A história da Warner, sem concessões

O cineasta Richard Schickel acompanha a evolução do estúdio com rigor crítico

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

02 de setembro de 2009 | 00h00

É um documentário de longa duração (quase cinco horas), mas tão bem realizado que o espectador lamenta quando chega ao fim. You Must Remember This, o DVD duplo em questão, conta a história de uma das maiores produtoras de filmes de Hollywood, a Warner Bros, criada em 1918 (mas formalmente fundada em 1923). O filme tem esse nome em função de um dos maiores clássicos da produtora, Casablanca (1942), que tornou célebre o tema musical As Time Goes By, cuja primeira frase batiza o documentário do crítico Richard Schickel, da revista Time, também biógrafo de Marlon Brando, Clint Eastwood e Elia Kazan.Casablanca é uma síntese de todas as virtudes que marcaram os clássicos da Warner: quase um filme noir (rodado em preto e branco), tem diálogos afiados, um cinismo incontido e elenco all star, além de usar um tipo de linguagem que só uma produtora pioneira em quase tudo (filmes falados, cinemascope, uso da terceira dimensão) poderia ousar. E mais: rejeita o final feliz. Vanguardista até na política, a Warner foi também o primeiro estúdio norte-americano a confrontar Adolf Hitler, antes mesmo que os EUA entrassem na guerra: já em 1939 lançou Confissões de Um Espião Nazista, filme antinazista com a estrela absoluta da Warner, Edward G. Robinson.A Warner fez de Robinson o protagonista de seu primeiro filme de gângster, Alma no Lodo (Little Caesar, 1931) e convocou-o para outros clássicos do gênero. Nos anos da Depressão americana, a produtora tomou o partido dos oprimidos e, embora tenha usado a cor em musicais para puro entretenimento das massas, apostou nos filmes de gângster em preto e branco, tornando célebres atores como Robinson e James Cagney, que representavam ressentidos personagens oriundos do subproletariado urbano.O documentário, narrado pelo ator e cineasta Clint Eastwood, que lá produziu e dirigiu seus melhores filmes (Os Imperdoáveis, entre eles), tem o mérito de tratar criticamente todas as fases da Warner, as boas (anos 1930, antes do estabelecimento da Censura, por volta de 1934) e as más (anos 1970, quando trocou a ousadia de Bonnie and Clyde, rodado em 1967, pelo espetáculo de massa dos videogames da sua Atari).Na fase inaugural (anos 1920), a Warner apostou na sofisticação de diretores europeus como o alemão Ernst Lubitsch. Por essa época, era o estúdio independente de maior projeção em Hollywood, competindo com gigantes como a Paramount e a Metro. Essa prosperidade permitiu que Warner fosse a pioneira na produção de filmes com som sincronizado (os chamados "talkies") como Don Juan (1926) com John Barrymore. Embora fosse mudo, tinha alguns efeitos sonoros especiais em sua trilha, novidade que levaria a Warner a lançar no ano seguinte o primeiro filme falado da história do cinema, O Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1927).A essa altura, outros estúdios começaram a competir com os filmes sonoros da Warner. Veio a Depressão e com ela a redução dos orçamentos milionários. A Warner soube aproveitar a ocasião, produzindo filmes de baixo custo (os chamados filmes "B") com temas adultos (prostituição e consumo de drogas) que fizeram história em Hollywood. Serpentes de Luxo (Baby Face,1933) encabeça a lista. Nele, Barbara Stanwyck interpreta uma alpinista social que dorme com todo mundo até conquistar o presidente de um banco. Essa ousadia não duraria para sempre. O crítico Richard Schickel denuncia, por exemplo, a rendição da Warner à direita hidrófoba americana nos anos 1940/50, mencionando o espúrio acordo da produtora com o macarthismo. No entanto, reconhece que, de modo geral, ela sempre esteve do lado certo, defendendo os proscritos e apostando em autores difíceis como Stanley Kubrick (De Olhos Bem Fechados, 1999). Serviço You Must Remember This. De Richard Schickel. DVD duplo, Warner, R$ 34,90. Narrado por Clint Eastwood

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.