A incrível aventura do primeiro filme

Matheus Souza realizou Apenas o Fim utilizando câmera emprestada da PUC, no Rio, locações e até colegas da universidade

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

Matheus com H - são dois estreando filmes nesta quinta-feira de feriadão. Um deles é Matheus Nachtergaele, o ator, que dirige A Festa da Menina Morta (leia na página 3). O outro é Matheus Souza, que também estreia na direção com Apenas o Fim. Matheus Souza, brasiliense, estuda cinema na PUC/Rio. Foi lá que fez seu filme, com equipamentos, locações e até colegas da universidade. A ideia parecia um sonho meio impossível de concretizar, mas foi assim que começou. Matheus queria dirigir. A primeira pergunta que se fez foi: que tipo de história conseguiria contar? "Uma história de relações, sobre o fim de um relacionamento. Disso eu entendia", ele conta. Começou a surgir Apenas o Fim, que Matheus escreveu para seus colegas Érika Mader e Gregório Duvivier."Os dois faziam teatro no Tablado e até já me haviam dirigido no palco, em esquetes. Sabia do que eram capazes, mas mesmo assim a Érika e o Gregório me surpreenderam", diz o diretor. Érika lembra a incrível aventura que foi a filmagem. "Matheus se preparou e, na maioria das vezes, passava para a gente a sensação de estar muito seguro sobre o que e como queria dizer. Só depois do filme pronto ele falou de suas inseguranças e confessou que houve momentos em que duvidava de tudo - do roteiro, da sua capacidade. Mas acho que isso é normal, tratando-se de um diretor tão jovem, tentando trabalhar profissionalmente num esquema tão amadorístico."Com exceção do técnico de som, todos (diretor, elenco, fotógrafo) trabalharam de graça em Apenas o Fim, em esquema de cooperativa. Tudo pelo filme! "O equipamento era da PUC. A gente pegava a câmera pela manhã e tinha de devolver no fim da tarde. As locações foram quase todas na universidade. Quando saíamos do campus, a câmera era emprestada por amigos", conta o diretor. Toda vez que ele alterava o plano de filmagem, e isso ocorria com frequência, por motivos vários, era um problema. "Precisávamos de autorização para filmar. Tudo tinha de ser previsto com antecipação, a hora, o local, para evitar atropelos. E se o reitor fosse usar aquela sala, aquele corredor? Coisas burocráticas, simples, mas que às vezes causavam transtornos. Mesmo assim, a universidade foi muito legal conosco."A aventura ?estudantil? ganhou uma aliada na produtora Marisa Leão, uma das mais atuantes do cinema brasileiro, com extenso currículo que inclui numerosos filmes do marido, Sérgio Rezende. "Marisa é professora. Quando o filme estava quase pronto, senti que precisava de uma opinião de fora. Enviei o DVD para ela e a Marisa foi muito generosa. Ela não interferiu em nada no nosso processo, não quis mudar nada. Tudo o que fez foi nos ajudar, viabilizando a finalização e assumindo, com sua experiência, aquela parte legal que um filme tem de ter - reconhecimento na Ancine, coisa e tal - para poder existir."Érika veio ao Brasil para o lançamento de Apenas o Fim. Ela reside em Nova York, onde apresenta o Lugar Incomum, um roteiro pouco convencional de Manhattan, no Multishow. Érica conta que o grande mérito de Matheus, embora cinéfilo de carteirinha, apreciador de François Truffaut, Jean-Luc Godard e Ingmar Bergman, foi ter feito o filme a partir de sua vivência. "O Matheus falou do que sabia, com emoção. De modo divertido e poético, acho que até profundo." Sua personagem é que toma a iniciativa de terminar a relação. Logo na abertura, ela chega para dizer que quer terminar o namoro. Os namorados caminham nos jardins da PUC. Sentam-se para discutir a relação, para dizer o indizível. Por que o romance tem de acabar? Porque são jovens e, no fundo, necessitam de experiências."Seria muito fácil para o Matheus transformar minha personagem numa vilã, mas ele evitou isso o tempo todo." O diretor conta que quis Érica para o papel justamente porque sabia que ela conseguiria evitar o estereótipo, tornando a garota convincente na sua confusão. Gregório Duvivier define Apenas o Fim como ?autópsia de uma relação?. Dito assim, parece Bergman, Cenas de Um Casamento, mas o tom é menor, e nisso não vai nenhuma conotação pejorativa. "É legal participar de um filme feito com tanta sinceridade", diz Gregório, que trouxe das aulas de improvisação no Teatro Tablado a inspiração para fazer, com Fernando Caruso, Marcelo Adnet e Rafael Queiroga, a peça Z.É. Zenas Emprovisadas, em cartaz em São Paulo, depois de fazer sucesso no Rio. Apesar das referências a grandes autores e à cultura pop - blogs e chats da internet -, todos, Matheus, Gregório e Érika, assumem uma dívida com Richard Linklater. No fundo, talvez tenha sido o modelo acabado do filme que Matheus Souza queria realizar. Linklater fez aqueles dois filmes com Ethan Hawke e Julie Delpy, Antes do Amanhecer e Antes do Anoitecer. A ideia é colocar o jovem na tela, falando de si. Apenas o Fim recebeu o prêmio do público no Festival do Rio em setembro do ano passado. Nove meses depois, a criança está nascendo.

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