A música, abrindo a mostra suíça

Martha Argerich, Conversa Norturna inaugura, no Centro Cultural São Paulo, a programação Pastores, Amantes e Sonhos

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2008 | 00h00

No ano passado, Georges Gachot esteve no Peru acompanhando a exibição de Martha Argerich, Conversa Noturna no evento Pastores, Amantes e Sonhos. A mostra, apoiada por representações diplomáticas da Suíça na América Latina, visa a divulgar um aspecto menos conhecido da cultura do país. A Suíça é renomada pelos chocolates, queijos e relógios que produz, mas seu cinema - caracterizado pela multiplicidade étnica e cultural - circula pouco, mesmo em grandes eventos internacionais de audiovisual. Gachot esteve em Lima e Puno. Como ele conta, ''a música clássica não é o forte das platéias peruanas, mas o público reagiu, apaixonado. Foi emocionante.''Foram necessários dez anos para que Gachot conseguisse filmar Martha Argerich (leia ao lado). Logo depois ele descobriu o Brasil, fez um documentário sobre Maria Bethânia (Música É Perfume) e trabalha agora em outro sobre Nana Caymmi (ainda sem título). Como diz o próprio Gachot, seus documentários sobre música, ou músicos, possuem um recorte particular. Logo na abertura de Conversa Noturna, Martha Argerich diz que viu na TV um programa, Big Brother, no qual as pessoas se expõem. Não é o caso dela, e Martha até pede a Gachot que desligue sua câmera. A tela fica escura, por alguns segundos.Adentrar, com consentimento, na vida de alguém que preserva sua privacidade é algo complicado, mas Gachot conseguiu, como você poderá confirmar assistindo a seu filme que abre hoje a mostra Pastores, Amantes e Sonhos. Até dia 22, no Centro Cultural São Paulo, serão exibidos 13 longas e 12 curtas que mapeiam a produção suíça dos anos 2000/2005. O encontro de Gachot com a lenda do piano argentino tem um interesse especial no País porque Martha, afinal, é parceira de outro ícone, Nelson Freire, em concertos memoráveis. Só que a mostra reserva muito mais para o prazer dos olhos e ouvidos dos espectadores. A força do novo cinema suíço, surgido nos anos 60, está nos documentários e filmes de autor. A mostra fala de sentimentos, de raízes e sonhos. Veladamente, coloca a política em discussão. O Gênio Helvético, de Jean Stéphane Bron, expõe como funciona o Parlamento suíço; Em Direção ao Terceiro Milênio, de Eric Langjahr, documenta pastores divididos entre a tradição e a modernidade; Todo Um Inverno Sem Fogo, de Greg Zglinski, trata do drama de um casal cuja filha morreu num incêndio; Rumo ao Sul, de Vincent Pluss, é sobre religioso divorciado que tenta reatar com a ex-mulher; Utopia Blues, de Stepan Haupt, conta a história de músico jovem confrontado com as amargas lições que a vida proporciona; Vento do Norte, de Bettina Oberli, mostra homem que oculta da família sua demissão da empresa em que trabalhou por 20 anos. Na sexta-feira começa outra mostra, de inéditos do cinema francês. Os cinéfilos precisarão desdobrar-se.

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