A fotografia na obra do retratista da alma humana

Autores mostram como possibilidade de congelar um instante influenciou Machado de Assis

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

28 de agosto de 2008 | 00h00

Pedro nasceu no "aniversário do dia em que Pedro I caiu do trono" e Paulo, "no aniversário do dia em que Sua Majestade subiu ao trono". Protagonistas de Esaú e Jacó, os gêmeos que brigaram já no seio materno nasceram em 7 de abril de 1870, e são os mais representativos personagens da mágica que Machado de Assis fazia com espelhos literários.A duplicidade e a influência do advento da fotografia na sua obra, como forma de representação do real, foi o tema das palestras da tarde de anteontem do simpósio Caminhos Cruzados - Machado de Assis pela Crítica Mundial, que desde a segunda-feira reúne especialistas no assunto em todo o mundo. No Auditório do Masp, o americano Todd Garth, da US Naval Academy, e o alemão Thomas Sträeter, da Universidade de Heidelberg, apresentaram seus estudos na mesa-redonda Machado de Assis e o Panorama Intelectual, Técnico e Científico do Século 19, com mediação da professora Maria Celia Leonel e comentários do lingüista Carlos Alberto Vogt. Especialmente voltado para o romance Quincas Borba, Garth dedicou sua palestra ao questionamento que a obra machadiana faz do aparente pessimismo de Schopenhauer. "Machado efetua este questionamento por aplicar os mesmos desafios estabelecidos séculos antes por Cervantes e Shakespeare, entre outros. Vejo Quincas Borba como exceção ao pessimismo do século 19, pessimismo que para Machado estava demais de moda", observou o professor, para quem esse questionamento do pessimismo representa um desafio do autor ao realismo.Atento ao fato de que Machado de Assis nasceu no mesmo ano - 1939 - em que Louis Jacques Mandé Daguerre apresentou a fotografia , Sträeter montou um rico panorama sobre como a capacidade quase mágica de congelar instantes influenciou fortemente a obra do "grande retratista da vida íntima do nosso tempo". "A fotografia aparece tanto como temática explícita, como no romance de uma traição suposta, Dom Casmurro, ou como elemento estrutural-estético de uma redução literária ao essencial nos contos O Empréstimo e Uns Braços, ou como metáfora, em Esaú e Jacó", afirmou o professor. "Toda a obra de Machado deste Brás Cubas é grande digressão sobre o fenômeno perturbador das aparências e semelhanças, sobre o original e a cópia, sobre a identidade".O simpósio discute hoje as traduções (manhã) e o realismo na obra machadiana (tarde). Amanhã, o tema da mesa-redonda da manhã é Machado de Assis: Acadêmico. O encerramento será feito pelo professor Jean Michel Massa, da Universidade de Rénnes 2. As inscrições são gratuitas, e podem ser feitas no site www.machadodeassis.unesp.br/simposio.

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