À luz de Xangô e deuses do piano

Adepto da santería, Robertito Fonseca foi influenciado pela fusion de Weather Report e a bossa de Jobim

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 00h00

Adepto da santería, o candomblé cubano, o orixá de Roberto Fonseca é Xangô, um soberano por excelência, o rei do trovão. ''''Sempre serei da santería. Para mim, a espiritualidade é o fator mais importante que tem na música'''', diz Fonseca.  Ouça trechos de El Niejo, Así Baila Mi Madre e Clandestino Pode-se deduzir então que ele demonstraria predileção pelo tradicional em sua música, mas é uma dedução errada: Roberto é a própria modernidade. Adora a variante original do drum''''n''''bass, o jungle, além de funk, techno e hip-hop. ''''Um dia ainda farei um disco de jungle'''', diz o músico. ''''Interesso-me pela fusão e pela improvisação. Gosto da música folclórica, mas meu interesse é colocá-la em contato com outras tradições modernas, como o hip-hop, o funk, o jazz, o drum''''n''''bass'''', disse.Parte de sua experiência gravando no Brasil e com brasileiros foi tentar aproximar a música afro-cubana da afro-brasileira. Talvez venha daí o estranho nome que escolheu para batizar o disco, Zamazu. ''''É como a palavra dada, que originou o dadaísmo. Não quer dizer nada. É uma palavra que minha sobrinha Paola, de 6 anos, usa com a família quando quer nos fazer crer que está falando uma língua estrangeira'''', ele conta. ''''É como se procede na música: inventa-se a linguagem com a qual a gente quer se expressar, e ela é compreendida, mesmo que nunca tenha existido.''''O jazz, que também está incrustrado em seu estilo, não acontece por acaso. ''''Ouvi muito Thelonious Monk, Bill Evans, Oscar Peterson, Keith Jareth, que são os grandes do seu instrumento no jazz. Não tenho influência, entretanto, de Chucho Valdés, que é cubano, e que aprecio muito, assim como me encanta o estilo de Tom Jobim. Acho que tenho mais influência da bossa nova'''', ele considera.''''O primeiro disco, de 1998, é muito jazz fusion, marcado por minha admiração por Herbie Hancock e minha descoberta do Weather Report. Meu novo disco resume todas essas experiências e vai mais longe'''', considera.Zamazu, que é seu quarto disco (os primeiros, pela ordem, são Tiene Que Hacer, No Limits e Elengó) abre com uma cantora, Mercedes Cortes Alfaro, fazendo um número a capela, com uma voz ancestral. ''''É minha mãe cantando um fragmento de uma missa popular. O significado é simples: é uma reza para trazer a paz e levar embora a energia ruim'''', explica. Robertito estudou piano desde os 8 anos, em sua Havana natal. Cursou três conservatórios. Toda a família é de músicos. ''''Minha mãe foi cantora de coral. Meu irmão mais velho é pianista. Outro dos meus irmãos toca bateria. Meu avô era percussionista.''''Outra presença forte no seu disco são as faixas de textura orientalizada, como Congo Árabe, que usa o darbouka, tambor árabe, e um violão flamenco. ''''Não é música muçulmana, mas da cultura oriental em geral. Gosto muito, porque nos cantos orientais, há muita paixão, tudo é muito transparente'''', diz.A recepção ao trabalho, na Europa, foi calorosa. Paola Genone, no L''''Express, disse o seguinte: ''''Nesse disco impregnado de beleza e paixão, o pianista e cantor cubano Roberto Fonseca, de 31 anos, consegue reconstituir, canção após canção, o imenso mosaico de tradições musicais que habitam seu país pós-escravidão.'''' A resenha da BBC inglesa foi ainda mais entusiasmada: ''''Zamazu é um set supervariado e bem seqüenciado, que deixa uma forte impressão de quem é Fonseca e promete muito mais para o futuro.'''' Já o The Guardian, também britânico, assinalou: ''''É natural um notável pianista ganhar resenhas favoráveis após substituir o grande Rubén González, mas Roberto Fonseca é ainda mais especial, mesmo para os padrões cubanos.''''Se Don Rubén González (1920-2003) tratava o piano com carícias, com os dedos quase levitando sobre as teclas, Robertito parece cair sofregamente sobre ele, como se estivesse descendo uma ladeira com um skate. ''''É na rua que nascem todos os sons, e isso me interessa'''', diz.O novo prodígio do piano cubano também se espanta com todas as perdas que a música cubana tem experimentado recentemente: além de González, Compay Segundo e Ibrahim Ferrer, também o jovem percussionista Angá Diaz. ''''Todos morremos um dia, mas é incrível como isso está se repetindo'''', considera. ''''São grandes amigos que se vão, mas que não são esquecidos.''''Ele diz que já está em negociação uma nova turnê pelo Brasil para mostrar Zamazu com sua banda - Javier Zalba (clarineta, flauta e saxofone), Omar González (contrabaixo), Joel Hierrezuelo (percussão) e Ramsés Rodríguez (bateria).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.