A fórmula norte-americana, professor X baderneiros

Pequena história sobre como Hollywood encara a questão

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

23 de março de 2009 | 00h00

Hollywood sempre fez filmes sobre professores bem intencionados, podendo-se citar títulos clássicos como Adeus, Mr. Chips, de Sam Wood, de 1939, com Robert Donat, refilmado por Herbert Ross nos 70, com Peter O"Toole. Mas foi nos anos 50 que se definiu o que virou uma tendência específica. Em 1955, o cineasta Richard Brooks captou um fenômeno social, o surgimento da chamada ?juventude transviada?, e concentrou numa escola em Nova York os problemas que os EUA viviam na época.Contestação, crise da autoridade - na escola e na família -, tudo isso vinha à tona quando o professor Glenn Ford entrava na sala de aula de Sementes da Violência. O filme chamou-se assim no Brasil, mas seu título original, The Blackboard Jungle, referia-se à selva do quadro-negro, ou seja, ao caos que jovens indisciplinados instalam na escola. O próprio Brooks escreveu o roteiro adaptado do livro de Evan Hunter, que causara mal-estar num país assolado pelo rock e por novos mitos como Elvis Presley e pelo rebelde Marlon Brando. James Dean haveria se consolidar naquele mesmo ano.Na fórmula de Sementes da Violência, o professor põe nos eixos a turma de baderneiros, sendo que o mais encrenqueiro de todos os alunos trocaria de posição, 13 anos mais tarde. Em 1968, o ator que fazia o aluno rebelde, Sidney Poitier, vestiu terno e gravata como o professor de Ao Mestre com Carinho, que o escritor e cineasta James Clavell situou numa escola de Londres. Em ambos os casos, pela persuasão ou pelo diálogo, os professores lograram domar seus alunos selvagens. O assunto surgiu no debate após a exibição de Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, sábado pela manhã, no Arteplex.Muitos professores citaram a onipotência de Hollywood e o modelo da escola autoritária, com o mestre como disciplinador, de Richard Brooks e James Clavell. O professor de Cantet é de outro tempo e com frequência é confrontado pelos alunos. Numa cena, um dos garotos chega a interpelá-lo para matar uma curiosidade de todos. O professor gosta de homens? É gay? Alguns professores locais, mesmo acostumados a ter sua autoridade questionada na sala de aula, ficaram impressionados com a cena - e com o jogo de cintura de François Gégaudeau, o professor que interpreta seu papel em Entre os Muros da Escola.Como a escola não deixa de ser um espelho no qual se reflete a sociedade, as mudanças na fórmula via de regra expõem as transformações da própria vida social. A professora Michelle Pfeiffer é uma ex-marine que, em Mentes Perigosas, de John N. Smith, só consegue ser respeitada na sala de aula quando expõe sua habilidade nas artes marciais - e até derruba um dos estudantes provocadores (ou ?engraçadinhos?) numa demonstração. Os estudantes armam-se em 187 - O Código, de Kevin Reynolds, o que exige uma resposta violenta do professor Samuel L. Jackson. Muito diferente da professora, também nova-iorquina, de Sandy Dennis em Subindo por Onde Se Desce, de Robert Mulligan. Sua lição é de tolerância, civilidade - de humanismo, para resumir tudo numa palavra. Como o professor Robin Williams de Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir, cuja máxima, ?Carpe Diem?, vira uma lição de filosofia de vida.

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