''A música sempre se transforma, e quem a orienta é o homem''

Compositor defende relação entre o artista e seu tempo e a busca por caminho próprio

Luiz Zanin Oricchio e João Luiz Sampaio, SANTOS, O Estadao de S.Paulo

28 de fevereiro de 2009 | 00h00

"Sinto-me cada vez mais como Villa-Lobos", escreve o compositor Gilberto Mendes em seu livro Viver Sua Música. O motivo está no ecletismo de sua formação e na maneira como ela passa para sua obra, ele explica na continuação da entrevista, na qual também fala de inspiração, das relações entre arte e política, da volta ao tonalismo na composição atual. E do cinema, sua grande paixão, "mais do que a música", brinca.ECLETISMO"O ecletismo da minha música tem a ver com o ecletismo da minha formação. Ela reflete todo o meu gosto, é um pouco alemã, americana, brasileira. Tem um lado muito intelectualizado na construção dela, o que é herança da música alemã, do dodecafonismo. Acho que minha obra, por isso tudo, é um pouco desigual, mas, ao mesmo tempo, é muito igual. Tem coisas que são quase populares, outras altamente experimentais. Para alguns, isso é um defeito. Mas é que eu sou assim. Eu participei com o Willy Correia de Oliveira, com o Rogério Duprat, da vanguarda mais radical, muito ligada à poesia concreta, racional, fechada, mas nunca ia me proibir de ouvir Prokofiev, Shostakovich, que eu adorava. Não vou me enganar, não apenas gosto deles como os acho grandes compositores. Sou capaz de ter a minha linha e gostar da linha dos outros, mesmo sem segui-la. Há pouco tempo, meu editor na Bélgica me encomendou uma peça para homenagear uma colega nossa pianista. Aí lembrei de um exercício de harmonia que fiz no conservatório, totalmente tradicional. Peguei ele e o usei nessa nova obra, mas continuando de maneira moderna, mesmo que tonal. Aí percebi que, por mais que eu esteja sempre variando, tem uma unidade muito forte em tudo o que faço. Tem alguma coisa que gruda tudo isso que eu faço."COMO VILLA?"Eu escrevo isso no livro, que me sinto cada vez mais como Villa-Lobos. É claro que minha música não tem nada a ver com a dele, não se parece com o que ele fez, mas eu me pareço um pouco com ele. Ele não teve uma grande formação de maestro, pianista, mas fazia o que podia. A forma dele é meio sem forma e as pessoas diziam que ele não sabia desenvolver os temas que criava. Não era isso, a forma dele é que era outra. Como acontece com a minha. E então me criticam. Mas não concordo. Acho a forma sonata magnífica, mas para mim não tem mais sentido fazer igual. A música de hoje é outra coisa. Villa entendia isso."AMÉRICA, AMÉRICA"No nosso continente surgiu a música popular urbana, não aquela coisa dos campesinos, que passa de geração em geração. É outra coisa, uma música viva, misturada, que se deve aos negros. Pode ver que é algo que só existe em países com negros em sua formação, Estados Unidos, Caribe, Argentina, Brasil. Toda a música urbana tem como base o ritmo negro, é ele que dá unidade à música das Américas. Acho que um dia vou escrever um artigo sobre isso."AMÉRICA, AMÉRICA - 2"O mundo latino, em especial o sul-americano, Argentina, Uruguai, foi fortemente influenciado pela escola de Darmstadt, tornaram-se mais radicais que os próprios europeus. Há um lado interessante. Precisamos conhecer tudo isso, conhecer todas as técnicas. Por outro lado, ficar só nisso é muito limitador. Eles são muito presos a estéticas. Mas os Cursos Latino-Americanos de Composição eram muito interessantes também porque tinha o lado político, era um movimento de resistência às ditaduras. Como a gente lidava com música, e não com texto, era mais fácil passar pela censura, sabíamos que éramos vigiados. Na hora de falar de estética, dava muita briga. Mas, no que diz respeito à política, concordávamos bastante."INSPIRAÇÃO"Minha grande paixão no século 20 é Stravinsky. É um caso curioso, você não aprende nada com ele, não tem teoria, técnica. Ele é ele. Ele mesmo dizia que seus companheiros, acho que falava no Schoenberg, faziam uma música totalmente planejada, cerebral. A minha música sai da minha cabeça, é só isso, ele dizia, mas tinha um complexo, tanto que no fim da vida começou a compor peças dodecafônicas, no fundo tinha medo de não deixar nada, nenhuma teoria, para a posteridade. Agora, o que saía da cabeça dele era uma coisa extraordinária. E o que simplesmente sai da cabeça é importante, tanto quanto o que você planeja cerebralmente, é o resultado do que você é. Eu sou um pouco das duas coisas. A gente precisa respeitar o que sai da gente e a que chamamos vulgarmente de inspiração, pois é resultado daquilo que somos. Mas, ao mesmo tempo, o cálculo pode te levar a descobertas que de outro jeito você talvez não fizesse."A VOLTA AO TONALISMO"Isso está acontecendo, mas em obras muito ruins, imitações baratas de Debussy. Claro, você pode fazer algo tonal e ser algo novo. Agora, se não quiser fazer isso, tudo bem, não faz, mas sua música vai morrer em si mesma, pois não se abre a novas combinações. A liberdade provocada pela quebra dos dogmas excludentes das escolas do século 20 pode, sim, ser perigosa mas, ao mesmo tempo, ficar sujeito à orientação de alguém também não é bom. E esse alguém posso ser eu mesmo. Sempre disse aos meus alunos da USP. A música nova de Darmstadt ainda é o padrão dominante e é importante aprendê-la, o estudante precisa conhecer suas técnicas. Mas, ao mesmo tempo, digo sempre que é preciso ter abertura, tem de procurar muitas coisas até encontrar seu caminho. No fim das contas, o negócio é ser bom. Quando você é bom, não tem erro. Shostakovich escreveu a ópera O Nariz, uma coisa extraordinária. Depois, o regime soviético caiu em cima dele, que passou a uma fase neoclássica. Sua música, porém, continuou incrível. Se é bom, é bom. Agora, eu tenho uma atração pela música europeia, mas também pelas outras. Se pendi para a música nova é porque havia uma técnica que me interessava. Mas a música se transforma e quem a orienta é o homem. Homem novo, música nova."FITÃO!"Eu vejo de um a dois filmes por dia. Ontem, vi um fitão do John Huston, de 1950. O Segredo das Joias, com a Marilyn Monroe. Fitão! Vi por acaso na televisão e fui ver de quem era o filme. Cada ator, não? Cada personagem! De primeiríssima, muito bom. Acho que gosto mais de cinema do que de música (risos). A imagem fascina. Mas também a música. Desde criança eu gostava de música de cinema. Gosto muito daquele Alfred Newman, que escreveu The Moon of Manakoora. E ele fez as coisas mais bonitas de música havaiana, diretamente tirada do Crepúsculo dos Deuses, de Wagner. Para mim, o som da felicidade é aquela melodia do filme Bonequinha de Luxo (ele cantarola), ou o final das Bodas de Fígaro, de Mozart. Como é bom ver um filme. Aliás, tenho um desejo, queria muito fazer uma ponta num filme. Pode ser um entregador de pizza, um barman. Não quero papel grande, não, eu não sou ator. Um barman tá bom." Momentos de uma vidaSANTOS FOOTBALL MUSIC: "Eu nunca fui amante de futebol, mas o crítico Enio Squeff me sugeriu escrever algo sobre o Santos, era uma época de ouro, do Pelé. Um dia, voltando de São Paulo, no carro, ouvi a irradição de um jogo e aquele falar rápido do narrador me deu uma ideia para a música. Aquilo era uma espécie de canto gregoriano, aí pensei em colocar mais duas vozes junto, o mesmo jogo mas em momentos diferentes. O engraçado é que a gravação é de um jogo em que o Santos perdeu. Eu tinha feito uma gravação para o maestro Eleazar de Carvalho quando ele fez a estreia na Europa. Mas, depois, na estreia no Municipal, um técnico do teatro sugeriu fazer outra. Com as gravações, eu coloquei a orquestra e a participação do público. Mas teve uma história curiosa. Foram fazer com a Sinfônica Brasileira a peça e os músicos se recusaram a brincar com a bola, como pede a partitura, dizendo que no estatuto não estava previsto. Eu argumentei mas, a certa altura, disse: ?Não querem fazer, então não façam, pronto.? Acabaram fazendo."FESTIVAL MÚSICA NOVA: "Em 1961, um amigo que fazia parte da comissão de Cultura nos ajudou e fizemos um concerto no Teatro Cultura Artística com obras dos ?quatro? da música nova: eu, Willy Correia, Rogério Duprat e Damiano Cozzella. No ano seguinte, sugeri trazer para Santos, mas colocamos junto algumas palestras. Um ano depois, eu, Willy e Rogério estávamos na comissão e resolvemos fazer de novo aquilo, agora com o nome de Festival Música Nova, inspirado na ?neue musik? de Darmstadt, de onde eu havia voltado. Não tinha muito dinheiro, mas era o espaço que tínhamos para divulgar nossa música. E foi ganhando espaço. Os críticos não gostavam - o Caldeira Filho falou tão mal de meu Santos Football Music que só faltou me chamar de vigarista -, mas o festival era muito noticiado. Em 1964 e 1965, com ajuda do Koellreutter, fizemos concertos interessantes, apesar da ditadura. Nos anos seguintes, a coisa ficou meio preta, mas tínhamos amigos que nos ajudavam."A INVASÃO DA CHECOSLOVÁQUIA: "Isso eu vi meio por acaso. Achei que fosse morrer ali (risos). Tinha um cônsul em São Paulo e ele se ligou muito a nosso grupo. Em 1968, quando fui a Darmstadt pela segunda vez, pensei em passar por Praga e perguntei se ele me arranjava alguma coisa. Ele disse que sim mas, quando cheguei lá, ninguém estava sabendo de nada. Mas foram prestativos, se ofereceram para pagar meu hotel, me deram ingressos para concertos, teatros. O hotel eu não aceitei porque estava em um prédio de estudantes baratinho, acho que era porque estava vazio, por conta das férias. Mas aceitei os convites e passei dois dias muito bons na cidade. Conheci uma senhora, diretora de um centro cultural da cidade, que me apresentou a um compositor que, mais tarde, fiquei sabendo ser uma figura importante. E, então, os russos invadiram a cidade. Acabou a festa, não tinha mais o que fazer além de pegar minhas coisas e voltar ao Brasil."EXPRESSIONISMO: "O dodecafonismo veio do atonalismo, ligado ao expressionismo. Quando estive recentemente na Alemanha, caminhava pelos bosques de Potsdam esperando encontrar o doutor Mabuse. Nos filmes, há uma visão interessante da música alemã. Quando lançaram Dr. Mabuse em DVD, gravaram direito a trilha e ali você encontra de Bach a Schoenberg. Que poderosa unidade tem a música alemã. Eu adoro o expressionismo. Lá na terra do Wagner, em Bayreuth, fui a uma lojinha de discos em que comprei três CDs com todas as músicas alemãs que eu ouvia na radioclube de Santos, com aquelas cantoras, Marlene Dietrich. Havia competição entre as músicas americana e alemã, mas também um paralelismo. Wagner inventou a música havaiana com O Crepúsculo dos Deuses (ele cantarola uma música de cabaré). Isso é música havaiana, a gente vê no cinema. Minha formação foi assim, americana e alemã, até que a bossa nova me fez gostar da música brasileira."

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