A história contada só por gravuras

MoMA exibe obras com narrativas sobre guerra, questões sociais e até religiosas

Tonica Chagas, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

A gravura como meio usado em temas históricos, do fim do século 19 até hoje, é a linha condutora da exposição Repicturing the Past/Picturing the Present, que o Museum of Modern Art (MoMA), de Nova York, apresenta até 5 de novembro no seu setor de impressões e livros ilustrados. A mostra foi produzida especialmente para exibir uma das recentes aquisições do museu, a série Harper''''s Pictorial History of the Civil War (Annotated), criada em 2005 por Kara Walker. Em torno dela estão mais de cem impressões do acervo do MoMA, criadas por artistas como Picasso, Max Beckman, Louise Bourgeois, Christian Boltanski e Kiki Smith.Embora concentre seu trabalho num assunto espinhoso para os americanos - as questões sociais que envolvem os negros no seu país, Kara é uma das artistas americanas contemporâneas mais prestigiadas. Normalmente ela trabalha com silhuetas de figuras e cenas recortadas em papel preto e aplicadas diretamente em paredes brancas. Nesse portfólio, pela primeira vez, ela usou como fundo para as figuras material histórico impresso a respeito do que inspira suas composições.Aqui as silhuetas estão sobre ilustrações do compêndio Harper''''s Pictorial History of the Civil War, publicado em 1866 e baseado em material do Harper''''s Weekly, o jornal mais lido nos Estados Unidos durante a Guerra Civil Americana. Com elas, a artista investiga o tratamento dado naquele período a questões como raça, gênero, sexualidade e opressão, e sublinha o papel que elas tiveram na formação dos estereótipos americanos em relação aos negros.Escravidão e racismo também são temas explorados em obras dos americanos Glenn Ligon e Willie Cole e do sul-africano William Kentridge. Em Runaways, série de 1993, Ligon imita cartazes para a procura de escravos fugidos nos EUA em fins do século 19. A descrição dos fugitivos é substituída por textos de amigos do artista, a quem ele pediu que o descrevessem como se tivessem que informar seu desaparecimento à polícia. Em Stowage, uma xilogravura imensa (142 cm x 266 cm) criada em 1997, Cole reinterpreta um diagrama do navio negreiro The Brooks, usado por abolicionistas para denunciar as condições que os africanos eram trazidos para a América. Na série Ubu Tells the Truth, de 1996-97, Kentridge usa a figura de Ubu Roi, personagem surrealista criado por Alfred Jarry em 1896, para personificar o apartheid em seu país. O título da série faz alusão à Comissão para a Verdade e Reconciliação, fórum criado na África do Sul em 1995 para discussão pública das violações dos direitos humanos.Judith Hecker, que organizou a exposição, procurou no acervo obras com narrativas próximas à da série de Kara. A maioria delas aborda agonias e atrocidades humanas cometidas, principalmente, em períodos de guerra. Em várias delas, personagens mitológicos e religiosos formam um elenco versátil para os artistas manifestarem suas posições diante de fatos históricos.As séries Die Hõlle (O Inferno), feita em 1919 pelo alemão Max Beckman, e Misticheskie Obrazy Voiny (Imagens Místicas da Guerra), criada em 1914 pela russa Natalia Goncharova, representam os horrores da 1ª Guerra Mundial em motivos religiosos como crucificação e santos, combinados com representações de militares e bombardeios. Na monumental xilogravura Grane (1980-93), Anselm Kiefer usa como referência o fim do ciclo de óperas de Wagner O Anel do Nibelungos - quando Brunilda entra com seu cavalo, Grane, na pira funeral de Siegfried - para falar da luta pelo comando do mundo e do envolvimento da Alemanha na 2ª Guerra.O sofrimento e sua relação com santos e religiosidade é outra constante nas obras reunidas em Repicturing the Past/Picturing the Present. A história bíblica dos tormentos de Santo Antônio inspirou tanto a série feita em 1896 pelo francês Odilon Redon como a que o americano Tim Rollins produziu em 1989 com crianças e adolescentes do coletivo K.O.S. (Kids of Survival). Em Ste. Sebastiènne, uma ponta seca de 1982, Louise Bourgeois transpôs para o corpo da mulher a agonia de São Sebastião, que foi morto a flechadas. Também iconoclasta e ainda mais satírica, Kiki Smith usou personagens da história infantil Chapeuzinho Vermelho e a estrutura convencional das representações da Virgem Maria com o Menino Jesus para compor Born, uma litografia de 2002.As 15 gravuras da série de Kara Walker são exibidas numa sala exclusiva. O museu também criou um website especial para a exposição (moma.org/repicturingthepast) onde elas são o destaque.

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