A imagem do bem limitado e o mundo brasileiro

O antropólogo George Foster usou a idéia do bem limitado para compreender uma comunidade fundada em redes hierárquicas, onde qualquer movimento individualizador era visto como uma ameaça ao equilíbrio social e assim sujeito à inveja, ao mau olhado e à feitiçaria.Nela, o mundo era lido pela experiência da escassez e da pobreza, de modo que se uma pessoa tinha sucesso ou se destacava por algum evento especial (paternidade, casamento, ganho numa loteria ou perda de um parente), ela era alvo de inveja. A inveja e o horror ao sucesso inibiam a individualização positiva, a mobilidade social e a competição.A tese do bem limitado me fez ver que nas sociedades onde o individualismo existe, mas é tolhido e considerado como um sinônimo de egoísmo, o sistema tende a ser percebido como mais fechado e menor do que nos casos onde as hierarquias perpetradas por redes sociais imperativas são substituídas pelo individualismo e pela igualdade como uma ideologia dominante.A noção de um beneficio limitado, de uma sociedade onde muitos são chamados e poucos escolhidos, fotografa um sistema onde destacar-se é um ato de desabusado egoísmo, pois nestes sistemas a ''''cidadania'''' seria dada naquele conhecido adágio brasileiro que consagra o ''''cada qual no seu lugar'''' que realmente sinaliza o perigo de ultrapassá-lo. Colocar o chapéu onde se pode apanhar é o outro lado da inveja de quem sai de uma pauta aristocrática aberta às novidades de fora e ranzinza com as razões locais. Quando se usa o ''''está se achando'''' como um sinal negativo de uma apresentação na qual a auto-importância é destacada, revela-se como os controles para permanecer no seu lugar são levados a sério mesmo neste Brasil de Bovespa bombando e governado por um Lula cada vez mais neoliberal e disposto a canibalizar a tal ''''herança maldita''''; de resto, um trabalho político magistral simplesmente abandonado pelos tucanos.A vantagem dos sistemas onde todos se ligam com todos é que a lealdade e a proteção anestesiam as enormes desigualdades sociais. Neles, todos se sentem mesmo culpados, e poucos têm orgulho coletivo, pois o mais bem-sucedido, rico, honesto ou bonito, sempre tem como contrapeso o mais pobre, o mais canalha e o mais fracassado. Daí a leitura perpetuamente negativa de si mesmo. Aqui, o famoso narcisismo às avessas de Nelson Rodrigues não é uma figura de linguagem, mas um fato da vida.Em tais grupos, não há espaços individualizados ou abertos. Não existe fronteira. Tudo tem dono, patrão e lugar. O pessimismo é dominante porque os relacionamentos são marcadas por vergonha, pena pelas lealdades decorrentes da troca de obséquios que cada vez mais prendem uma pessoa a outra. Os desgarrados são lidos como inovadores, gênios ou miseráveis.Como o maior pecado é ter opinião e ser autônomo, há uma enorme dificuldade de separar pessoas de regras, cargos ou preconceitos morais. Se as pessoas são donas de pessoas, elas são ainda mais donas de cargos e normas que deveriam valer para todos.Daí a criminalização do sucesso. E a vigência da crença segundo a qual o êxito de um profissional, em qualquer área, é um sinal de que o bem-sucedido acaba recebendo muito mais do que merece, de modo que essa ''''mais-valia'''' simbólica, teria que ser de punida, pois seria a parte - como expressou Marx com nitidez - que ele estaria roubando de alguma pessoa do sistema. Nestas sociedades, é complicado convencer um artista que o sucesso do colega significa uma abertura do sistema para a obra de todos os artistas, pois ele sempre vê o êxito do outro como uma agressão ou como um sinal de que jamais terá vez neste mundo. O sucesso universal que todos um dia vão obter, ainda que seja por 15 minutos, só poderia ser a idéia de um Andy Warhol. Um artista, é claro; mas antes de tudo, um americano crente de que basta esperar na fila que, um dia, você vai ter tudo o que sonhou.O crime do êxito está ligado a esse desamarrar do sistema. Mas, pior que isso, é descobrir que ele sorri para as pessoas erradas, para quem não faz parte da ''''turma'''' correta. O ''''estar por dentro ou por fora'''' fala desse pertencer generalizado, ainda que humilde, a alguma rede de relações. Quem assume uma individualidade contundente, corre o risco de ficar por fora. Foi o caso de Lima Barreto e, quem sabe, de Pedro II.Entende-se agora a enorme simpatia por qualquer tipo de coletivismo, desde que o bem a ser dividido não seja o nosso, mas o ''''bem comum'''' que não pertence a ninguém num sistema constituído de pessoas concretas, jamais de cidadãos universais. Outro dado marcante é a existência de revolucionários oficiais, do mesmo modo que pululam canalhas institucionais. Os transformadores acusam o sistema sem piedade, mas com malícia; já os canalhas são os que jamais obedecem às leis, mostrando que, quando se ''''chega lá'''', o céu, e não a cadeia, é o limite.

Roberto DaMatta, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2007 | 00h00

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