A Índia é aqui

Em clima de Bollywood, Glória Perez volta ao Oriente para contar a história de um amor impossível na novela Caminho das Índias, que estreia hoje na Globo

Patrícia Villalba e Etienne Jacintho, RIO, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2009 | 00h00

Sem querer inventar grandes teorias sobre teledramaturgia, Glória Perez diz que novela sempre conta história de amor. E admite que o desafio dos autores é sempre o de encontrar novas maneiras de contar essas histórias para, com sorte, cativar o público. Depois de ciganos, muçulmanos e boiadeiros, a autora se volta à colorida e intrigante cultura indiana e começa a contar hoje à noite a história de amor de Maya (Juliana Paes) e Bahuan (Márcio Garcia) na nova novela das 8 da Globo, Caminho das Índias. Dividida entre o Rio e o Rajastão, a trama mostra os percalços que o mocinho Bahuan enfrenta por ser um "intocável" - pessoa que segundo os textos sagrados é "a poeira aos pés do deus Brahma".Famosa por "novelas antropológicas" - lembre-se de O Clone, de 2001, que se passava no Marrocos -, Glória deve deitar e rolar em detalhes da complexa cultura indiana, como o sistema de castas, vacas sagradas, danças, ioga e sáris coloridos. "A cultura indiana é complexa demais para que se tenha a pretensão de explicá-la numa novela, claro. Mas as pessoas vão entender o essencial: é um país que avança para o futuro a passos largos, sem romper os laços com as tradições milenares!", anota a autora, nesta entrevista ao Estado.Como você, que já conseguiu fazer o povo entender o que era clonagem, pretende apresentar a complexa cultura indiana ao telespectador brasileiro?A cultura indiana é complexa demais para que se tenha a pretensão de explicá-la numa novela, claro. Mas as pessoas vão entender o essencial: é um país que avança para o futuro a passos largos, sem romper os laços com as tradições milenares! Nessa harmonia dos contrários, reside a compreensão dos dramas vividos pelas personagens desse universo. Cuidado? Todo! Pesquiso e estudo muito. Conto também com a assessoria de alguns indianos. Mantenho contato permanente com o casal Jahyanti, físicos nucleares que ensinam em universidades de São Paulo. Eles são da casta brâmane, portanto, guardiães das tradições religiosas. Como brâmanes, têm o dever de oficializar os rituais religiosos, e estão fazendo isso para nós: todo e qualquer ritual do hinduísmo têm assessoria deles.Quando começou a pensar na novela, você primeiro teve a ideia de contar uma história de amor, simplesmente, e depois pensou em contá-la na Índia ou escolheu logo de cara falar sobre a Índia e, daí, veio a ideia do amor impossível de Maya e Bahuan?Uma história de amor toda novela conta. Nosso desafio é descobrir maneiras novas de contar essas histórias. Pensei que a Índia, além da riqueza visual, da riqueza cultural, oferecia a possibilidade de mostrar um impedimento ao romance que nunca tinha sido mostrado antes: o de casta. Numa sociedade dividida em castas, não existe nenhuma chance de mobilidade. Se o indivíduo nasce dalit ele morre dalit, mesmo que fique milionário. Ele será sempre considerado desprezível e capaz de poluir quem toque sequer em sua sombra!Soubemos que por questões ligadas à tradição indiana, os protagonistas não devem se beijar em cena. Como é escrever cenas de amor sem beijos? Assistindo a inúmeros filmes indianos, percebi que não acontecia o beijo. E a cena ficava muito mais erótica, muito mais sensual para quem vê. No Brasil, teremos beijos e mais beijos. Na Índia, o que já etiquetamos como o "quase beijo". A novela terá um personagem gay?Ah não, isso eu já fiz em América (2005). Mas vou mostrar as hijdras, que são os castrados indianos. Nem gays nem travestis. Como bem disse uma delas, "não somos homens que queremos ser mulheres - somos o terceiro sexo". As hijdras têm uma posição muito interessante na cultura indiana. A sociedade atribui a elas o poder de abençoar e de amaldiçoar.O humor da trama será comandado por Mara Manzan e Stênio Garcia? Quem mais renderá boas risadas?Não fiz um núcleo específico de humor. Ele está distribuído entre as personagens. Em algumas está mais sublinhado, como na dupla seu Abel, um guarda de trânsito vivido pelo Anderson Muller, e sua fogosa esposa Norminha (Dira Paes). Um pouco mais adiante, chega à Lapa o malandro indiano Radesh. É verdade que a novela vai apresentar depoimentos de esquizofrênicos reais nos capítulos?Depoimentos, não, essa fórmula já utilizei em O Clone. Mas os esquizofrênicos reais irão participar da novela, mostrando sua arte e sua capacidade de trabalho. Inclusive a banda do CPRJ, aqui do Rio, entra na trilha sonora. É uma banda formada por pacientes, e as músicas que eles cantam são compostas pelo crooner, o Hamilton. E vamos resgatar também a figura do profeta Gentileza (Paulo José).Continua escrevendo sozinha, sem colaboradores?Sim. Acho difícil, impossível dividir fantasia. Sou daquelas que não fazem planejamento. O capítulo nasce diante da página em branco. Mas não dispenso a pesquisa, pois não saberia trabalhar sem esse suporte. Meu método de trabalho é antropológico. Preciso ver, chegar perto, conviver com o que quero retratar. Por exemplo, a (pesquisadora) Giovana Manfredi me acompanhou nas visitas às clínicas psiquiátricas. Participa, entende o que estou buscando e, dada a partida, volta lá sozinha, faz outros contatos e me repassa as impressões que colheu.Caminho das Índias tem mais de 60 personagem, o dobro de A Favorita. A Favorita fugiu à regra. Normalmente, as novelas têm por volta de 60, 80 personagens, algumas já chegaram a 100. Porque elas são muito longas, e a duração do capítulo no ar é maior hoje do que antes. No caso de Caminho das Índias, tenho duas histórias centrais, uma que se passa na Índia e outra no Brasil. E há pouquíssimo trânsito de personagens de um universo para outro. Dentro desse modelo, 60 fica sendo um número até modesto. Quando uma novela sua está para estrear, já se especula qual será o bordão da vez. Em quais expressões você está apostando? Como fiz em O Clone, e com os ciganos de Explode Coração (1995), os diálogos do núcleo da Índia estão salpicados de palavras e expressões em hindi, que têm a função de emprestar às cenas o sabor da cultura indiana. No decorrer da novela, o público elege algumas dessas expressões. É curioso como você estreia uma novela passada na Índia ao mesmo tempo em que sua novela anterior, América, é exibida com grande sucesso lá. Foi coincidência ou a grande audiência de América na Índia chamou a sua atenção para aquele país?Quando eu soube disso, já estávamos a pleno vapor. Mas é uma coincidência feliz! Mantras, Sáris, Najas e Took Tooks GALA - A figurinista Emília Duncan trabalhou com "licença poética" para criar os trajes do núcleo indiano. Para enfatizar a cultura, ela veste os personagens no dia a dia com roupas tradicionais, usadas em rituais. DOIS PRA LÁ - Depois do hit Beijinho Doce de A Favorita, os "eletromantras" que compõem a trilha sonora de Caminho das Índias aguardam sua vez nas pistas de dança. ESPELHO - A história central da novela se passa numa cidade cenográfica de 6 mil metros quadrados, construída no Projac pela equipe do diretor de arte Mário Monteiro. Há ainda uma outra cidade cenográfica, de 2.500 metros quadrados, que reproduz o Rio Ganges e uma de suas escadarias. Uma terceira cidade cenográfica reproduz o bairro carioca da Lapa. CROMA - A equipe de pós-produção vai usar o black lot, um recurso de computação gráfica, para "colar" imagens reais da Índia às cenas gravadas na cidade cenográfica. CARONA - Pelas ruas do Rajastão do Projac vão circular 12 riquixás (charrete puxada por um homem numa bicicleta) e 8 took tooks, veículo motorizado de três rodas, reproduzidos pela diretora de arte Ana Maria Magalhães. LÁ - As gravações começaram em outubro, nas cidades indianas de Jaipur e Agra (onde fica o Taj Mahal), e movimentaram uma equipe de 40 pessoas da Globo, que teve ainda a ajuda de uma produtora local. Há também cenas em Dubai (Emirados Árabes), que abriga parte da trama.BAGAGEM - Notório contador de causos, o ator Lima Duarte aproveitou para enriquecer seu baú de história. Chega a ser emocionante vê-lo narrar o encontro que teve, olho no olho, com uma cobra naja, daquelas que saem de dentro do cesto, numa das ruas de Jaipur.ARE BABA - Lançadora de bordões, Glória Perez já tem um estoque de expressões indianas que pretende ver na boca do povo. "Se a Glória tiver um bordão pra mim, eu topo!", avisa a divertida Mara Manzan, que viverá a personagem Dona Ashima. Indiana e dona de uma pastelaria na Lapa, a personagem distribui "are baba" por onde passa. "É algo tipo ?ai, meu Deus?. Depende da entonação", explica a atriz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.