A hora dos árabes

Editores descobrem a atual geração de escritores de língua árabe e relançam clássicos que traduzem a riqueza da cultura onde nasceram as lendas das 1001 noites

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

19 Janeiro 2008 | 00h00

Com a morte há dois anos do fundador e maior nome do romance árabe moderno, Naguib Mahfouz, os editores do Ocidente começaram a procurar eventuais candidatos ao posto vago do escritor egípcio, ganhador do Nobel de literatura em 1988. Não há ainda um consenso sobre seu herdeiro, mas a busca rende ótimos resultados para os leitores, especialmente os brasileiros, que ganham este ano acesso a traduções de novos autores do mundo árabe simultaneamente ao lançamento do terceiro volume do clássico Livro das Mil e Uma Noites, traduzido por Mamede Mustafa Jarouche. Ele é responsável pela antologia Histórias para Ler Sem Pressa, também publicada pela editora Globo, que reúne contos do mundo árabe antigo. Do mundo moderno se ocupam outras editoras: a Nova Fronteira lança o polêmico Vida Dupla, de Rajaa Alsanea, que concedeu ao Estado uma entrevista sobre as ameaças de morte recebidas de fundamentalistas por revelar no livro como vivem jovens da classe média alta da Arábia Saudita. A editora Agir responde com outra provocação, Meu Nome É Salma, de Fadia Faqir, ativista jordaniana que defende os direitos da mulher do mundo árabe. Rajaa e Fadia estão entre os vários autores lançados pelas editoras brasileiras em 2008, destacando-se o libanês Elias Khoury, autor do romance A Porta do Sol. Cresce surpreendentemente o número de mulheres escritoras no mundo árabe, a despeito da repressão dos fundamentalistas. Muitas vivem no Ocidente, especialmente na Europa, assim como alguns dos autores selecionados nesta edição dedicada à literatura contemporânea árabe. O Cultura traz, além das entrevistas de Rajaa Alsanea e Mamede Mustafa Jarouche, uma resenha da sua tradução do Livro das Mil e Uma Noites pelo crítico Ricardo Lísias e um ensaio do premiado escritor carioca Alberto Mussa (Os Poemas Suspensos) sobre as origens e o desenvolvimento da literatura árabe, além de indicações de leitura de cinco grandes escritores árabes em atividade. A literatura árabe já foi menos conhecida no Brasil. Há alguns anos autores de vários países têm visitado regularmente o Brasil e participado de festas literárias como a Flip, que já recebeu o palestino Mourid Barghouti e a egípcia Ahdad Soueif, para citar apenas dois entre seus recentes convidados. As editoras estão atentas ao movimento literário dos novos candidatos ao posto de Mahfouz, como o marroquino Tahar Ben Jelloun, que já teve ótimos livros lançados pela Bertrand (O Último Amigo) e Record (Partir), e o sudanês Tayeb Salih, que teve o seu lírico Tempo de Migrar para o Norte - história de um órfão dividido entre dois continentes - lançado pela editora Planeta. Faltam ainda livros de nomes como a libanesa Hoda Barakat ou os egípcios Alaa el Aswani (O Edifício Yacoubian, que será lançado em maio pela Companhia das Letras como O Edifício Egípcio) e Sonallah Ibrahim (considerado o Kafka árabe), mas já no começo do ano as editoras começam a corrigir algumas outras falhas. A Record lança em março o elogiado romance do libanês Elias Khoury, A Porta do Sol. Khoury, editor do suplemento cultural do jornal libanês Al-Nahar, tem 60 anos e foi seriamente ferido durante a guerra civil no Líbano, em 1975. Seu livro conta a dramática história de um velho militante palestino em coma, assistido por seu filho espiritual, um paramédico que se recusa a admitir sua perda, tentando reanimá-lo com histórias de exilados no Líbano. Nessa espécie de Renascimento literário árabe, a vida de exilados e perseguições políticas são temas recorrentes entre os autores de romances e novelas, mas o mundo árabe é bastante amplo e generoso para abrigar diversas tendências literárias, da ironia do egípcio Alaa el Aswani ao engajamento do iraquiano Mahmoud Saeed, autor, segundo a crítica estrangeira, de uma devastadora novela autobiográfica sobre os horrores das prisões iraquianas durante o regime de Saddam Hussein. Outro escritor que esteve preso por sua militância política e fez dessa experiência carcerária uma obra literária vigorosa é o egípcio Sonallah Ibrahim, cuja obra mais conhecida, Memórias da Prisão Oásis, retoma o tema de seu primeiro livro de contos, Aquele Cheiro (ou O Cheiro Daquilo em tradução literal). Ibrahim, que sempre escreve na primeira pessoa, não é considerado o Kafka do Egito por acaso: seu livro O Comitê traz referências à obra-prima do escritor checo, O Processo, elegendo um personagem às voltas com uma organização nebulosa que o submete a interrogatórios rotineiros. Embora trate igualmente de corrupção política, hipocrisia religiosa, mecanismos repressores e urbanização do Egito desde o golpe de Estado de 1952, Alaa el Aswani escolheu outro caminho. Seu O Edifício Yacoubian (ou O Edifício Egípcio) tenta ser um microcosmo da sociedade egípcia, ao reunir no histórico prédio do Cairo tipos tão diferentes quanto um gay intelectual e um homem de negócios, passando pelo filho do porteiro. Lançado em 2002, o livro é a novela mais vendida de língua árabe e virou o filme mais caro produzido no Egito. Apesar do lançamento de novos autores, a obra de veteranos como Naguib Mahfouz continua ocupando as estantes das livrarias (a Record lançou vários de seus livros e a Companhia das Letras publica em fevereiro seu Noites das Mil e Uma Noites). Resta esperar que as editoras brasileiras lembrem também dos poetas árabes. O sírio Ali Ahmad Said Asbar, mais conhecido como Adonis e candidato eterno ao Nobel, precisa ser urgentemente lido pela nova geração.

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