A lógica divertida do herói que vai à forra

No magistral O Exército Iluminado, um maluco tenta resgatar o Texas dos EUA

O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 00h00

Os tipos que circulam pelas novelas do escritor mexicano David Toscana bem poderiam ter saído do imaginário de Tod Browning (1880-1962), o célebre diretor de Drácula (1931) e Freaks (1932), clássico sobre as bizarrices do mundo do circo ao qual Toscana presta involuntária homenagem em Santa Maria do Circo, um de seus sucessos junto aos leitores brasileiros ao lado de O Último Leitor, os dois publicados pela Casa da Palavra. Em O Exército Iluminado, que a mesma editora lança agora na Bienal, a bizarrice começa no personagem principal, o professor Ignacio Matus, que forma um exército com cinco alunos para invadir os EUA e retomar o território conquistado ao México em 1848.Se, em Santa Maria do Circo, uma trupe circense funda uma cidade no deserto mexicano em busca da redenção, delegando uns aos outros bizarros papéis, em O Exército Iluminado, esses papéis são de antemão assumidos pela condição excepcional do exército de cinco garotos mentalmente prejudicados - ou retardados, como se dizia no passado. Em todo caso, trata-se de um gesto fundador, tanto no primeiro como no último livro.Cria-se um mundo imaginário tão forte como o concreto, mesmo que, no primeiro caso, a cidade no deserto seja fantasma ou, no segundo, o rio Bravo enfrentado pelo exército para reconquistar as terras mexicanas seja um desprezível e quixotesco riachinho. Este é o maior trunfo de Toscana: escrever novelas com a ironia que se escreve a história real, ainda que contada segundo a ótica dos perdedores, heróis fracassados de suas ontológicas parábolas.Em O Exército Iluminado, Toscana inverte magistralmente a idéia do Manifest Destiny - ou seja, a crença que os Estados Unidos tinham, em 1848, de serem, por direito divino, expansionistas e abocanhar metade do território mexicano. Conta para isso com a ajuda de um nacionalista ferrenho, o maratonista Matus, que se considera igualmente um predestinado. Duplo perdedor, o obcecado professor quer vingar a honra do mexicanos e também a pessoal, convencido de ter sido passado para trás por um concorrente americano numa competição olímpica, anos antes de partir para arrebatar o Texas das mãos dos gringos. Toscana brinca com a lógica militar e conclui que este mundo é mesmo dos loucos. O jeito é rir. Com Toscana, o que é melhor.

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