A luta pela qualidade da informação

O sociólogo espanhol Ignacio Ramonet defende a pressão pacífica pela verdade

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

31 de maio de 2008 | 00h00

Jornalista e sociólogo espanhol, Ignacio Ramonet tornou-se uma das vozes mais vibrantes contra a globalização no formato atual. Diretor desde 1991 da publicação francesa Le Monde Diplomatique e fundador das organizações Media Watch Global e ATTAC, ele escreveu vários livros sobre geopolítica e crítica da comunicação mundial, nos quais relaciona os meios de comunicação com o projeto estratégico da globalização.Sua defesa da esquerda e, em especial, do governo cubano de Fidel Castro, provocou diversas críticas pelo mundo, especialmente contra seu livro Biografia a Duas Vozes (Boitempo, 624 págs., R$ 66, tradução de Emir Sader), considerado dócil e servil ao ex-ditador cubano. ''Ramonet tem a companhia de Noam Chomsky, caso flagrante de esquizofrenia intelectual, que é inspirado e até genial quando limita-se à lingüística transformacional e um ''idiota'' irredimível quando desata a falar de política'', observou Vargas Llosa, em artigo publicado no Estado no ano passado.Controverso, Ramonet esteve em São Paulo na semana passada, quando participou de um debate, no Instituto Cervantes, ao lado do sociólogo Emir Sader. Juntos, discutiram sobre o poder dos meios de comunicação frente aos sistemas econômicos. Antes, Ramonet respondeu as seguintes perguntas.Como enfrentar os perigos dos conglomerados de mídias, que podem ameaçar a informação de qualidade?Os conglomerados de mídia dominam hoje a informação. Sua preocupação básica não é a qualidade da informação. Nem sequer sua veracidade. O que mais lhe interessa é a rentabilidade da empresa. Essa é sua obsessão principal. Por isso, dão absoluta prioridade à informação-espetáculo, à informação-entretenimento. Concebem a notícia como uma variedade da cultura de massas e não como item da formação e educação do cidadão. O que importa é um maior número de pessoas consumindo essa informação-lixo. Porque, hoje em dia, o negócio noticioso não consiste em vender novidades aos cidadãos, mas vender cidadãos aos anunciantes. Essa é a nova equação, que constitui uma regressão copernicana. A população precisa tomar consciência dessa mudança radical. E defender seu direito a ser bem informada, porque a qualidade da informação depende da qualidade da democracia.O crescimento da internet está diretamente ligado à formação desses conglomerados?A internet foi apresentada, em princípio, como uma possibilidade para os cidadãos se livrarem da dominação dos conglomerados de mídia. Mas hoje, na prática, a internet foi integrada ao império desses conglomerados. Ainda assim, todos podemos abrir um blog, que nos permite falar com todo o planeta. Na realidade, se consideramos o ranking dos sites de informação mais freqüentados em qualquer país, vemos que os primeiros lugares são ocupados por empresas de mídia que dominam a informação nesse país. Por isso, a internet só veio a reforçar o poderio dos conglomerados.Na França, dois grupos de imprensa, Dassault e Lagardère, têm ligação com atividades militares. Qual o perigo disso quando se travam guerras como a do Iraque?Sim, na França, os grupos Lagardère e Dassault, cujas atividades industriais principais são militares, estão entre os que dominam o setor de mídia. O perigo é que a informação difundida por esses grupos (como acontece nos Estados Unidos com os meios dominados pela General Electric) seja, em caso de conflitos, favorável, independente do pretexto, a uma intervenção francesa com a única intenção de que, dessa forma, as empresas proprietárias conquistem maiores benefícios. Até o momento, isso não aconteceu, tampouco em 2003 quando se comentava sobre a possibilidade de a França integrar a coalizão que invadiu o Iraque no dia 20 de março daquele ano.Como os cidadãos devem atuar contra este desvio da liberdade de imprensa?Os cidadãos devem se organizar como fizeram os consumidores, durante os anos 1960, contra os abusos dos construtores de automóveis ou contra o uso de produtos cancerígenos nos alimentos. Consumimos a informação com nossa mente e, se ela é de má qualidade, acaba por envenenar nosso espírito e nossa personalidade. Devemos criar observatórios dos meios - no Brasil, já existem e são muito sérios e profissionais - para denunciar mentiras, manipulações ou o silêncio dos meios de comunicação. Essa denúncia não tem caráter ideológico (meios de qualquer ideologia podem errar), mas unicamente a busca da perfeição da qualidade da informação. Os cidadãos devem mobilizar-se e fazer pressão pacífica e democrática para os meios melhorarem a informação.O senhor conversou muito com Fidel Castro e até escreveu um livro sobre esse relacionamento. O senhor acredita que o destino de Cuba, agora sem Fidel, depende diretamente de quem será o próximo presidente dos Estados Unidos?Sim. Fala-se muito, nos meios de comunicação, sobre a ''necessidade de Cuba mudar''. Mas inúmeros jornalistas se esquecem da enorme responsabilidade que têm os Estados Unidos em algumas das dificuldades, particularmente econômicas, sofridas por Cuba. A manutenção do cruel bloqueio durante quase 50 anos é um grande crime. Por isso, os Estados Unidos devem iniciar uma mudança em relação a Cuba, no sentido de reconhecer os direitos daquele país de descobrir seu próprio destino. Mudar no sentido de respeitar Cuba e considerá-lo um Estado soberano. Se o republicano John McCain vencer a eleição presidencial de novembro, a atitude de Washington pode endurecer ainda mais - mesmo que essa atitude beligerante não tenha frutificado em meio século. Por outro lado, a eleição de um candidato como o democrata Barack Obama abre certas perspectivas positivas. O temor de muitos observadores é o de que, especificamente sobre essa opinião a respeito de Cuba, Obama seja simplesmente assassinado antes de novembro pela máfia anticubana de Miami.Qual a melhor herança deixada por Fidel? E a pior?Fidel Castro é o maior latino-americano da história, ao lado de Simon Bolívar. Ainda que sua contribuição continue muito valiosa, sua herança é imensa. Não apenas material (educação, saúde, cultura, ciência, emprego pleno) mas também espiritual: latinoamericanidade, ética, independência real, resistência. Graças a ele e à revolução, Cuba foi depositária, durante o período negro da repressão e das ditaduras (1964-1979), dos grandes valores latinos de independência, soberania e republicanismo. Valores que hoje estão no auge em todo o continente, democraticamente aprovados pela maioria dos cidadãos.

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