A militância qualificada em defesa do ambiente e de raças

Pioneirismo se manifesta na luta em favor da natureza e contra o racismo

Mauro Leonel, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 00h00

"Antes de se pensar em defender a natureza para o homem, deve-se pensar em protegê-la do homem", disse Lévi-Strauss em 76 à Assembléia da França. É interessante que tenha defendido uma explicação da liberdade fundada no homem "ser vivo" e não no "ser moral". "Os direitos dos humanos cessam no momento em que seu exercício põe em risco a existência de outra espécie", declarou ainda na Conferência de Estocolmo, Clube de Roma, Relatório Bruntland, anteriores à Eco-92, na dianteira do ambientalismo.É sobre os limites à satisfação das necessidades dos homens que adverte: "Não deveriam ir até a extinção da espécie a que pertencem." E pergunta: "Como conceber um fundamento das liberdades tão forte quanto evidente?" O pensador vai encontrá-lo no direito à vida. "O desaparecimento de uma espécie cria um vazio irreparável na escala do sistema da criação." Pioneiro da sociobiodiversidade, para ele existe "um direito do meio ambiente sobre o homem - e não um direito do homem sobre o meio ambiente".Os direitos dos seres vivos à liberdade não são fundados em racionalidades universais. Diferença e pluricidade não são abstrações, mas modo de ser, no qual a liberdade desabrocha e cresce. Não liberdades de conteúdos positivos impostos em sociedades incapazes de engendrá-los; liberdades vivas, "heranças, hábitos, crenças, preexistentes às leis e que estas têm por missão proteger". De jovem socialista, Lévi-Strauss se transforma em humanista justo, pacifista, fundado na diversidade biológica e cultural dos humanos.Durante seu longo aprendizado, milita na revisão do pensar as relações sociais, nos anos 20-30, no Instituto Internacional de Cooperação Intelectual. E nos 50, inicia parcerias nas formulações raciais da Unesco, na comissão de especialistas e como seu secretário-geral de 52 a 61. Com Raça e História, abre em 71 o Ano Internacional da Luta contra o Racismo, "pá de cal" nos preconceitos, sendo o racismo não um excesso nazista, mas uma trama mal escondida no tecido social. A 20ª sessão da Unesco (78) aprova a declaração sobre raça e preconceitos. Em 2005, Lévi-Strauss é a personalidade do 60º aniversário da Unesco, por seus 50 anos de cooperação militante.Retirou a legitimidade dos argumentos racistas da diversidade biológica e demonstrou que "cada ser humano é uma parcela da humanidade". Só a difusão de saberes não garante o fim da intolerância. O intelectual adverte quanto à saturação demográfica, competição por recursos, como estímulos ao racismo. Abre este rico universo com sua curta visita aos Tristes Trópicos, entre os nambiquaras, cadiuéus, pela pesquisa empírica.Dizendo-se sem nenhum gosto pela antropologia aplicada, reconhece que essa ciência dispõe de imenso aparelho teórico e prático. E aprende com Marx, no tributo aos inspetores de fábrica ingleses "experimentados, imparciais, rigorosos e desinteressados". Marx vai longe: "Perseu cobria-se de uma nuvem para perseguir os monstros; nós, para podermos negar a existência das monstruosidades, mergulhamos inteiramente na nuvem, até os olhos e os ouvidos."Surpreende-se com as sociedades de floresta, segundo ele "concebidas para excluir o emprego desse motor da vida coletiva, que utiliza a separação entre poder e oposição, maioria e minoria, exploradores e explorados". Para Lévi-Strauss, elas desafiam o progresso, paradigmas paradisíacos, socialismo mítico, capitalismo "humanizado", degraus garantidos por leis mágicas. Progresso e escravidão vão juntos, eis o espanto diante das sociedades com todas "as condições de humanidade", recusando a submissão.Desafiam a modernidade, sua "superioridade": desigualdade, risco ambiental, demografia/recursos escassos; sociedades/naturezas; conglomerações; divisão do trabalho. O excesso dessas sociedades foi suplantado pelas guerras de extermínio e Hiroshima. Apenas são diferentes, o ideal seria o encontro de características das duas sociedades "quentes" e "frias". O "progresso" é desarmonia, mercado/estoque fundam conflitos, carestia e desperdício. Situa na revolução neolítica, "nos grandes Estados-cidades da região mediterrânea e do Extremo Oriente" - na escravidão - "construindo um tipo de sociedade em que a separação diferencial entre os homens - alguns dominantes, outros dominados - pode ser utilizada para produzir cultura, com um ritmo até então inconcebível e insuspeitado". Mauro Leonel é professor assistente, livre-docente, Sociedade/Ambiente/Cidadania -Each/ Prolam USP. Pós-graduação em Integração latino-americana

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.