Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Masp expõe o trabalho afro-brasileiro de Abdias Nascimento

Militante da luta pela igualdade racial e a promoção da cultura negra, o ator, diretor e pintor ganha mostra com 62 pinturas suas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

25 de fevereiro de 2022 | 05h00

Entre novembro de 2018 e março de 2019, o Masp realizou uma exposição antológica do pintor Rubem Valentim (1922-1991), Construções Afro-Atlânticas, reunindo 99 obras do artista, que criou uma linguagem original ao cruzar o melhor da abstração geométrica europeia com os signos das religiões afro-brasileiras que representam os orixás. Agora, o mesmo Masp abre nesta sexta, 25, uma retrospectiva do pintor, ator e dramaturgo paulista Abdias Nascimento (1914-2011), militante contra a discriminação racial que viveu de 1944 a 1968 no Rio, antes de fixar residência nos EUA, levado ao exílio pela perseguição política da ditadura militar. 

Com curadoria de Amanda Carneiro, curadora-assistente, e Tomás Toledo, curador-chefe do Masp, a exposição faz parte da programação bienal do museu dedicada às Histórias Brasileiras. É uma grande contribuição à herança cultural afro-brasileira no centenário de nascimento de Rubem Valentim: os curadores conseguiram reunir um conjunto de 61 pinturas, além de 83 documentos e fotografias de arquivo, que mostram não só a trajetória de Abdias Nascimento, mas seu genuíno envolvimento com o Brasil e sua gente.

Suas pinturas, a exemplo da arte de Rubem Valentim, associam orixás à abstração geométrica, além de recriar elementos da cultura africana como os “adinkras” (conjunto de símbolos que representam conceitos embutidos em provérbios, notadamente dos povos da África Ocidental e, em especial, de Gana). Abdias, que foi também um homem da tradição escrita, fundou o Teatro Experimental do Negro (nos anos 1940) e criou o pioneiro projeto Museu de Arte Negra (década de 1950), além de ter atuado como político.

Abdias Nascimento: Um Artista Panamefricano conta um pouco dessa história, pois sua trajetória está intimamente ligada à pintura do artista, que, ao contrário de Valentim, seguiu fiel à figuração. Não se deve esquecer que Abdias chegou aos EUA em plena ebulição de movimentos contestatórios. O exílio de intelectuais e artistas latinos para a América, nos anos 1960, assim como, no pós-guerra, o dos europeus (Albers e companhia), levou artistas norte-americanos reconhecidos a aderir – e até incorporar – signos das culturas ditas “primitivas”, o que facilitou o trânsito dos orixás de Abdias pelos EUA – e a mostra do Masp está cheia de exemplos de uma iconografia que causou impacto entre jovens artistas americanos empenhados em redescobrir valores espirituais, que andavam esquecidos na América da pop arte.

“A mostra retoma conceitos formulados por Abdias, como o ‘quilombismo’, mostrando como seu projeto de transformação social passava pela experiência dos quilombos”, observa a curadora, apontando para uma tela que, segundo Amanda Carneiro, sintetiza essa experiência de incorporar a herança cultural africana numa sociedade eurocêntrica e racista. A tela em questão, Quilombismo, representa a união do tridente de Exu aos ferros de Ogum, divindades iorubás.

Algumas pinturas da mostra traduzem a pesquisa de Abdias sobre símbolos e bandeiras de projetos e identidades nacionais, vistas sob uma perspectiva simultaneamente pan-africanista e amefricanista. As telas que representam Oxóssi e Xangô, ambas de 1970, segundo a curadora, “estabelecem um diálogo entre representações do Brasil e dos EUA por meio de uma recomposição de símbolos nacionais”. Abdias já se encontrava nos EUA quando o pop Jasper Johns conquistou o público com suas bandeiras americanas que perdiam igualmente seu peso simbólico e viravam pretexto temático para a pintura. Em sua bandeira americana, também dos anos 1970, Abdias incorpora o machado de Xangô, o orixá da Justiça.

Como um intelectual multifacetado, Abdias prestou no ano seguinte uma homenagem a Glauber Rocha, ao batizar uma tela da exposição como O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1971), mesmo título do filme (de 1969) do cineasta baiano. Detalhe: o “dragão”de Abdias não é o de São Jorge, mas um lagarto da caatinga, que serve como alegoria dos humanos que rastejam aos pés dos coronéis. Outra tela que chama a atenção na mostra é seu Cristo Negro (1969), título americano do filme Sentado à Sua Direita (1968), cinebiografia do líder político anticolonialista congolês Patrice Lumumba (1925-1961), torturado e morto pelos belgas. 

SERVIÇO

Abdias Nascimento: Um Artista Panamefricano

Masp. Avenida Paulista, 1.578, 

tel. 3149-5959. 4ª a dom., 10h/18h. 

3ª, 10h/ 20h, gratuito. 2ª, fechado. Ingressos: R$ 50. Até 5/6

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.