A inspiração nos sabonetes para criar esculturas

José Resende traz o banal para o campo tradicional escultórico em exposição

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2022 | 00h00

Juntar o resto de um sabonete com outro novo ou quase novo. Esse ''''ato prosaico'''' de economia do cotidiano inspirou José Resende a fazer escultura. A idéia está não se sabe há quanto tempo na cabeça do artista, mas só agora ele a executou: na Marília Razuk Galeria de Arte está espalhada no chão uma série de esculturas que remetem àquele ato prosaico descrito. Mas não se trata de usar os sabonetes justapostos como material e sim fazer esculturas, em bronze e resina, a partir da forma do objeto banal. É uma ironia, uma certa ''''sacanagem'''' proposta pelo artista, já que, como ele diz, ''''não é o iconográfico, mas escultórico'''', enfim, que está em jogo. José Resende, em sua vasta trajetória, sempre surpreende pelas junções inusitadas dos materiais que utiliza em suas esculturas - couro, pedra, parafina, bronze, concreto, madeira, etc. Agora, surpreende com esse mote que não é, de maneira nenhuma, comentário sobre juntar sabonetes ou sobre a economia doméstica.O mote implica o escultórico, tanto que, depois do primeiro choque, o ícone (sabonete) vai ficando em segundo plano. ''''Tinha um gesto ali que remetia manipular as coisas que estão no cotidiano'''', diz o artista. Seu comportamento escultórico envolveu tratar desse gesto de se colocar dois elementos, um acoplado sobre o outro, com materiais (resinas e o tradicional material da escultura, o bronze, com tonalidades diferentes pelo processo de pátinas) e trabalhar a escala que ''''desconcerta'''' (ela vai do tamanho que seria o de um sabonete que cabe em uma mão até uma peças bem maiores, repousadas no chão).Escolher como ponto de partida um objeto e gesto do cotidiano poderia fazer remeter a uma tentativa de evocar o Pop. Mas esse espírito tem já algo de ultrapassado como dá a entender Resende. ''''O Jasper Johns já fez uma lata de cerveja em bronze'''', diz. Ainda no sentido de se pensar no Pop, algumas das esculturas têm, até mesmo, cores tiradas das tonalidades dos sabonetes; outras, a ''''fidelidade'''' ao ícone do sabonete (com resina o artista faz algumas das peças parecerem ser de glicerina); e, ainda, há a questão da reprodução.Mas, não se trata de beber nessa fonte, não existe ''''a indiferença Pop''''. Estão nos trabalhos e no conjunto os embates entre artesania e reprodução; tradição da escultura e artificialidade; belo e estranho. Não à toa José Resende ''''articula'''' no espaço da galeria uma junção de elementos: as peças que remetem aos sabonetes (tanto as do chão como as menores colocadas em prateleirinhas na parede); um objeto que lança vapor no ar; e, para fechar o conjunto, esculturas dependuradas (são placas de resina acrílica com linhas feitas de ferro em seu interior) que se referem a formas reconhecíveis da trajetória do artista.

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