Ina Fassbender/Reuters
Ina Fassbender/Reuters

A longa odisseia de 'Guernica' até chegar à Espanha

Artista havia desejado que sua obra integrasse as coleções do Museu do Prado

AFP

16 Junho 2018 | 12h33

Foram quase 45 anos para que a Espanha acolhesse o quadro Guernica, que Pablo Picasso pintou em Paris, com a obsessão de vê-lo um dia exposto em um país livre de Franco, uma "odisseia extraordinária" agora explicada em um livro.

"Guernica é o tema da minha vida!", assegurou o artista espanhol em seu primeiro encontro em 1969 com Roland Dumas, seu testamenteiro e autor de Picasso, ce volcan jamais éteint (Picasso, esse vulcão que nunca se apaga), junto com o historiador de arte Thierry Savatier.

"Isso queria dizer: é a minha obra-prima!", explica à AFP Dumas, ex-chefe da diplomacia de François Mitterrand.

Picasso, então com 88 anos, havia buscado Dumas para proteger juridicamente seu valioso quadro das tentativas do ditador espanhol Francisco Franco, totalmente inesperadas, de obtê-lo.

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A obra havia nascido de uma "encomenda da República espanhola", então em plena guerra civil (1936-1939) contra as forças nacionalistas. Seu destino era o pavilhão espanhol da Exposição Universal prevista para julho de 1937 em Paris.

O primeiro estudo está datado em 1 de maio de 1937. O bombardeio da localidade basca de Guernica por parte da aviação nazista aliada de Franco havia acontecido em 26 de abril.

Picasso "finalizou sua tela em 4 ou 5 de junho", explica Savatier. "Depois lhe deu seu nome", segundo vários testemunhos.

No MoMa a partir de 1939. O artista havia "cobrado 150.000 francos", embora "nunca tenha sido encontrado o recibo nos arquivos espanhóis", segundo o historiador. A soma "englobava o Guernica e quatro grandes esculturas de concreto".

Após sua exibição na Exposição Universal, a obra e seus trabalhos preparatórios chegaram em 1939 ao MoMa de Nova York, onde foram conservados.

Picasso sonhava ver Guernica em uma Espanha livre. Isso disse em uma carta de 15 de dezembro de 1969, na qual encarregava Dumas de se assegurar de que seu traslado ocorresse "apenas quando um governo republicano se instale em meu país".

Em 14 de abril de 1971, Picasso assinou "um certificado" confirmando sua vontade.

Dumas lhe havia recomendado "designar alguém suscetível de tomar a decisão de entregar Guernica à República da Espanha" no caso de que o artista morresse antes.

Picasso, supersticioso, não queria nem ouvir falar de testamento: "'Se fizer um, vou morrer amanhã!'", tinha respondido, descartando também confiar a missão à sua família. "'As mulheres não! Os filhos? Está louco, não vou dar estes direitos aos meus filhos que vão querelar contra mim!'".

Em seguida, olhou para Dumas fixamente e lhe apontou o dedo: "Você se encarregará!".

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Após sua morte, em 1973, sua viúva Jacqueline disse a Dumas, que enfrentava reivindicações familiares e a Espanha franquista: "Você tem os papéis assinados de Picasso, agora você que tem que lutar!".

E com o desaparecimento de Franco em 1975, "todo mundo reivindicou a tela", afirma o advogado, dando conta de "pressões políticas", inclusive do Senado americano.

Apesar da restauração das liberdades públicas na Espanha, a família Picasso rejeitou seu traslado até 1981.

Guernica em Guernica?. Sua travessia transatlântica requereu a criação de um "consórcio de seguros anglo-americano" para garantir a proteção desta obra de valor inestimável.

Picasso havia desejado que sua obra integrasse as coleções do Museu do Prado. Dumas abordou a questão com o rei Juan Carlos I.

O monarca "me disse: 'não acha que o melhor seria que se instalasse no País Basco, em Guernica?'". "Respondi com um pequeno sorriso: Majestade, entendo seu ponto de vista, mas Picasso me encomendou o destino de Guernica, não resolver o problema das províncias da Espanha".

Na época, a Espanha já estudava seu grande projeto do museu de arte moderna Reina Sofía em Madri, onde a obra reside de forma definitiva desde 1992.

Antes, foi instalada no Casón del Buen Retiro do Prado, onde foi apresentada ao público em 23 de outubro de 1981, atrás de uma barreira de concreto e de um vidro blindado exigidos por Dumas.

 

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