A história de 40 anos do Balé da Cidade celebrada em dois atos

Sandro Borelli e Luis Arrieta privilegiam voz intimista em programa de aniversário

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2008 | 00h00

O novo programa do Balé da Cidade de São Paulo, recentemente apresentado no Sesc Vila Mariana, exala a maturidade dos 40 anos que celebra. Corajosamente, abre mão da grandiloqüência para privilegiar a voz íntima. Em vez de convidar um coreógrafo estrangeiro do tipo celebridade na mídia, elege dois coreógrafos que fazem parte da sua história e, com eles, monta um espetáculo em dois atos. Ao dançar Sandro Borelli e Luis Arrieta, parece estar-nos mandando um recado que salienta um dos traços mais importantes da sua trajetória: o de se pensar como um espaço de construção de talentos brasileiros - seja no papel de bailarino ou no de coreógrafo.Por exibir duas obras de cada um, permite também que se chegue mais perto do próprio processo de construção de dança de ambos. E assim, o programa se transforma em uma aula magna sobre o papel político que uma companhia oficial de dança pode assumir em um contexto como o que vivemos hoje no nosso país.Assistir a Adeus Deus (2005) e Lac (2001) permite a observação da força e da consistência coreográfica de Sandro Borelli. A sintonia entre Melissa Soares e Leonardo Polato vai tecendo um relacionamento tão denso quanto seco, desinflado, que vai rarefazendo o ar em torno deles à medida que um se vai imprimindo no outro. A contundência é a do grito que parece vir de regiões tão escuras que, quando assoma, não mais consegue soar. É um grito-caverna em um corpo-caverna. Cada articulação entre a dupla nos vai encaminhando para uma zona mais escura ainda, e a respiração vai ficando tão difícil que se torna necessário buscar o ar do outro. Quase como se um corpo e o outro buscassem ocupar o mesmo lugar no espaço.A obscuridade que envolve Adeus Deus se transforma em um embate à luz do dia em Lac. Borelli usa o adágio da música que Tchaikovsky (1840-1893) escreveu para o segundo ato de O Lago dos Cisnes, mas explora o lado obscuro do clima romântico do cisne encantado, focando as forças animais, o lado reptílico do sexo. Os ajustes que fez nessa composição trouxeram ainda mais contundência, confirmando que Borelli se interessa pela força daquilo que é indispensável e, por isso, retira de sua dança tudo o que puder ser retórico. Tanto Lac quanto Adeus Deus nos instalam no papel de observadores-invasores do que não parece ter sido produzido para o nosso olhar.O segundo ato é de Luis Arrieta. A distância histórica que separa suas duas obras aqui reunidas (La Valse é de 1992 e Umbral está estreando) instaura uma perspectiva de longo alcance no seu percurso coreográfico. La Valse é toda voltada para fora, no seu enfileiramento de competências a serem demonstradas. A excelente versão de Líris do Lago e Israel Alves explora com muita qualidade aquela exteriorização exacerbada que pontua a dança de salão. Talvez percebendo o baile potencial que La Valse embutia, Arrieta criou também uma outra montagem para quatro casais.A nova produção, Umbral, com o oitavo movimento do Quarteto para o Fim dos Tempos, de Olivier Messiaen (1908-1992), deixa muito claro o domínio de Arrieta sobre o métier de fazer coreografias. É como se ele expusesse a sua facilidade em cortar, encurtar, dobrar e desdobrar o movimento em combinações que parecem brotar naturalmente delas mesmas. Uma coreografia que puxa um fio e ele vai distendendo a sua forma. Uma forma que lembra os organismos em transformação: o que se vê contém o que já esteve e o que ainda virá a estar.Em Umbral, o requinte é outro, mas se mantém o mesmo traço de exterioridade de uma dança que é para fora. Andréa Thomiola, Dielson Pessoa e Wagner Varela tonalizam a química precisa para que as passagens surjam e os trânsitos se façam. É um trio e tanto.A interessante articulação que os dois atos desse programa monta (são dois modos de pensar a dança) enriquece ainda mais a sábia decisão que a direção do Balé da Cidade de São Paulo tomou de assim celebrar os seus 40 anos.

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