A música como instrumento real de contestação

Com Homemúsica, Michel Melamed encerra sua trilogia sobre o Brasil

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

12 Março 2009 | 00h00

A inquietação do ator, cantor, compositor e autor Michel Melamed chega à sua terceira parte: no espetáculo Homemúsica, em cartaz no Sesc Anchieta, ele encerra sua Trilogia Brasileira com idêntico grau de insatisfação misturada com bom humor. Se o primeiro, Regurgitofagia (de 2004), incentivava deglutir o que vem do exterior imposto como cultura e vomitar um conceito novo, mais adaptado à condição nacional, e o segundo, Dinheiro Grátis (2006), promovia um leilão em que não apenas bens materiais eram disputados, como também valores normalmente difíceis de avaliar como amor e lealdade, Homemúsica fecha o ciclo pregando a força da palavra, especialmente aquela dita por meio de uma canção. O espetáculo acompanha a trajetória de Helicóptero, jovem em que cada parte do corpo emite o som de um instrumento musical. Decidido a ganhar a vida como artista, ele segue para uma grande cidade a fim de participar do programa de maior audiência da TV brasileira: o Show do Estupra. As coisas, porém, não acontecem como previstas e, em vez do reconhecimento, Helicóptero encontra o amor e, então, o desamor. "E há melhor tema para uma canção?", questiona Melamed. Basta ter uma ligeira intimidade com seu trabalho para concluir que Melamed é visceral no que apresenta - a invisível quarta parede que separa público do palco normalmente é quebrada por formas vibrantes de comunicação. Em Regurgitofagia, o ator tinha o corpo atado a vários cabos que, a qualquer emissão de som no teatro, emitiam choques elétricos. Já Homemúsica rompe outra fronteira, a que separa a encenação de uma peça de um show musical. Acompanhado por um power trio (guitarra, baixo e bateria), Melamed assume a guitarra e os vocais para apresentar canções de sua autoria, parcerias, além de versões de Manu Chao e New Order. E, para reforçar a condição de homem-orquestra do personagem Helicóptero, o ator se abastece ainda de uma infinidade de instrumentos musicais, imagens e engenhocas sonoras, como um equipamento eletrônico que o envolve e emite sons de percussão conforme batuca no próprio corpo. Ao fundo, um enorme telão projeta palavras e imagens, que dialogam com o discurso de Melamed e suas apresentações musicais. Aí está sua mais precisa e envolvente arma - por meio de um discurso eloquente e quase sempre engajado, ele não apenas promove um casamento entre linguagens diversas (teatro, literatura, poesia, tecnologia, artes plásticas, música e o que a inspiração do dia produzir) como coloca a plateia em contato direto com o espetáculo, em uma interação voluntária e nada constrangedora. Como a música é componente essencial da cultura do brasileiro, Melamed sabe que a adesão é fácil e quase imediata. Cultor da palavra, ele se dedicou integralmente à minissérie Capitu, exibida pela Globo no ano passado, inspirada em Dom Casmurro. Como Bentinho na fase adulta, ele passeou com versatilidade entre as envolventes palavras de Machado de Assis pelo simples fato de ser um leitor voraz desde a adolescência - assim, as frases despontam aos borbotões de sua mente, todas proferidas como se fossem definitivas. A entrega total à minissérie (durante oito meses, chegou a trabalhar durante 16 horas por dia, com apenas uma folga na semana) atrasou a estreia de Homemúsica em São Paulo - inicialmente, estava prevista para o início do ano passado. Retardou também o lançamento de um CD e de um livro, ambos baseados no espetáculo. Mas Michel Melamed não se dá por vencido. Encerrado esse ciclo, ele já se prepara para a nova fase, ainda não definida em sua mente. Se já não escreve mais compulsivamente como antes, quando não passava um dia sem rascunhar algo em um guardanapo, Melamed mantém intacta a inquietação de quem observa os problemas do mundo com o olhar de artista - e, como tal, tem a melhor solução para tudo. Serviço Homemúsica. Teatro Anchie-ta Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. 6.ª e sábados, 21 h; domingos, 19 h. R$ 20. Até 29/3

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