A mesma praça, mas com 7 teatros

A Roosevelt atrai, desde 2002, um número cada vez maior de espaços e hoje vê nascer mais um, no seu número 108

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

13 de abril de 2009 | 00h00

Artes cênicas iluminam noites da Praça Roosevelt. Com esse título, uma reportagem publicada no Caderno 2, no dia 18 de setembro de 2002, detectava os primeiros efeitos da concentração de teatros no aumento da movimentação de pessoas na Praça Roosevelt, que tinha fama de ser uma das áreas mais perigosas da cidade. Quatro teatros - Studio 184, Satyros, Teatro X e Teatro Recriarte Bijou - começavam a atrair espectadores, muitos ainda receosos por estarem ali, como mostram as entrevistas feitas pelo Estado na época. "Espero que em breve as pessoas se refiram à Praça Roosevelt como a praça dos teatros" - disse o ator Regis Santos, do Teatro X, no fecho da reportagem.Que tal desejo se tornou realidade ninguém mais duvida. Passados mais de seis anos, a praça entrou definitivamente para o circuito teatral da cidade, concentra seis espaços culturais e hoje à noite será inaugurado, com festa para convidados, o sétimo - o Miniteatro, na altura do número 108, bem próximo ao Satyros 2, antigo Teatro X. A fachada colorida não chega a chamar atenção das pessoas que passam apressadas pela calçada da Roosevelt pela manhã, horário propício para ensaios, não para sessões teatrais. A dramaturga Marília Toledo faz força para levantar a porta de ferro, semelhante a essas de armazém, do espaço que servirá de sede para a Cia. da Revista, fundada por ela e pelo diretor Kleber Montanheiro. Depois de apreciar as imagens e esculturas coloridas na parede do diminuto hall de entrada, o olhar é atraído pela disposição dos assentos no térreo do Miniteatro. "Para melhor aproveitar o espaço, comprido e estreito, criamos esses módulos de madeira que permitem diferentes usos", explica Marília. São blocos quadrados de madeira de dois tamanhos que se transmutam do formato de arquibancada tradicional para o de mesinhas de bar no estilo cabaré com apenas alguns movimentos da dupla Marília e Kleber. Não é diferente na sala superior, onde cadeiras repousam sobre praticáveis apoiados sobre pequenas rodas. "Ontem à tarde, eu passei umas três horas só movimentando esses módulos de lugar, testando as possibilidades de mudança espacial. Descobri duas ou três versões ainda não imaginadas", informa Kleber. Criatividade é mesmo o melhor trunfo de quem se dispõe a ocupar uma arquitetura não planejada para as artes cênicas. "O pé-direito é muito baixo, as limitações existem, mas a beleza também está no desafio de superá-las", argumenta Kleber.O espectador curioso terá o que apreciar no espaço para além da programação teatral. O hall superior vai abrigar uma peça de grande valor histórico: a primeira mesa de luz do famoso Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), doada pelo produtor Leo de Leo. Das escadas será possível apreciar ainda uma instalação de Guto Lacaz criada especialmente para o local, intitulada meio relógio. No térreo, há ainda um pequeno bar, toaletes, e um gongo para anunciar o início da sessão. Marília Toledo aponta outro aspecto, aparentemente simples, porém motivo de celebração para qualquer grupo teatral: a alegria de ter um espaço para ensaiar. "Ontem trabalhamos com farinha, experimentamos manipular alguns materiais para simular sangue, fizemos sujeira com a maior liberdade", comemora. O espetáculo em ensaio era De Vita Sua, que é baseado no livro Um Monge no Divã. Será a primeira montagem da Cia. da Revista criada já no novo espaço e com a sua estreia prevista para maio. Mas a programação, para o público, começa bem antes, com as reestreias de Bem Aventurados os Anjos Que Dormem, na sexta-feira, meia-noite, e A Odisséia de Arlequino, da série clássicos para crianças, no domingo, às 16 horas. Ambos têm dramaturgia de Marília e direção de Kleber. "Anjos tem como tema central o eterno desejo do homem de imitar deus. O problema é que depois ele não dá conta de sua criatura", lembra Marília. São tramas que se passam em época distinta, mas que têm em comum o desejo de trazer de volta à vida um cientista, o dr. Stein. Já Odisseia, espetáculo voltado para público de qualquer idade, tem como personagens os tipos da chamada Commedia dell?Arte - os enamorados e o velho metido a sabichão entre outros, com roteiro assinado por Marília. Por que a Praça Roosevelt? "Claro que a circulação de público por conta da concentração de teatros foi um fator de atração", diz Marília. A vizinhança, claro, não lhe é estranha. Ela dividiu com Marçal Aquino o Prêmio Shell deste ano pelo texto de Amor de Servidão, que fez temporada ali na praça, no Espaço Parlapatões. "A escolha também se deveu ao preço do aluguel, um pouco mais barato do que em outros espaços pretendidos." Por enquanto a dupla bancou todos os custos, contou com a colaboração de amigos, e reutilizou objetos do acervo da companhia. "Mas um teatro de 40 lugares não se sustenta com bilheteria. Vamos precisar de apoio", acrescenta ela.

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