A história da diplomacia da paz

Em tempo de conflito, Demétrio Magnoli organiza volume dedicado às pessoas empenhadas em evitar as guerras

Roberto Godoy, O Estadao de S.Paulo

14 de maio de 2008 | 00h00

Assim como sempre houve homens dispostos a usar a guerra como instrumento de dominação ou de resolução de interesses, tampouco faltaram, ao longo da história, pessoas empenhadas em evitá-las ou, em caso extremo, de detê-las.Ao longo de 448 páginas e de 15 densos artigos assinados por historiadores, diplomatas, jornalistas, cientistas políticos e um economista, o livro História da Paz (Editora Contexto, 2008, com lançamento marcado para hoje, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, a partir das 19 horas) mostra que a ação da diplomacia da paz pode ser tão fascinante quanto a da guerra. Travada nos bastidores, a luta pela paz se dá com armas bem diversas daquela - como conferências, tratados, acordos, protocolos, cartas e declarações -, em geral a uma distância calculada dos campos de batalha.Organizado por Demétrio Magnoli, sociólogo e articulista do Estado, o livro é de certa forma uma resposta a outra coletânea publicada pela mesma editora há dois anos, História das Guerras, em que se fazia uma longa viagem pelos mais sangrentos conflitos da história humana, do Peloponeso ao Golfo Pérsico. Ali, a guerra era apresentada como um sucedâneo da paz, como uma alternância mais ou menos inevitável, como aliás demonstram as mais de 18 mil guerras oficialmente reconhecidas- desconsiderados motins e escaramuças - dos albores da humanidade aos dias de hoje.No novo livro, parte-se de uma especulação que antes já se fizera o filósofo Kant, que em 1795 achara possível, sob certas condições, a manutenção de um regime de paz perpétua. Os analistas brasileiros - entre os quais Celso Lafer, Roberto Romano, William Wack, Gilson Schwartz e Fernando Gabeira - não são tão visionários. Para eles, os esforços de paz são obra de gente realista e pragmática que busca substituir os sistemas derruídos por uma nova ordem que, como a anterior, ''aspira à permanência''.Da idéia da paz duradoura como conseqüência do equilíbrio de poder (Westfália, 1648) até o Tratado de Não-proliferação Nuclear (1968), que ''procurou congelar a geometria do poder nuclear para conjurar o risco de destruição da civilização'', muito sangue foi derramado entre uma rodada de negociação e outra. Apesar disso houve grandes momentos em que a paz foi notícia mais altissonante que a guerra. O livro mostra, por exemplo, que nos concílios de Nicéia e Trento, ainda que separados por mais de um milênio, ''autoridades políticas e religiosas de diferentes pontos do mundo se reuniram para estabelecer normas de validade geral''. Fica-se sabendo que o Tratado de Tordesilhas (1494), feito para definir o horizonte expansionista de portugueses e espanhóis, também assinalou a transição da hegemonia dos papados para o poder secular, além de marcar a passagem da Idade Média para a Idade Moderna.Houve épocas, porém, em que o imperativo da paz se deu ao fim de ''devastações invulgares provocados por guerras gerais'', como no Congresso de Viena (1815) e no Tratado de Versalhes (1919). Entre um e outro, observa Magnoli em sua estupenda introdução, deu-se a expansão imperialista e o declínio das velhas potências européias, de que o exemplo mais notável é o do império austro-húngaro, varrido do mapa pela Primeira Guerra Mundial, e cuja cavalaria foi recebida por sérvios armados até os dentes com metralhadoras inglesas.Dos mais interessantes são os capítulos sobre os chamados ''tratados iníquos'', como o de Nanquim (1842), a Conferência de Berlim (1884-85) e o Acordo Sykes-Picot (1916). Sob o impacto desses tratados a África foi retalhada pela política colonial européia, fez-se a partilha anglo-francesa do Oriente Médio, e a China imperial e o Japão dos xoguns ruíram ante o assalto das potências ocidentais. Pode-se compreender boa parte da história contemporânea a partir desses passos em falso da ''paz negociada'', que resultaram na militarização do Japão, na Revolução Chinesa e no caldeirão do mundo árabe cujas conseqüências ainda estão longe de chegar a termo.A aproximação do fim da Segunda Guerra Mundial criou clima propício para uma série de tratados cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir. A Conferência de Bretton Woods, por exemplo, pautou em 1944 a reconstrução econômica do pós-guerra e, nas palavras de Magnoli, ''evidenciou o paradoxo que faz da ação política dos Estados uma condição para a sobrevivência do liberalismo econômico''; e as Conferências de Yalta e Potsdam (1945) ''assinalam o eclipse das tradicionais potências européias'' e são ''uma antevisão da bipartição da Europa em esferas de influência dos EUA e da URSS''.Por fim, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, liricamente rascunhada por Eleanor Roosevelt em 1948 com a pretensão de que se tornasse ''a Carta Magna internacional'', o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (1968) e o Protocolo de Kioto (1997) são exemplos do esforço ingente dos homens da paz no sentido de que estados e nações subam a um novo patamar civilizatório, para além da guerra e desse novo risco que se avoluma a cada ano que passa, o da aniquilação do planeta pelo aquecimento global e pela destruição da natureza.Um dos méritos do livro é demonstrar que, assim como a guerra é antiga, a paz também não é nova. A ''paz perpétua'' sonhada por Kant pode ser uma utopia, mas é bom lembrar que a grande utopia do século 20 - com acerto chamado de o século das guerras - foi o ressurgimento da doutrina pacifista, primeiro com Gandhi, depois com os movimentos organizados que cruzaram o milênio e que hoje, felizmente, são uma realidade bem mais que utópica.Serviço História da Paz. Demétrio Magnoli (org.). Contexto, 448 págs., R$ 49. Livraria Cultura. Av. Paulista, 2.073, 3170-4033. Hoje, 19h

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