A música em diálogo constante com a vida

Edna Stern, pianista israelense; Intérprete fala sobre álbum que refaz caminhos da criação do mestre Bach

Entrevista com

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

20 de junho de 2009 | 00h00

Em um mercado saturado de gravações, oferecer novos olhares para os pilares do repertório é um dos grandes desafios a ocupar as mentes dos músicos de hoje. Quando acontece, é uma experiência especial, como no caso do novo disco da jovem pianista israelense Edna Stern, de 32 anos, Bach (selo Zig-Zag Territoires), que já recebeu, na França, o prêmio Diapason D?Or. Não se trata apenas do frescor da leitura (leia crítica abaixo). Ao montar o programa, ela desmembra o conjunto de peças de O Cravo Bem Temperado, intercalando com elas corais do compositor. E então, como mágica, ambos os repertórios se iluminam mutuamente. E Bach ressurge perante nossos ouvidos.Conexões que fogem ao óbvio têm sido parte importante da trajetória desta aluna de Krystian Zimerman e Leon Fleischer - e protegida de Martha Argerich. O disco anterior, dedicado a Schumann, colocava sua obra ao lado da de compositores de sua época: no encarte, textos em que Schumann comentava essas peças. Em seu site (www.ednastern.com), ela vai mais adiante. Além de trechos de suas gravações, você encontra um diário no qual ela discute, em um divertido fórum com seus ouvintes, diversos temas, desde como saber se um primeiro encontro deu certo até as relações sugeridas pela escuta de Mozart e a leitura de Diderot. "O ato de fazer música tem a ver com sentir-se vivo e saber escutar a beleza. É, para mim, portanto, natural procurar essa beleza em outras áreas da vida e da arte", diz ela na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Estado.Como você chegou ao conceito do novo disco dedicado a Bach?Não estou totalmente convencida de que O Cravo Bem Temperado de Bach foi composto para ser escutado ou interpretado em sequência, do início ao fim. Acredito que Bach escreveu esses dois livros de 24 prelúdios e fugas com o propósito de explorar as possibilidades e as invenções composicionais relacionadas à forma e à tonalidade. Meu disco é construído em torno de um círculo de tonalidades, suas relações e os efeitos resultantes delas. Resolvi também incluir um coral antes de cada grupo de três prelúdios e fugas para permitir ao ouvinte perceber a conexão entre esses dois diferentes tipos de peça, uma vez que os corais de Bach estão no cerne de toda a sua obra e oferecem ligação entre a música e a crença e ideologia cristãs do compositor. No diário que mantém na internet, você escreveu que "a música é o reflexo de um mundo, uma geografia, uma época e seus indivíduos". Seria correto afirmar que a maneira como reinterpretamos hoje a música de um autor como Bach diria algo também sobre nossa época?É uma questão intrigante e complexa. E não sei bem se posso respondê-la sem muito tempo de reflexão e estudo. Acho, no entanto, que essa é uma questão fundamental, que deve ser debatida e, principalmente, estar constantemente na mente de um intérprete ao longo de toda a sua carreira.Em seu disco dedicado a Schumann, sua música aparece ao lado da de seus contemporâneos. Qual a importância de diálogos assim?A obra deixada por Schumann inclui um longo testamento sobre como ele ouviu e compreendeu a música. Por meio desses textos, podemos bisbilhotar lá dentro dele, de seu mundo, de seu ouvido. Por conta disso, pensei que Schumann poderia ser um ponto de partida privilegiado para se investigar a relação entre ouvir e compor música. Neste disco, portanto, resgatei reflexões de Schumann sobre seus contemporâneos, encontradas em alguns de seus textos críticos. De certa forma, o conceito gira em torno da conexão entre música e pensamento. Assim, você pode ouvir um prelúdio e fuga de Mendelssohn e ler o que Schumann escreveu sobre ele. Infelizmente, o projeto foi considerado longo demais pela gravadora, então coloquei outros trechos no meu site. Ali, você vai encontrar suas visões sobre Chopin, por exemplo, ou o célebre trecho de um texto sobre Brahms: "Tirem os chapéus, senhores, aqui está um gênio."Em seu diário, a tentativa de incluir a produção clássica em um contexto mais amplo leva a textos em que compositores são discutidos em conjunto com outros gêneros artísticos. É o caso, por exemplo, da relação que você faz entre o cineasta Luchino Visconti e o compositor francês César Franck. Seria essa uma tentativa de trazer a música clássica de volta às discussões relacionadas à arte contemporânea?O ato de fazer música tem a ver com sentir-se vivo e saber escutar a beleza. É, para mim, portanto, natural procurar essa beleza em outras áreas da vida e da arte. No caso de Visconti, por exemplo, o filme Vagas Estrelas da Ursa é tão impressionante que me fez compreender melhor efeitos que não havia percebido no Prelúdio, Coral e Fuga de Franck. Discussões interessantes são sempre bem-vindas e o diário é uma excelente ferramenta para torná-las possíveis. Coloco lá o que penso sobre música, sobre literatura, enfim, da mesma maneira que respondo a questões sugeridas por leitores. Recentemente, me perguntaram sobre o humor na música, tema sobre o qual jamais havia pensado. Buscar respostas a essas perguntas pode revelar muito sobre nós e nosso trabalho. E o fórum é interessante, ideias vão se unindo como pequenas luzes a iluminar um quadro. Talvez eu deva colocar a sua segunda questão lá.Você trabalhou com Martha Argerich, Leon Fleisher e Krystian Zimerman. O que aprendeu com eles?Quando era bem jovem, vivi na Bélgica, na mesma cidade que Martha Argerich, e costumava ir à sua casa e tocar para ela. Sua influência sobre mim foi enorme, mas mais no que diz respeito à sua personalidade. Meus estudos foram mesmo com Krystian Zimerman e Leon Fleisher. Em comum, eles tinham a atitude respeitosa com a obra, a prioridade era estar a serviço da música e do compositor. Fleisher sempre dizia: "Apoie o compositor." Ambos me ensinaram, cada um a seu modo, a importância de se respeitar a partitura.Em uma entrevista recente, você disse que prefere não seguir pianistas como modelos mas, sim, grandes orquestras e seus maestros. Você também cita o maestro alemão Wilhelm Furtwängler. Por quê?São poucos os compositores que escreveram para o piano sem pensar nele como uma espécie de orquestra. Chopin é a única exceção que conheço. O que torna o piano um instrumento tão rico é que ele pode conter muitas vozes ao mesmo tempo, e cada uma delas tem sua personalidade, o que, no final das contas, é a característica básica de uma orquestra. Dependendo das peças, elas podem até mesmo ser traduzidas para uma sinfônica, como os Estudos Sinfônicos de Schumann. A ideia central é: o piano não é um só, mas vários. Por isso gosto tanto de ouvir bons maestros e orquestras e tentar entender as escolhas de orquestração dos compositores que estou interpretando. De pianistas, gosto de ouvir gravações antigas de Yves Nat, Rachmaninoff e Cziffra. Quanto aos maestros, meu gosto se inclina na direção de artistas da escola antiga, Furtwängler, Otto Klemperer, Carlos Kleiber. Mas tenho gostado muito de ouvir gravação de John Eliot Gardiner e de Pierre Boulez regendo Schoenberg e Ravel. RELAÇÕES: "Tocar é sentir-se vivo, saber ouvir a beleza. É natural buscá-la em outras áreas da existência e da arte"BACH: "Não estou convencida de que as peças de O Cravo Bem Temperado devam ser executadas em sequência"MENTORA: "Ia sempre ao apartamento de Martha Argerich ensaiar com ela. Aprendi muito com sua personalidade"

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