A literatura vista como resistência

Textos de Assunto Encerrado formam autobiografia intelectual de Italo Calvino

Ivo Barroso, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Editados em livro na Itália em 1980 - cinco anos antes de sua morte -, estes ensaios literários de Italo Calvino foram escritos e publicados em jornais e revistas literárias entre 1955 e 1978. De temática muito variada, a seleção obedeceu, segundo intenção do autor, ao desejo de formarem uma espécie de autobiografia intelectual, em que digressões críticas e perfis de autores se entremeiam com reflexões sobre a língua, o estilo e a arte de escrever.Os apreciadores desse que foi seguramente um dos maiores escritores italianos da atualidade, acostumados às suas incursões fantasistas, à sua criatividade inesgotável e, principalmente, à sua astúcia de apresentar temas que se desenvolvem ad infinitum, sem a estreiteza da limitação de tempo e espaço, poderão estranhar de início o título Assunto Encerrado (tradução de Roberta Barni), imaginando que o autor quisesse dizer que expressou sobre esses temas as suas opiniões definitivas. O título é ainda mais contundente no original, pois sugere que ele esteja botando uma pedra sobre eles, decidido não mais a discuti-los. Algo como o famoso punto y basta.Mas quando o livro foi publicado na Itália, alguns críticos levantaram, nesses estudos, questões que não pareciam isentas de discussão e que sobre elas o autor ainda teria algo a dizer em apoio aos seus pontos de vista. Uma das principais seria naturalmente a afirmativa de Calvino, numa entrevista, de que considera Galileu o maior escritor da língua italiana. E quando Carlo Cassola, o polêmico resenhista crítico do Corriere della Sera, se insurge dizendo: "Eu pensava que fosse Dante", Calvino tangencia alegando que está se referindo a um "escritor em prosa". A justificativa da escolha é uma das mais brilhantes teses de defesa do indefensável, em que Calvino demonstra, mais uma vez, sua formação científica e sua capacidade de transformar ciência em literatura. "Galileu usa a linguagem não como um instrumento neutro, mas com uma consciência literária, com uma ininterrupta participação expressiva, imaginativa, e até lírica", argumenta Calvino. "Gosto de buscar as passagens em que ele fala da Lua: é a primeira vez que ela se torna para os homens um objeto real, descrita minuciosamente como uma coisa tangível."O leitor se lembrará imediatamente de As Cosmicômicas, com seu personagem de nome palindrômico e impronunciável, Qfwfq, que atravessou todas as eras geológicas desde o momento inicial do big bang e se lembra de quando a órbita da Lua passava tão rente à Terra que era possível ir até lá para colher seu leite, como num piquenique. Esse livro, uma espécie de science-fiction ao revés ou ainda uma projeção fantasiosa do passado, atesta o interesse de Calvino pelas teorias evolutivas e sua consciência cosmológica, a qual se manifesta até mesmo de maneira humorística quando Qfwfq se apaixona por Ursula, e ambos se deslocam num mesmo plano infinito, em duas paralelas que jamais se encontrarão. Talvez Calvino quisesse, com esta escolha de Galileu como o maior escritor italiano, manifestar sua preferência por um tipo de literatura menos voltada para o psicologismo e mais consciente de uma participação cientificista.O que torna este livro um acúmen na obra já em si toda crítica e analítica de Calvino é que a escolha dos artigos coincide com épocas ou etapas bem definidas sobre as quais ele, ao fazer um balanço de cada período, vai apontando a evolução e as oscilações de sua própria investigação teórica, as mudanças de rumo de suas conceituações, sensíveis ao impacto de sua sempre crescente investigação cultural em função dos acontecimentos. Calvino não é um literato contemplativo, embora a leitura tenha sido, segundo ele, uma de suas razões de existir, ele é antes de tudo um homem profundamente identificado com sua época, com um passado de ativista político e de atuação partigiana; foi filiado ao PCI e escreveu inúmeros artigos de militância política, só mudando de rumo depois da invasão de Praga pelos russos, atitude seguida por vários de seus amigos escritores. Para ele, a literatura sempre foi uma forma de resistência: "Acreditamos", diz em O Miolo do Leão - seguramente um dos artigos mais esclarecedores sobre seus conceitos literários neste livro - "que o engajamento político, o tomar partido, o comprometer-se, seja, muito mais que um dever, uma necessidade natural do escritor de hoje, e antes ainda do escritor, do homem moderno."Mas vê com ceticismo a possibilidade de uma atuação literária se sobrepor ou substituir a realidade: "Os fatos reais sempre são maiores, mais verdadeiros e instrutivos que os narrados; e os militantes representados nos livros continuam muito inferiores em evidência humana e em novidade histórica, se comparados àqueles que, aos poucos e a muito custo, se formam na realidade. (...) Um protagonista lírico-intelectual em contato com o proletariado pareceu o caminho mais natural para testemunhar a Resistência, mas não conseguiu representar com acentos de verdade nem o tormento interior dos protagonistas nem aquele épico e coletivo do povo."Grande espaço é concedido à discussão de conceitos literários, à atitude do autor em face do público e de seu compromisso social, à análise de obras fundamentais ou que tenham contribuído para o estabelecimento de uma "verdade literária", como em Usos Políticos Certos e Errados da Literatura - transcrição de uma conferência que Calvino pronunciou em inglês em 1976. A morte de dois de seus mais caros amigos, Cesare Pavese e Elio Vittorini, enseja comentários sobre o processo criativo e a personalidade literária de ambos. E há ainda toques humorísticos, tal o retrato esquemático do ator Groucho Marx, que Calvino associa, em sua saudade, a outro "grande cínico", o escritor Vladimir Nabokov. Ivo Barroso, poeta, ensaísta e tradutor, é autor, entre outros, de A Caça Virtuale Outros Poemas

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