moneo só viu o edifício por fotografias, mas já o classifica entre os melhores do colega português.

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