A incessante busca da cura por meio da palavra

Os norte-americanos Michael Greenberg e Allen Shawn defendem que escrever é uma forma de controlar problemas mentais e que a loucura não determina a força da arte

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

De Dostoievski a Sylvia Plath, passando por Virginia Woolf, Lorde Byron, Emily Dickinson e Hemingway, a conexão entre criação literária e doença mental já foi explorada ad nauseam por analistas para que novos autores repitam velhas e românticas teorias que identificam a patologia como atributo divino. Em busca de uma resposta para seu sofrimento e de familiares, dois escritores norte-americanos envolvidos com o tema escreveram livros que são best sellers nos EUA. São eles o crítico literário Michael Greenberg e o compositor Allen Shawn, autores, respectivamente, de À Espera do Sol (Record, tradução de Rafael Aragon Guerra, 272 págs., R$ 38) e Bem Que Eu Queria Ir (Companhia das Letras, tradução de Caetano Waldrigues Galindo, 312 págs., R$ 48), ambos resenhados neste edição (leia página ao lado) pelo psicanalista Sérgio Telles. No primeiro, Michael Greenberg expõe as dificuldades dos portadores de distúrbio bipolar por meio da história da filha, que teve um surto psicótico aos 15 anos. No segundo, Allen Shawn relata a própria história, a de um fóbico radical, que tem medo de altura, de elevador, de estradas, de espaços públicos e lugares fechados.Ambos falaram por telefone com o Estado, revelando a convivência traumática com a sua doença e a de seus familiares. E combatem a ideia equivocada de que escritores criativos devam tudo aos distúrbios mentais que os atormentam. Greenberg, ao relatar o desespero de ter a filha internada numa clínica psiquiátrica - diagnosticada como portadora da síndrome bipolar -, lembra que viu as melhores cabeças de sua geração sucumbirem à loucura e ao tratamento com medicamentos aniquiladores. Shawn diz que até hoje não superou o trauma de ser irmão gêmeo de uma autista, separada da família quando o músico tinha apenas 8 anos. Agorafóbico, ele atribui sua fobia a uma herança genética. Seu pai, o prestigiado editor William Shawn (1907-1992), que por 35 anos dirigiu a revista The New Yorker e teve um caso com Lillian Ross (confirmado nas memórias da jornalista, Here But Not Here), teria marcado a existência do filho pela vida dupla que levava - segundo Shawn, a mentira era moeda corrente na família e formatou sua personalidade.O patriarca, igualmente fóbico, desaparecia em cabines telefônicas de estrada para falar com Lillian, escondia-se com o telefone nos cantos da casa e tratava as pessoas "como pacientes de um hospital". A mãe, a jornalista Cecile Lyon, fazia questão de negar a origem judaica, lembrando sempre do lado sueco da família e ignorando o ramo semítico russo. Não admira que seja Freud a leitura predileta de Allen Shawn, irmão do conceituado dramaturgo Wallace Shawn (roteirista e ator do filme Meu Jantar com André, do cineasta Louis Malle). "Desde o começo tinha claro para mim que iria narrar a própria história sem envolver meus familiares, até mesmo porque sentia vergonha de contá-la", admite Shawn. "Falo mais de Mary (a irmã autista) porque relaciono minha ansiedade e fobias com a sua partida, mas até quem me conhece pode não me reconhecer no livro, pois falo pouco da minha vida privada." Confirmando o que diz no prefácio do livro, ele transforma o seu passado numa abstração para que o leitor possa refletir sobre a própria vida.Autor de um livro sobre o compositor serialista Arnold Schoenberg, Allen Shawn tenta entender sua doença recorrendo ao evolucionismo de Darwin - quando relaciona as reações de seu corpo durante episódios fóbicos - e a Freud - ao associar o advento das fobias com a separação de sua irmã gêmea na infância. "Terei herdado a agorafobia de meu pai por transmissão genética ou por imitar seu comportamento?", pergunta, para logo em seguida responder: "Honestamente, não sei, mas toda vez que viajo sofro de ansiedade antecipatória, que é o sintoma fóbico mais difícil de superar." Shawn diz que escrever não o livrou das fobias, mas a exploração arqueológica de sua doença o levou a fazer uso criativo de uma presença negativa em sua vida.O autismo da irmã ainda o afeta - ele escreve no momento um segundo livro sobre o tema -, mas nem tanto como o marcou na infância, quando sua inclinação fóbica foi se acentuando até dividir a personalidade do músico em duas partes na idade adulta. "Vivia uma guerra interna entre o terror psicológico que enfrentava e a vontade de superá-lo." Até hoje confrontar uma plateia como pianista o deixa nervoso, mas nem tanto como se ver sozinho diante de espaços amplos ou ser obrigado a atravessar uma ponte. Quando Shawn vai ao teatro, senta no corredor. Túneis o deixam paralisado. Não anda de metrô e tem medo de museus . Em resumo, tantos os espaços abertos como os fechados o deixam petrificado.Bem Que Eu Queria Ir trata dessas fobias não de maneira negativa, mas, como se disse, criativa. A fobia, "prima rebelde do medo", pode se revelar útil ao inibir atividades banais e concentrar o talento em outras de igual valor, embora obscuras, diz Shawn no livro, ampliando sua reflexão na entrevista concedida ao Estado. "A agorafobia é hoje um problema global e creio que o livro tenta apontar uma solução." Escrever, garante Shawn, ajudou-o a mudar seus padrões mentais, superar medos desnecessários como o de ir a uma festa ou enfrentar uma simples viagem. No entanto, certos tipos de neurose são até nutrientes do organismo, reflete. "Sou reverente a Freud, mas considero que criadores como Munch e Kafka não seriam os mesmos sem as fobias de ambos." Em todo caso, para quem quer se livrar de fobias, aqui vai seu conselho: se cair do cavalo, tente de novo. Experiências ensinam o cérebro, sugere o traumatizado Shawn.E Michael Greenberg, o que tem a dizer sobre cura? Sua filha Sally, vítima de um surto psicótico em julho de 1996, conseguiu sobreviver ao transtorno bipolar? "Ela teve outros quatro ou cinco surtos desde então, mas vive com isso, virou especialista na própria doença", responde o colunista do Times Literary Supplement. Sally casou-se com Alex, um antigo colega de escola, em 2004, separou-se três anos depois e hoje vive em Vermont, onde também mora o fóbico Allen Shawn. Na região rural da Nova Inglaterra, refúgio dos estressados, Sally trabalha meio período numa padaria e também trata de cabras e vacas numa fazenda. Livros como Women and Madness e Is There no Place on Earth for Me? ajudaram-na a reconhecer a proximidade de surtos psicóticos , garante o autor de À Espera do Sol.O que torna o livro mais que um relato sobre a evolução de uma doença cada vez mais comum, a síndrome bipolar, é a erudição de Greenberg e sua capacidade de autoanálise. O primeiro nome que associa a seu caso é o do escritor irlandês James Joyce (1882-1941) e de sua filha Lucia (1907-1982), diagnosticada por Jung como esquizofrênica e portadora de transtorno afetivo bipolar aos 23 anos. Joyce chegou a expulsar homens de sua casa por conta dos amantes que ela criava em sua imaginação, negando-se a admitir que fosse doente. Culpava-se pelos problemas da filha e acreditava que Lucia era vítima de sua existência monomaníaca, segundo Greenberg - de fato, ela falava por neologismos e não resistia a um trocadilho, características que marcam a obra do autor de Ulisses. Culpado, Joyce teria transformado Lucia num ser superior, inatingível, um modelo incompreendido pelos mortais que falam a língua comum das ruas - daí seu interesse por uma linguagem codificada."Não diria que ele, ao abandonar ou superar a linguagem comum, tenha condenado Lucia à loucura, mas, claro, tudo isso foi puro egotismo de Joyce, pois ele tentou explicar o inexplicável", analisa Greenberg, não sem antes lembrar que Lucia foi levada ao hospital em uma camisa de força, isso aos 29 anos, enquanto o pai se afogava no álcool. Greenberg, por conhecer a história, ficou atento para evitar esse tipo de contágio. Vacinado contra dependentes - ele tem um irmão alcoólico -, o escritor assumiu que a doença da filha não era a "sua" doença, mesmo quando viu Sally escrevendo poemas no estilo da suicida Sylvia Plath, aos 15 anos, e abordar desconhecidos na rua. Ficou "aliviado" ao receber o diagnóstico de Sally - bipolar 1-, menos pesado socialmente que o de "esquizofrênico". Afinal, a psicose maníaco-depressiva (como era chamada no passado a bipolaridade 1) atingiu poetas como o inglês lorde Byron (1788-1824), compositores como o alemão Robert Schumann (1810-1856) ou a escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941)."Fiquei nervoso ao mostrar o primeiro esboço de À Espera do Sol a Sally", admite Greenberg, revelando que a filha não gostou do que leu. "Pensei em cancelar a publicação, mas ela me incentivou a continuar", lembra, contando que, ao telefonar para Vermont e ouvir o veredicto da filha, ficou aliviado: "Eu amei", disse ela. Parecia, segundo Sally, que estava lendo sobre "uma outra pessoa que desceu ao inferno" em seu lugar. O escritor e médico Oliver Sacks, ao analisar o livro de Greenberg, escreve que Sally, ao ter o surto psicótico que a levou às ruas, exigindo a atenção de estranhos, sacudindo seus braços e correndo contra os carros, poderia estar demonstrando o mesmo "entusiasmo patológico" que acometeu o alcoólico e depressivo poeta norte-americano Robert Lowell (1917- 1977). Em seus surtos messiânicos, ele corria pelas ruas de Indiana e tinha visões epifânicas do Espírito Santo.Greenberg conta que muitos leitores, depois de seu livro ter sido eleito pela Time um dos dez melhores de não-ficção de 2008, procuraram sua ajuda como se ele fosse o doutor Sacks. "Devo dizer que não conheço tratamentos alternativos fora as drogas químicas usadas para a bipolaridade, pois desde os anos 1950 só temos variações dos mesmos tranquilizantes e antidepressivos", comenta. "Fiquei gratificado e até chorei quando li o artigo de Sacks, pois o estigma de bipolar afeta milhões de pessoas em todo o mundo."

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