A fronteira entre o banal e o absurdo

Em As Fantasias de Pronek, o bósnio Aleksandar Hemon lança olhar irônico sobre os Estados Unidos, país onde vive desde 1992

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

15 de abril de 2009 | 00h00

O escritor Aleksandar Hemon vive com os pés em Chicago desde 1992, quando forçosamente se exilou nos Estados Unidos - com a eclosão da guerra em seu país, a Bósnia, ele ficou impedido de voltar. Mas seu pensamento ainda flutua pela Sarajevo natal, a ponto de inspirar sua literatura. Não de uma forma saudosista, melancólica, e sim pela estimulante combinação de culturas. "Sua visão de mundo é incomum e poética", escreveu o também autor Jonathan Safran Foer, elogiando As Fantasias de Pronek, agora lançado pela editora Rocco (tradução de Roberto Grey, 232 páginas, R$ 32,50).O que tanto agrada nos textos de Hemon é seu particular ponto de vista europeu sobre os valores norte-americanos. Seus personagens tropeçam na língua e não entendem o funcionamento dos hábitos locais, como a obsessão pela previsão do tempo. Isso os mantêm sempre na tênue fronteira entre o banal e o absurdo. Em resumo, experiências sofridas pelo próprio autor em terras americanas. "Eu escrevo de forma usual, reproduzindo o que ouço nas ruas, mas a partir de meu jeito peculiar de pensar", disse Hemon ao Estado, em entrevista por telefone.Tal particularidade se traduz em uma prosa construída por caminhos diversos. É como se Hemon ouvisse em inglês, traduzisse de forma literal para o bósnio e, em seguida, vertesse novamente para o inglês. O resultado é um texto tristemente engraçado ou, dependendo do ponto de vista, engraçadamente triste. "Parece que ele publicou seu primeiro livro depois de ter aprendido a língua inglesa em apenas seis meses", elogia outro grande nome da nova literatura americana, Zadie Smith. "Por vezes, Hemon me faz lembrar Nabokov." Ou seja, é a prosa de alguém que entende perfeitamente o novo idioma a ponto de escrever como se não entendesse.As Fantasias de Pronek evoca um personagem surgido em um dos contos do primeiro livro de Hemon publicado no Brasil, E o Bruno?, também lançado pela Rocco. Se lá Josef Pronek decide permanecer nos EUA quando vê pela CNN a guerra eclodir em sua cidade natal, o novo livro acompanha sua peregrinação no país em que forçosamente adotou, vivendo de diversos subempregos, de auxiliar de detetive particular a ativista do Greenpeace. "Ele sofre do que aqui nos EUA se chama ?desfamiliarização?, ou seja, a perda de identidade", comenta Hemon.O humor, portanto, predomina neste texto, embora com um leve gosto crítico sobre problemas delicados, como miscigenação e xenofobia. Hemon toca mais na ferida em The Lazarus Project, seu mais recente livro - a partir de um assassinato acontecido no início do século passado, ele trata do sentimento de exclusão que se acentuou nos EUA, especialmente depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. "Quem está no poder tem o mesmo medo dos estranhos", explica. "Mas esse medo é utilizado pelo poder para seus próprios fins, com grande brutalidade." TrechoSe eu estivesse sonhando, teria sonhado que era outro, com uma criaturinha enfurnada dentro do meu corpo, arranhando com suas patas os muros do interior do meu peito - um pesadelo recorrente. Mas eu estava acordado, escutando o chuvisco de dentro do meu travesseiro, a mobília cedendo furtivamente, a casa rangendo sob os ataques do vento. Estiquei as pernas, de modo que faltou coberta e meu pé direito emergiu do lamaçal da escuridão como um farol atarracado e apagado.

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