A história do futuro dos EUA, por um britânico

Às vésperas da posse de Barack Obama, o historiador Simon Schama, convidado da Flip deste ano, repassa as contradições e a capacidade de renovação do país

Caio Blinder, Nova York, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

Vamos começar com um clichê: os EUA e o mundo estão na iminência de um momento histórico com a posse de Barack Obama na presidência, terça-feira. Nesta data que com parcialidade podemos qualificar de querida, o historiador Simon Schama, que vem ao Brasil no meio do ano para a Festa Literária Internacional de Paraty, tem um presente com seu livro The American Future: A History (editora The Bodley Head, lançado na Inglaterra).Não é um livro de ocasião mas, sim, uma louvação dos paradoxos americanos - e assim ganhamos um precioso antídoto ao antiamericanismo mais barato.O virtuoso e exuberante Schama atravessa com facilidade as fronteiras entre passado, presente e futuro; entre a densidade acadêmica e a reportagem; e entre o genérico e o minucioso. Ele cai do céu como um paraquedista e cava nas profundezas como um mineiro obsessivo. Frenético, abandona a cronologia em sua viagem no tempo e espaço. Acompanha as eleições primárias em Iowa, projetando o futuro; mais tarde, visita uma igreja batista na Virgínia, que parece não ter saído do País de Gales do século 16. A narrativa sobre as barbaridades praticadas contra os índios se transfere para um relato do sistema de irrigação no oeste do país.O livro está dividido em quatro partes, ou quatro forças ativas, cada uma com reação equivalente. Elas são beligerância, fervor religioso, etnicidade e abundância. O país dos desígnios imperialistas de Theodore Roosevelt tem o contraponto da advertência de Thomas Jefferson de que a guerra é o esporte dos tiranos. A religiosidade contrasta com a rígida separação entre Estado e Igreja. O país construído por gente de todas as partes tem uma tradição de rancor étnico e racial. A promessa da riqueza ilimitada é freada por impulsos frugais.Um bom exemplo da virtuosidade narrativa de Schama, que serve para exemplificar o tema da beligerância e seu contraste, é a trajetória da família Meigs e sua tradição de serviço militar desde que chegou da Inglaterra em 1636. Entre seus integrantes houve donos de escravos negros e protetores de índios vítimas de massacres. Na galeria de guerreiros do clã, surge o general da reserva Montgomery Meigs para ser entrevistado por Schama. O historiador diz que parece que ele "sempre o conheceu". Meigs ensina um curso na Universidade de Georgetown, em Washington, com o título "Por Que Presidentes Vão à Guerra Quando Não Preisam".Para aqueles que não toleram o fervor religioso americano, Schama relembra os bravos fundamentalistas que lutaram pela abolição dos escravos no século 19. Para o presidente Willliam McKinley, que no começo do século 20 decidiu anexar as Filipinas em nome dos nobres valores americanos, havia o senador George Frisbie Hoar, que bradou: "Você não tem o direito, da boca do canhão, de impor para um povo não disposto a sua Declaração de Independência, a sua Constituição". O livro tem esta dinâmica entre visões contrastantes do destino americano. Há um diálogo permanente entre a generosidade americana e sua pequenez, entre os grandes ideais e os medos mais tacanhos. Já no século 18 havia dúvidas sobre o "romance com os imigrantes" e elas persistem. O mesmo país que se vangloria agora por colocar alguém como Obama na presidência foi marcado por uma campanha eleitoral insidiosa em que se questionava se aquele filho de um negro queniano expressava os "verdadeiros valores americanos". O país dos guerreiros pacifistas e imigrantes xenófobos prospera e é manchado pelos paradoxos. No compromisso da nação fundada eloquentemente no direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade estava encravada a escravidão. No entanto, o país em que o casamento inter-racial era proibido em muitos estados quando Obama nasceu, hoje esposa este momento histórico do primeiro presidente negro.Schama é um prosador do duradouro otimismo americano e da incrível capacidade de autorenovação do país. Quase no final, ele escreve que os "pais fundadores" esperavam que nada estivesse além da reinvenção americana, exceto sua Constituição e mesmo ela, é claro, poderia ser emendada. O momento presente é de aflições e de incertezas, mas, na ocasião da festa da posse de Barack Obama, Schama tem razão na sua história sobre o futuro americano.

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