A gata e a porta

A porta estava entreaberta.A gata espiou pela brecha, pareceu gostar do que viu do outro lado, resolveu passar.Não havia espaço suficiente.Era uma porta dupla, de correr, com abertura no centro.Ela então começou a usar suas patas, como se fossem mãos, para abrir passagem.Com a pata direita, empurrava a banda esquerda da porta. Com a pata esquerda, empurrava a banda direita. Como se tivesse completo conhecimento das leis da física.Nenhum dos lados da porta cedeu, e ela arriscou enfiar a cabeça.Forçou um pouco.Quase que dava.Ela percebeu a sutileza do quase, como se tivesse exata compreensão da semântica.Voltou atrás.Avaliou melhor o inimigo.Tentou com as patas de novo, usando um pouco mais de força.Nada.Sem outra alternativa no momento, a gata se sentou em frente da brecha da porta e lá ficou.À espreita.Esperando que algum fenômeno acontecesse, interferindo nas condições desfavoráveis às suas possibilidades.Eu, uma pobre pessoa tentando escrever uma crônica, senti pena da gata.Levantei da frente do computador, com a intenção de ir abrir a porta para ela, mas a gata estava tão concentrada no seu desafio que eu resolvi reconsiderar a minha interferência.Era a vontade dela. O interesse dela. Um problema dela, e não meu.Quem era eu para roubar o seu direito de resolver o seu problema?Sentei de novo em frente do computador, mas já não via mais a tela, preferia observar a cena.A gata olhava para a porta da esquerda, para a porta da direita, para a brecha no meio.E, acho eu, pensava.Talvez pensasse em relações de massa, volume e espaço.Talvez pensasse em como poderia ser bom do lado de lá da porta.Talvez pensasse em outras alternativas para solucionar sua questão imediata.Talvez pensasse somente na sua condição - felina, quadrúpede, curiosa, impossibilitada de abrir portas.Talvez nem estivesse pensando, e apenas esperasse.Algo haveria de acontecer, em algum momento. Fenômenos ocorrem. Circunstâncias mudam. Nada é estático. Tudo se transforma, no seu próprio tempo. É inútil tentar converter a natureza das coisas. O calor vem com o verão, as flores com a primavera, as portas se abrem quando são abertas. Nem tudo que a gente quer, se dá na hora que a gente quer.Daí a gata olhou em volta, me fitou por um segundo, subiu na cadeira ao meu lado, e ficou ali imóvel, em posição de gato, servindo de objeto decorativo. Como se tivesse uma perfeita noção de estética.E eu, uma pobre pessoa tentando escrever uma crônica, senti pena de mim.

Adriana Falcão, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

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