A música como alternativa a impasse social

Em sua primeira direção, Malu Mader acompanha, no documentário Contratempo, o desafio de jovens carentes do Rio

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

A realização do documentário Contratempo, que estreou ontem, renderia outro filme, tamanha a quantidade de, digamos, contratempos que retardaram a filmagem de jovens carentes do Rio, que tentam encontrar alternativas para o impasse social brasileiro - selecionados para integrar um projeto social ligado à música, o Villa-Lobinhos, eles passaram por transformações, mas nem sempre as esperadas."Eu queria estrear como diretora, mas não encontrava o projeto adequado - até temia não conseguir fazer nada", conta Malu Mader, que divide a direção com Mini Kerti. "Ao mesmo tempo, eu estava envolvida com o projeto, encantada com as transformações sofridas por aqueles jovens." Madrinha dos músicos do Villa-Lobinhos, ela filmava as formaturas e, aos poucos, colecionou um emaranhado de histórias humanas muito ricas.Como a de Thiago, o primeiro nome a surgir no documentário, rapaz que enfrentou problemas com drogas durante a adolescência e passou três vezes por clínicas de desintoxicação. Disposto a ter uma vida mais limpa, ele entrou no projeto para aprender cavaquinho, mas logo se interessou também por pandeiro e outros instrumentos de percussão."Eu tinha plena certeza de que o Villa-Lobinhos seria um canal de transformação para ele e os demais, com quem conversei muito ao longo dos anos", conta Malu, que retardava as filmagens por motivos diversos - a falta de verba era a mais premente, mas logo ela se envolveu com a novela Celebridade. Também passou por sérios problemas de saúde que abalaram sua confiança até mesmo para representar.Mesmo fragilizada, continuou acompanhando as apresentações dos garotos, percebendo que as histórias de cada um deles eram até mais sofredoras que a sua própria. Como a de Serizak, que foi entregue ainda bebê para um orfanato até ser adotado por um casal francês. Depois de viver durante dez anos na França, retornou ao Brasil com os pais adotivos. Sofrendo de alcoolismo, o pai terminou por devolvê-lo à Justiça. Ele foi então para um orfanato em Cabo Frio, onde aprendeu cavaquinho e logo foi selecionado para o projeto."Senti que a identificação com aqueles meninos crescia cada vez mais", afirma Malu. "Talvez eu estivesse naquele momento com alguma inquietação minha também, querendo reformular alguma coisa na minha vida." Foi quando surgiu a oportunidade de se rodar um curta-metragem, mais viável economicamente. Assim, juntou-se ao projeto Mini Kerti, diretora com experiência em cinema. A ideia era mostrar o encontro de uma menina da zona sul com um garoto carente, na Gávea. Acabou não vingando: "A realidade deles acabou por se impor, porque eram muitas histórias interessantes, muitas possibilidades", relembra Malu.Trajetórias como a de Rafael Nogueira, também órfão, morador de rua na infância até ser abrigado no mesmo orfanato de Cabo Frio que acolheu Serizak. Lá, eles se conheceram, Rafael aprendeu cavaquinho e baixo e também foi selecionado para o Villa-Lobinhos, instalando-se no Morro Santa Marta, onde abriu uma lan house com Serizak e outro rapaz do projeto, Marquinhos. Malu Mader lembra que o projeto do filme se solidificou em sua cabeça quando assistiu ao Falcão, documentário do rapper MV Bill e Celso Athayde sobre os pontos mais barra-pesada do tráfico de drogas do País. A crueza das cenas, especialmente a do garoto que se dizia cansado da vida criminosa apesar de contar com apenas 9 anos, tocou profundamente a atriz, que iniciava a metamorfose para se transformar em diretora.Foi quando se conseguiu captar um mínimo de recursos, necessário para começar a filmagem. "Nessa época, já éramos conhecidas de longa data dos meninos", comenta Mini Kerti, que acompanhou alguns deles na apresentação que fizeram em Nova York - Malu ficou, pois era seu aniversário. "Foi uma experiência emocionante, mas sobretudo muito engraçada", conta Mini. "Os comentários dos meninos a respeito dos carros e dos prédios, de tudo que eles já haviam visto nos filmes americanos e a vontade de consumir."Mas, lamentam as diretoras, o final não é totalmente feliz. Thiago, aquele que primeiro aparece no filme, logo seria uma vítima do crime organizado. Seu esforço, porém, não foi em vão: a ele é dedicado o documentário. ServiçoContratempo (Brasil/2008, 91 min.) - Documentário. Dir. Mini Kerti e Malu Mader. Livre. Cotação: Bom

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