A memória dos esquecidos

Em sua primeira exposição brasileira , o fotógrafo checo Jindrich Streit retrata o cotidiano do mundo camponês em seu país, dando a ele uma identidade, como fez Walker Evans na Depressão americana

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

30 de junho de 2009 | 00h00

Quem vê o portfólio do checo Jindrich Streit, um nome que se destaca num país de grandes fotógrafos (Josef Koudelka, Jan Saudek, Václav Jíru), pensa automaticamente no norte-americano Walker Evans - e a referência, mais que um elogio, é a constatação da excelência de suas imagens. Pena que Streit seja pouco conhecido por aqui. Seu nome significa para a Checoslováquia o que Evans (1903-1975)representou para a América, acompanhando as mudanças sociais e políticas dos EUA desde a época da Grande Depressão. Streit inaugura hoje, no Instituto Moreira Salles, em São Paulo sua primeira exposição no Brasil, trazendo 55 imagens registradas em diferentes épocas desde os anos 1970, quando começou a expor - e já são mais de 600 mostras desde então.Aos 63 anos, Streit é o herdeiro de uma tradição. De Václav Jíru aprendeu que a abordagem documental fria é um desrespeito aos modelos involuntariamente colocados diante da câmera. De Koudelka, nascido na Morávia, como Streit, herdou a solidariedade pelo homem das ruas. E da combinação de ambos surgiu o desejo de percorrer vilarejos e cidades da Morávia como Bruntál, perto da fronteira polonesa, registrando o cotidiano de camponeses esquecidos pela história.Streit, hoje professor de fotografia criativa na Universidade Silesiana, nem sempre teve seu talento respeitado em seu país. Durante o regime comunista, seu trabalho foi visto com desconfiança pelas autoridades governamentais, que identificavam nesses registros tentativas de difamar a política estatal. Seu testemunho das condições de vida nos vilarejos da Morávia lhe rendeu o confisco de negativos e uma passagem pela prisão. Trágica miopia totalitária. Imagens suas de aldeias e vilarejos como Topolany ou Mladec, na região de Haná, Morávia, não são manifestos políticos, mas fragmentos de uma crônica amorosa da vida dos camponeses locais.Como nas fotos de Walker Evans, conta-se uma história em cada foto sem que se perceba a contaminação da sintaxe literária - que, no caso de Jindrich Streit poderia evocar o drama dos humilhados e ofendidos de Jan Trefulka, escritor igualmente interessado no chamado "homem comum". Trefulka tem uma novela em que o protagonista sexagenário, um conformista operário, pula de função e função até virar fazendeiro, vendendo a alma ao Estado. Streit, como Trefulka, parece estar atrás da identidade desses camponeses que afundam nas cinzas de uma experiência existencial ordinária, sem perspectivas.A curadora do IMS responsável pela exposição, Heloísa Espada, observa que em muitas dessas fotos esses camponeses olham abestalhados a televisão. "Não são imagens idílicas do mundo rural", diz, concluindo que existe "uma certa brutalidade nisso". De fato, se alguém comparar o "tolo" de Trefulka retratado na novela O Bláznech jen dobré (Homenagem aos Tolos) aos camponeses de Streit, verá a crueza de um mundo de desiludidos muito semelhante ao do protagonista do livro, Cyril Dusa.No entanto, a exemplo de Evans, Streit solidariza-se com esses trabalhadores esquecidos às margens do progresso. Seu registro da vida camponesa em vilarejos como Bruntál, parafraseando o que Geoff Dyer disse do americano, faz do documental um gênero inseparável do lírico. Reforça esse parentesco com Evans o fato de Streit também preferir o preto-e-branco (o americano considerava a foto em cores "vulgar", a despeito de ter usado uma Polaroid no fim da vida). "Ele une essa tradição documental da Magnum com uma abordagem mais íntima, mas nem por isso leve", analisa a curadora da mostra, fornecendo exemplos dos registros "pesados" do fotógrafo checo - crianças aprendendo a cortar carne ou brincando com armas em regiões pobres da Morávia.Essa tendência ao trágico, reforçada pela tonalidade espectral de seus personagens, é deixada de lado em alguns fotos, como a do encontro de um velho e uma criança com um homem vestido como um astronauta em Bruntál, registrado em 2005 (veja foto ao lado). É um violento contraste com a solidão do jovem que se banha num bebedouro de Pardubice (região central da Boêmia) ou a reunião de operários de uma fábrica de cal no vilarejo de Mladec (fotos nesta página). Em cenas como essa, comenta a curadora, o estado de embriaguez traduz uma atitude escapista daqueles reprimidos pelos invasores estrangeiros. Se Evans buscou "representar as coisas em relação a si mesmas" sem intervenção ou tendência à idealização, é possível dizer o mesmo de Jindrich Streit, que vai viajar pelo Brasil em busca dos imigrantes tchecos aqui instalados. E eles não são poucos: 500 mil tchecos e descendentes, espalhados principalmente pelos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.ServiçoJindrich Streit. IMS. Rua Piauí, 844, 3825-2560. 13 h/19 h (sáb. e dom. até 18 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 16/8. Abertura hoje, 19 h, para convidados

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.