A fórmula do quanto mais simples melhor

Diretor acerta a mão e assina seu filme mais charmoso

Crítica Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de dezembro de 2007 | 00h00

Por conta do que é a grande novidade de 3Efes - o lançamento simultâneo do novo filme de Carlos Gerbase em quatro mídias -, o diretor gaúcho corre o risco de não ter a sua obra avaliada adequadamente, do ponto de vista estético. Pois se trata do melhor longa de Gerbase, bem superior a Tolerância e, principalmente, Sal de Prata, cuja pretensão só encontrava paralelo na mediocridade do produto final. Talvez seja esse, afinal de contas, o problema não só de Gerbase, mas da própria empresa produtora, a Casa de Cinema de Porto Alegre - uma necessidade, ainda não lograda, de equilibrar ambição e simplicidade.Veja trailer do filme 3 efes, de Carlos GerbaseNão é a primeira vez que a TV se antecipa ao cinema no lançamento de um filme nacional. Em fevereiro de 1990, às vésperas da apresentação de Dias Melhores Virão no Festival de Berlim, a Globo exibiu o filme de Cacá Diegues em primeiríssima mão, selando um acordo na época inédito. Em plena crise, depois que o governo Collor desmantelou as estruturas de financiamento e distribuição do cinema brasileiro, Cacá buscou na TV, e na Globo, uma parceira para enfrentar a crise. O objetivo era transformar a televisão em produtora, ou co-produtora, dos filmes, como já ocorria em outros países. O próprio Cacá fez, em seguida - em 1994 -, Veja Esta Canção, em parceria com a TV Cultura. A Globo realmente passou a investir na produção, por meio da Globo Filmes, mas sua entrada no mercado sempre foi cercada de polêmica.Os filmes com o aval da Globo estão entre as maiores bilheterias do cinema da Retomada - a fase que começa com Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, de Carla Camurati, em 1995 -, mas isso não significa que a associação seja garantia antecipada de sucesso. Bons filmes feitos com a chancela da Globo fracassaram na bilheteria, sinal de que o chamariz funciona até certo ponto. O público pode ir, mas só vai fazer publicidade espontânea - o boca-a-boca que alavanca a bilheteria - se o produto satisfizer sua expectativa. E sempre foi muito discutido o fato de os filmes co-produzidos, ou apoiados, pela Globo buscarem recursos por meio da Lei do Audiovisual. A idéia de que a TV, e a Globo, investissem dinheiro próprio, como ocorre na Europa, principalmente - casos das TVs francesa, alemã e italiana -, não se concretizou, salvo exceções raríssimas (para documentários e curtas).É importante destacar que, 17 anos depois de Dias Melhores Virão, Carlos Gerbase recupera e amplia a proposta de Cacá Diegues, em outro momento crítico do cinema nacional. Após a euforia de 2003, quando o cinema brasileiro bateu nos 30% de participação no próprio mercado, o que tem havido é um encolhimento dessa participação. Todo ano surgem um, dois, três filmes que arrebentam nas bilheterias, mas a média da freqüência é muito baixa. O mercado não está formatado para exibir a produção nacional, queixam-se diretores e produtores. Faltam salas populares para atingir a população de baixa renda, que não freqüenta shoppings. A equação de 3 Efes é diferente - além do cinema (exibição digital), o filme está sendo lançado na TV (Canal Brasil, da TV paga), DVD e internet. Isso aumenta o espaço de circulação do filme, com certeza, mas ainda permanece num circuito que se pode chamar de elitizado.Carlos Gerbase está fazendo história. Esteticamente, ele também dá um salto de qualidade. O paradoxo é que 3 Efes, como narrativa, é menos ambicioso do que Sal de Prata (e, mesmo, Tolerância). Sua trama mistura vários personagens em histórias de sexo e comida que se passam em Porto Alegre. Comer, beber, viver. Aconselhada por uma amiga, uma jovem resolve o impasse de sua vida profissional virando garota de programa. Um casal vai mal e termina chegando ao adultério. Nenhuma tragédia - tudo é tratado com leveza e humor. O barato de 3 Efes é que o filme, rodado em 20 dias, com uma mini-DV, faz dessa simplicidade a sua arma para tentar ganhar o público. Desde que Jorge Furtado ganhou o Urso de Ouro de curta-metragem em Berlim, por Ilha das Flores, a Casa de Cinema de Porto Alegre - da qual ele é a estrela - age sempre pressionada pela grande expectativa que seus filmes provocam. O próprio Jorge fez da falta de pretensão a maior virtude de Houve Uma Vez Dois Verões. Nada contra a ambição (autoral, intelectual, profissional). Mas no caso dos longas da Casa de Cinema, quanto mais simples têm sido melhor.Serviço 3 Efes (Brasil/2007, 100 min.) - Comédia dramática. Dir. Carlos Gerbase. 16 anosUnibanco Arteplex 7 - 16 h, 18 h, 20 h, 22 h (sáb. também 0 h; sáb. e dom. não haverá 16 h). Cotação: Bom Na tevê: Canal Brasil - Hoje, 22 h; dom., 1h30

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