A fotografia em tônica experimental

A mostra Olhar e Fingir, no MAM, apresenta ampla seleção de obras da importante coleção francesa de Michel e Michèle Auer

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

21 de abril de 2009 | 00h00

Fingir tem como raiz a palavra ficção e há sempre uma carga possível do imaginar a partir de uma imagem ou de uma cena à frente de nossos olhos. Essa ideia tornou-se o mote da ampla exposição de fotografia que será inaugurada hoje à noite para convidados e amanhã para o público no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Olhar e Fingir: Fotografias da Coleção M+M Auer, com curadoria da historiadora francesa Elise Jasmin e do crítico e jornalista brasileiro Eder Chiodetto, reúne quase 300 imagens pertencentes ao acervo do casal francês Michel e Michèle Auer. Por meio das obras, é possível perpassar a história do gênero fotográfico, desde o marco de 1839 até a atualidade. Mas, mais do que isso, a mostra faz uma leitura transversal de todo o período, instigando no visitante o olhar para todo tipo de experimentações promovidas por criadores de várias épocas e lugares e abrindo as portas para o exercício do fingimento, ou seja, da imaginação e encantamento através da fotografia."Ao entrarmos em contato com a coleção, percebemos o fio condutor de um imaginário transgressivo, quase nada de foto documental, mas um caráter experimental de criadores que vão até o limite", define Chiodetto. Há cerca de um ano e meio ele e Elise começaram a se dedicar ao projeto de fazer uma exposição no MAM a partir da coleção do casal Auer, considerada um dos acervos de fotografia mais importantes e amplos (com dezenas de milhares de imagens, livros, revistas e álbuns de artistas) da França. "Eles começaram a aquisição de fotos na década de 1960, antes das instituições", diz Elise. Curiosamente, ainda não sendo um casal, Michel deu vazão ao colecionismo adquirindo, primeiro, câmeras fotográficas, e Michèle, louças chinesas. Quando se conheceram, cada um a seu modo colecionava fotografias até que, enfim, decidiram unir seus acervos e continuarem ainda mais a coleção.O acervo dos Auer é eclético, com foco, principalmente, nas produções do século 19 e das vanguardas das décadas de 1920 e 30 - com bastante ênfase no surrealismo, como se vê refletido na mostra (vale a pena ver a Carta Surrealista com obras de Magritte, Dalì, etc). Mas, como afirma Chiodetto, os colecionadores exploram um gosto bem particular sobre fotografia, privilegiando obras de viés mais ousado, irônico e "contra os nomes cristalizados". É certo que há fotos de tantos criadores consagrados, como Brassaï, Man Ray, Robert Frank, André Kertész e Bernard Plossu, mas, por exemplo, o casal tem apenas uma obra de Cartier-Bresson (1908-2004), de 1933, por considerar que o celebrado fotógrafo francês somente "se repetiu" depois dos primeiros dez anos de sua produção. O gosto do casal também contempla obras de brasileiros. O de maior destaque é Geraldo de Barros (1923-1998), justamente por seu caráter experimental, mas vê-se ainda na exposição obras de Mario Cravo Neto, Fabiana de Barros e Pedro Vasquez.Como inquietação e experimentalismo dão a tônica das obras da coleção, os curadores optaram por misturar na mostra obras de períodos diferentes, evidenciando que "os movimentos são cíclicos", diz Chiodetto, e transformando, assim, o tempo em algo diluído. A exposição é formada por núcleos definidos (Transfigurações, Beleza Convulsiva, Fantasias Formais e Performance - este, dedicado à criação do retrato como encenação e incluindo o tema erótico), mas as criações se entrelaçam nos segmentos.A partir das Transfigurações, que destaca a intervenção direta dos criadores na imagem (eles pintam sobre a foto, usam diferentes técnicas químicas, fazem colagens, etc.), vê-se a incessante "busca da autonomia" da fotografia nas mais diversas formas. Ela conseguiu esse feito.

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