A mulher no teatro do século 20

Obra resgata o seu papel como atriz, dramaturga, diretora e empresária

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

26 de dezembro de 2008 | 00h00

Existe um matriarcado na cena teatral nacional? A resposta - ou um conjunto delas - a essa provocação rendeu o livro A Mulher e o Teatro Brasileiro do Século XX, editado pela Hucitec (414 págs., R$ 42), já nas livrarias. Organizado pelas professoras e pesquisadoras Ana Lúcia Vieira de Andrade e Ana Maria de B. Carvalho Edelweiss, o livro traz uma série de artigos cujo objetivo é o de investigar a contribuição para a imagem do feminino de artistas pioneiras do palco que atuaram em um tempo no qual o envolvimento com a atividade teatral podia ser considerado até, em alguns casos, "uma variante do exercício da prostituição".Cada capítulo foi escrito por um convidado e entre as mulheres analisadas estão desde atrizes que lutaram à frente de companhias teatrais - como Bibi Ferreira, Maria Della Costa e Cacilda Becker - até dramaturgas que fizeram do universo feminino tema de suas peças como Consuelo de Castro, Leilah Assumpção e Maria Adelaide Amaral. Há ainda perfis iluminadores como o de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), intelectual muito à frente de seu tempo, que participou de congressos feministas e fez da opressão à mulher tema de suas peças. Em conjunto, os artigos desenham um gráfico de avanços e recuos na luta pelo desenvolvimento de teatro capitaneada por essas mulheres, em sua grande maioria munidas quase exclusivamente de paixão e intuição. As organizadoras não deixaram de fora mestras de toda uma geração de atrizes, como Dulcina de Morais e Maria Jacintha. Nem tampouco desprezaram, como costuma ocorrer, o teatro infantil, daí a presença da dramaturga Maria Clara Machado. Veteranas como Fernanda Montenegro, Tônia Carreiro e Marília Pêra estão entre os nomes selecionados, além da crítica teatral Bárbara Heliodora.Claro que toda escolha pressupõe também exclusões, sempre questionáveis. Por que a ausência de Lélia Abramo, por exemplo, de reconhecida importância na luta pela regularização da profissão de atriz? E Nicette Bruno, e Miriam Mehler, e Miriam Muniz? A lista seria longa. Mas já no prefácio as organizadoras avisam: vem aí, em breve, o segundo volume. "E todos esses nomes estarão lá", diz Ana Lucia Vieira de Andrade, que falou ao Estado sobre esse projeto que apenas começa com esse livro.No prefácio você explicita o desejo de realizar uma investigação sobre a contribuição da mulher ao teatro brasileiro. Porém alguns capítulos se tornaram perfis, pequenas biografias de atrizes ou dramaturgas, aos quais parece faltar um direcionamento ou recorte temático. Houve um desvio de foco? As pessoas que contribuíram para esse primeiro volume tinham trabalhos prontos: dissertações, teses, biografias. De certa forma, elas adaptaram esses estudos, todos de grande envergadura, ao enfoque do livro. Talvez por isso, as questões levantadas no prefácio não estejam claramente expostas, mas apesar disso acho que o leitor encontra respostas. Por exemplo, ao ler como Bibi Ferreira começou a dirigir peças, a forma como ela se colocou como diretora num espaço masculino, simplesmente ler sobre isso já se torna bastante esclarecedor da situação vivida pela mulher na época e do papel de Bibi como pioneira. Nada se transformou tanto como o comportamento da mulher nos últimos 50 anos. Nesse sentido, o teatro sempre foi até mais generoso que outras áreas, não? Sempre foi. Mas a explicação para isso aparece no livro. A maioria das artistas vem das classes mais populares. Vindas de famílias mais afastadas da classe média não precisavam seguir os padrões do comportamento desse núcleo, podiam ter liberdade para se colocar no mercado. E necessidade, porque precisavam do sustento.No prefácio você pergunta: o teatro brasileiro é um matriarcado? É apenas uma provocação?Não, é uma ótima pergunta. O leitor vai entender que a resposta é não, porque existem muitas figuras femininas na cena brasileira, mas não é um matriarcado porque essa mulher não tem poder. Isso fica claro. As que conseguiram ter um domínio maior lutaram muito para isso e ficaram muitas vezes com a pecha de marginais. Foi o caso, por exemplo, de Dercy Gonçalves, uma mulher com luz própria que nunca foi totalmente absorvida nem mesmo pelo meio teatral, até porque teve de criar uma persona para sobreviver. Mas você não acha que essa rejeição não era questão de gênero, mas de estilo teatral personalista e de comicidade popular num momento em que o teatro se modernizava?Sim, mas tem também questão de gênero embutida. Ela criou uma persona de liberdade, que usava plenamente os seus sentidos, que dizia o que pensava e isso ia de encontro à figura feminina tradicional. A sociedade assimila Dercy, mas não totalmente, jamais ela será considerada uma grande atriz.Você acredita mesmo numa questão de gênero na não aceitação de Dercy como atriz?Acho que as pessoas não se deram conta disso e admito que essa questão não está esmiuçada no artigo da Virginia (M.S. Maisano Namur, autora do capítulo sobre Dercy), mas ela tomava atitudes inconcebíveis para as mulheres da época. Era até difícil ver Dercy como mulher ou chamar de atriz sua persona. Acho que ela não foi ainda plenamente estudada, mas o artigo de Virginia consegue explicar suas escolhas estéticas a partir de sua infância. Uma mulher com a coragem de fazer o que ela fez, mandar o noivo para ?aquele lugar? - só ter essa história esmiuçada num artigo já é muito importante. Serve para mostrar que a luta das mulheres por liberdade foi árdua e feita ao longo do tempo, por muitas delas. Nesse sentido o texto de Maria Cristina de Souza sobre Júlia Lopes de Almeida é iluminador. Uma mulher que nasceu em 1862 e foi jornalista, contista, romancista, participou de congressos feministas e, como dramaturga, denunciou a opressão da mulher em suas peças. Sempre que o enfoque recai sobre dramaturgas - Leilah Assumpção, Consuelo de Castro, Maria Adelaide Amaral - o livro retoma o objetivo apontado no prefácio. É só impressão minha?Não, isso realmente ocorre. As atrizes dependem de um mercado de trabalho em que o público é conservador. Daí em geral elas ficam mais expostas e mais reticentes, não querem se voltar muito para questões polêmicas porque podem perder público. Ficou claro para mim, fazendo esse livro, que elas tendem a analisar o teatro nas categorias de sucesso ou fracasso, sem que haja reflexão teórica mais profunda por trás disso. O medo do fracasso talvez seja o elemento que impeça essas atrizes de abraçar causas mais feministas ou a simples preocupação de buscar e colocar no palco a mulher brasileira, porque elas temem a visão masculina ainda predominante no seu público. No Brasil atores e atrizes são também empresários. Mais uma vez, parece que não se trata de questão de gênero, mas de ausência de políticas públicas pensadas para tornar o teatro mais ousado, menos dependente do gosto médio, não?Sim, apoio estatal seria importante para que as atrizes pudessem abraçar uma dramaturgia mais politizada e também para que formassem um público mais apto a compreender e apreciar essas criações. Porque, se o público não corresponde, o ator não faz e a política de patrocínio privado, via renúncia fiscal, também é conservadora, depende de pensamento empresarial. Esse livro, por exemplo, teve o patrocínio de Furnas, mas antes disso bati em portas de muitas empresas e mesmo as que lidam com produtos ditos femininos disseram que não tinham o menor interesse.O que você chamaria de dramaturgia feminina? Existe?O que penso disso é resultado de anos de pesquisa. É questão muito polêmica - existe, não existe, é sempre uma briga. Minha visão é: nem sim, nem não. Sair dessa rixa é uma questão pragmática. Algumas autoras de teatro têm a preocupação de se colocar como mulheres no seus textos, de explorar questões do universo feminino. Outras não vêem isso como prioridade, não se preocupam, então esse aspecto aparece com menor intensidade em sua obra. Por isso, as pessoas falam sobre alguns textos: olha aqui, nem parece que foi escrito por mulher. Mas quando ela quer tratar disso, então esse tema se reflete de forma muito diferente do que se tivesse sido escrito por um homem.Mesmo que seja um autor sensível ao feminino?Só se ele estiver muito conectado e queira ser porta-voz desse universo, mas isso é muito raro, praticamente impossível.Mas você também observa, no seu prefácio, que muitas mulheres ao se expressarem o fazem já impregnadas das imagens do feminino que vieram da visão masculina. Isso acontece muito em certas comédias na quais o assunto supostamente é mulher, mas só se fala de homem. Nesse sentido, a Nora, personagem da peça Casa de Bonecas, de Ibsen, é mais avançada do que essas mulherzinhas de comédias rasteiras, não?Daí a importância de jovens lerem livros como esse. É preciso entender que existe uma história e o feminino é uma construção de anos. Se a autora não tem essa consciência esse aspecto não vai aparecer de forma crítica em sua obra e ela vai projetar no palco um sujeito masculino, porque projetaram isso nela. A mulher então será sempre retratada de forma frívola. Essa é a luta, representar as questões que a mulher enfrenta no dia a dia fugindo de estereótipos.

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