A foto, o banner e a polêmica: será que é o Mario?

Suposta foto do escritor Mario de Andrade, arquivada no Estado, foi usada nos tributos do Dia da Consciência Negra

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

O consultor de literatura do Museu AfroBrasil, Oswaldo de Camargo, afirmou que, independentemente da autenticidade da foto do escritor Mario de Andrade (1893-1945), estampada em banner da campanha do Dia da Consciência Negra, promovida desde o começo do mês, pelo governo do Estado, ''''o que parece estar incomodando é saber que o Mario de Andrade é afrodescendente''''. Se você tem dados sobre a foto polêmica, informeA polêmica em torno da veracidade da fotografia usada na campanha veio à tona na última quarta-feira. O retrato controverso foi escolhido, porque ''''ressalta os traços negróides'''' do escritor paulista, explica Oswaldo de Camargo. ''''Nunca vi uma fotografia em que a herança africana do Mario ficasse tão evidente'''', ele diz.No dia 7 deste mês, o secretário estadual de Cultura, Carlos Augusto Calil, viu pela primeira vez a fotografia, extraída em 1989 por Oswaldo de Camargo do arquivo do jornal O Estado de S.Paulo, onde trabalhou por quase 40 anos. Os banners já estavam confeccionados no dia 7. Em seguida, Calil procurou a professora de literatura da USP Telê Ancona Lopez, organizadora do acervo do escritor, para comprovar se o fotografado era mesmo o autor de Macunaíma e Contos Novos.Calil, que tem ''''certeza absoluta de que não é o Mario'''', manifesta a vontade de que a autenticidade seja logo comprovada. ''''Me admira que alguém confunda o fotografado com o Mario de Andrade'''', ele diz.Segundo o secretário estadual de Cultura, não faz sentido discutir se o autor de Paulicéia Desvairada é mesmo negro. ''''Discutir em cima de teses e não de constatações é tapar o sol com a peneira'''', diz Calil. ''''O fato é que ele tinha traços negros e, se é para discutir isso, tem de ser com base em uma fotografia real'''', continua.Depois de consultar pesquisadores e comparar fotografias no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), na USP, a professora Telê Ancona garante que o retrato não é de Mario de Andrade. ''''Os olhos que aparecem nessa foto são estrábicos, as maçãs do rosto são salientes, as sobrancelhas e as orelhas têm formatos diferentes'''', diz Telê. A professora do IEB fala da hipótese de que o retrato seja de Mario Andrada, jogador de futebol contemporâneo ao escritor, que o chama de xará em um dos poemas de Paulicéia Desvairada.A mesma opinião é compartilhada pelo crítico literário Antonio Candido. ''''Não é o Mario de Andrade, eu o conheci pessoalmente'''', ele diz. Para Candido, polêmica é fazer ''''caso com uma coisa sem importância''''.Carlos Augusto de Andrade, sobrinho do escritor, é categórico ao negar a legitimidade do retrato. ''''Não tem nada a ver, aquele tipo de óculos meu tio nunca usou, seu nariz não era adunco e os olhos não são daquele jeito'''', ele diz.O sobrinho do escritor disse que a controvérsia revela ''''uma pisada na bola pelo governo''''. ''''É muito esquisito aparecer a foto do bolso de alguém e ser usada numa campanha oficial, quando existem várias fotos de fonte segura. Por que não foram no IEB ou procuraram gente viva que conviveu com o Mario?'''', ele questiona.Ele diz que a ação de ressaltar a matriz africana de Mario de Andrade é uma atitude totalmente irrelevante. ''''Ser negro ou não, tanto no caso do Machado de Assis como do Mario de Andrade, não afeta a genialidade literária dos dois escritores'''', ele afirma.Não é a primeira vez que essa fotografia provoca discussões, lembra Telê Ancona Lopez. Em exposição de 1993, realizada pelo Sesc-SP, para comemorar o centenário de nascimento do musicólogo, ela questionara a autenticidade da fotografia. ''''Desde então, não faz sentido essa foto continuar a circular dessa forma.''''Procurado pelo Estado, o secretário estadual de Cultura, João Sayad, disse que vai procurar o IEB para analisar a autenticidade da fotografia. O banner com a imagem polêmica fica exposto no Centro Cultural São Paulo até o fim deste mês.

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