A força da união de letra e melodia

Alice Ruiz, Makely Ka, Siba e Vitor Ramil falam de seu trabalho relacionado à poesia e do poder expressivo da canção brasileira

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

13 Março 2009 | 00h00

Numa cena do documentário Palavra (En)Cantada, Adriana Calcanhotto desconversa sobre a grande pergunta em questão: letra de música é poesia? Diz, bem-humorada, que a vida é curta demais para perder tempo com essa discussão. Adriana conviveu e trabalhou em férteis parcerias - em discos como A Fábrica do Poema - com Waly Salomão (1943-2003), um desses artistas que transitavam com desenvoltura entre a poesia e a letra de música. Vinicius de Moraes (1913-1980), o principal deles, Antonio Cícero, Arnaldo Antunes, Paulo César Pinheiro são outros bons exemplares enfocados no filme. Mas há outros mais que fizeram história na MPB: Torquato Neto (1944-1972), Paulo Leminski (1944-1989), Patativa do Assaré (1909-2002), Abel Silva, Cacaso, Geraldo Carneiro. Há compositores que reconhecem a força poética da canção brasileira, a mais viva expressão cultural do País. Em entrevista recente ao Caderno 2, o pernambucano Alceu Valença defendeu: "Minha música é poesia." Para falar sobre o tema, o Estado entrevistou três compositores e uma letrista poeta, que não estão no filme de Helena Solberg: o gaúcho Vitor Ramil, também escritor, o mineiro Makely Ka, o pernambucano Siba e a paranaense radicada em São Paulo Alice Ruiz, que foi casada com Leminski. Um dos mais brilhantes em atividade hoje, Siba - que lançou na semana passada o álbum Violas de Bronze, com Roberto Corrêa - é herdeiro da tradição dos trovadores, referência inicial de Palavra (En)Cantada. Compõe seguindo procedimentos da poesia oral nordestina. "Essa discussão é engraçada porque parte do pressuposto de que o que é considerado poesia é a poesia literária. Meu ponto de partida é outro, é o que a gente chama de poesia rimada do Nordeste, que tem uma estética própria." "Trabalho para que o texto tenha vida própria, embora muitas vezes esse texto lido perca uma parte do encanto dele que depende do ritmo", diz Siba. Ritmo é o que sobrou da poesia, "depois que ela se libertou da métrica e das rimas", como observa Alice. A poesia dos cantadores nordestinos, como observa Siba, tem a música e o ritmo a serviço dela. "O poder encantatório dela vem muito em função do ritmo e da combinação das palavras. Por isso, pra gente é importante levar às últimas consequências o rigor das regras." Outro diferencial que Alice aponta é o timing: "O tempo do olho é diferente do tempo do ouvido. Para o ouvido você tem de ter uma coloquialidade de tal forma que a pessoa que te ouve seja envolvida imediatamente", diz a poeta. Vitor Ramil concorda com ela: "A letra de música tem de ter uma ação imediata sobre quem ouve. É bom que a ação dela se prolongue no tempo, para que o ouvinte fique refletindo a partir da letra de uma canção. Talvez a poesia possa ser feita um pouco mais desencanada desse tipo de propósito." Como Siba, Makely Ka se relaciona com a tradição oral. "Nesse sentido Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik têm razão quando dizem que a gente tem uma tradição oral muito sofisticada, porque a letra da canção está muito próxima da fala." Para Makely, uma boa letra de canção não precisa ser poesia, assim como "bons poemas não necessariamente dão boas letras". "Fazer letra para uma melodia é uma mistura de poesia com palavra cruzada, porque você tem uma métrica estabelecida, onde se tem de encaixar a prosódia, a rima, enfim, vários elementos", diz o poeta de Ego Excêntrico e compositor do CD Autófago. Ramil, como Adriana Calcanhotto, não faz questão de separar os universos da letra e da poesia. Ele, que não é poeta, mas escritor de livros como Satolep (romance) e A Estética do Frio (ensaio), diz que seu trabalho literário guarda características da atividade de letrista. Além de canções com poéticas letras próprias, Ramil já musicou versos de Fernando Pessoa, Emily Dickinson e João da Cunha Vargas e prepara um álbum com oito poemas do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), e outros de Vargas, com melodias dele. São poemas (que Borges escreveu como se fossem letras de milongas) reunidos no livro Para las Seis Cuerdas, de 1965. "Os poemas que costumo musicar fluem com naturalidade. Para mim, a palavra e a melodia são bem casadas." Com Alice Ruiz, autora de versos como o de Socorro (parceria com Arnaldo Antunes), o caminho é inverso: "Ao mesmo tempo em que tenho poemas musicados, tenho muitas letras feitas como tal. Uma boa letra tem de ter algumas características poéticas. Por exemplo: tem de ter uma ideia e uma trama na linguagem, o que a transforma em poesia, que case com a ideia." Mas se a canção no Brasil tem esse papel que a poesia dos livros cumpre em outros países, isso para Alice se deve "muito à excelência da nossa canção", opinião que Ramil endossa. "É mais um motivo pra gente caprichar", brinca ela. "Quero perder o medo da poesia/ Encontrar a métrica e a lágrima/ Onde os caminhos se bifurcam/ Planando na miragem de um jardim/ ... Eu astronauta lírico em terra/ Indo a teu lado, leve, pensativo." VITOR RAMIL "Quem me dera fosse meu/ O poema de amor definitivo/ Se amar fosse o bastante/ Poder eu poderia/ Pudera/ Às vezes parece ser esse/ Meu único destino/ Mas vem o vento e leva/ As palavras que digo/ Minha canção de amigo/ Um sonho de poeta/ Não vale o instante vivo." ALICE RUIZ "Na varanda da fazenda/ Está sentado um violeiro/ Que ponteia imaginando/ Os sonhos de um fazendeiro/ ...E o poeta passa a noite/ Procurando a rima exata/ Esfumaçada num café quente/ Numa caneca de lata/ E a noite paga as cantigas/ Com uma moeda de prata." SIBA

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