A importância do simples gesto humano

Ivaldo Bertazzo reestréia nos palcos como um clown em Kashmir Bouquet, ao lado de cerca de 60 ''''cidadãos dançantes''''

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

Loucura, para o coreógrafo Ivaldo Bertazzo, é o estado de pouca criatividade em que o corpo do ser humano se encontra. ''''Parece que as pessoas deram uma interrompida no processo do desenvolvimento motor. O corpo tem de representar, ser mais imaginativo, se não vai acabar virando um monólito'''', diz, com o seu usual bom humor. Ele condena o estado de constante aceleramento da vida e, conseqüentemente, do corpo humano que visam a acompanhar no mesmo ritmo a alta velocidade do mundo contemporâneo ao qual está inserido - e que acabam nos tornando mecânicos. ''''O ser humano, hoje em dia, sabe muito bem como acelerar, mas tem uma tremenda dificuldade em desacelerar'''', afirma.A fim de resgatar toda essa essência perdida, de onde se destacam os simples gestos, Bertazzo propôs aos seus cidadãos dançantes um espetáculo que mostrasse a importância de tais movimentos inatos ao homem, porém relegados. Até domingo, no Teatro do Colégio Santa Cruz, aproximadamente 60 pessoas, gordinhas e magrinhas, altas e baixas, pais e filhos, pretendem relembrar em Kashmir Bouquet a função primordial de nossos corpos. Durante um ano, eles desenvolveram esse trabalho, coordenados pelo coreógrafo, que tem por objetivo ''''libertar-se de hierarquias''''. ''''E aqui digo liberdade no sentido de conhecimento, de ter acesso a tudo o que foi conquistado durante todo esse século, e não no sentido de dar ''''soltura'''' ao corpo, pois isso o deterioraria.''''A surpresa de Kashmir Bouquet fica por conta da participação especial de Bertazzo, que há cerca de 20 anos não dançava como intérprete. Ele sentiu a necessidade de levar de volta aos palcos a memória que seu corpo acumulou ao longo de todos esses anos. ''''É claro que eu já não apresento mais a elasticidade de um jovem, mas acho importante apresentar todas as experiências que conquistamos durante toda a carreira, que podem servir como referências.'''' O coreógrafo escolheu a figura de um clown para a sua reestréia, por acreditar que ele ''''revela as expressões mais fundamentais e corriqueiras dos seres humanos, tidas geralmente como inadequadas''''. ''''A importância do clown está justamente em apresentar as coisas mais vis do homem para, assim, alcançar os valores exatos da ética e do sagrado, por exemplo.''''Como nos trabalhos que Bertazzo vem desenvolvendo com jovens da periferia há mais de quatro anos (que desde junho se profissionalizaram como Companhia Teatro Dança Ivaldo Bertazzo e voltam a apresentar Mar de Gente entre os dias 6 e 9 no Sesc Pinheiros), em Kashmir Bouquet a idéia é expor a diversidade humana. ''''Ainda que todos tenhamos a mesma estrutura muscular, somos únicos na forma do rosto, do corpo e de uma expressão mais interna. São esses detalhes que marcam a nossa individualidade.''''Serviço Kashmir Bouquet. Teatro do Colégio Santa Cruz. Rua Orobó, 277, 3024-5191. Hoje e amanhã, às 21 h; dom., às 19 horas. R$ 30 e R$ 40. Até 25/11

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