A França e o comendador Niemeyer

Prestes a comemorar 100 anos, arquiteto recebe insígnias em seu escritório no Rio, com a presença do embaixador francês

Felipe Werneck, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2007 | 00h00

A três dias de completar 100 anos, o arquiteto Oscar Niemeyer bebeu champanhe ontem de manhã com o embaixador da França no Brasil, Antoine Pouillieute, no escritório onde trabalha numa cobertura na Praia de Copacabana, zona sul do Rio. Citado como ''''lenda, gênio e mestre'''' pelo embaixador, o arquiteto recebeu insígnias e foi nomeado Comendador da Legião de Honra, a mais alta distinção civil e militar francesa.Os dois brindaram e conversaram em francês. Depois, o embaixador explicou que Niemeyer lhe contou que foi uma decisão pessoal do general Charles de Gaulle conceder uma autorização especial para que ele trabalhasse na França durante o período em que viveu naquele país exilado pela ditadura militar.''''Isso é uma comprovação do que a França foi para mim. Eles foram solidários desde o primeiro dia que cheguei lá. É um povo que admiro, um povo inteligente, pronto para qualquer movimento de defesa do país. Um país fantástico, estou muito satisfeito com uma homenagem de um país como este'''', agradeceu Niemeyer, para quem a entrega da comenda é especial. ''''Vem justamente do país onde no momento em que eu mais precisava de apoio isso não me faltou, ao contrário.''''O arquiteto disse ao embaixador e depois em entrevista que considera sua obra mais importante na França a sede do Partido Comunista francês, em Paris. Porém, ele lembrou que o exílio foi também um período difícil porque pensava muito nos brasileiros que estavam no Brasil ''''sujeitos a toda sorte de ameaças''''. Niemeyer voltou a dizer que comemorar 100 anos ''''é bobagem''''. ''''Depois de 70 a gente começa a se despedir dos amigos. O que vale é a vida inteira'''', afirmou. Ele acrescentou que dá ''''certa tranqüilidade'''' olhar para trás e ver que não fez concessões e seguiu bom caminho.Em discurso, o embaixador da França disse que o presidente francês Nicolas Sarkozy fez questão de homenagear o arquiteto brasileiro. ''''Mestre, saiba que os franceses que não conhecem o Brasil admiram-no primeiramente pelas obras que lhes ofereceu, como a Casa da Cultura do Havre ou a Bolsa do Trabalho de Bobigny. Eles têm, em seguida, um grande respeito por seu engajamento político quando a ditadura impôs-lhe um exílio que o levou à França. A sede do Partido Comunista francês em Paris ou a do jornal L''''Humanité, em Saint-Denis, são o testemunho de suas convicções de sempre'''', declarou Pouillieute.''''Por fim, eles leram seus livros, especialmente Minha Arquitetura, publicado em 2004, no qual o senhor explica o quanto a curva inspirada na mulher e na natureza, força a poesia poderosa e sensual do concreto'''', acrescentou o embaixador. O diplomata contou que tem admiração particular pela escultura intitulada A Mão Oferecendo uma Flor, que ornamenta o Parque de Bercy, em Paris, perto da Passarela Simone de Beauvoir, enquanto que, do outro lado do Rio Sena, destaca-se a Biblioteca Nacional da França.O engenheiro e parceiro de Niemeyer, José Carlos Sussekind, lembrou que Niemeyer viveu praticamente dez anos na França e foi acolhido como um francês. ''''Talvez das homenagens que ele recebeu essa seja a mais bonita'''', classificou.

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