A força da arte no início de Brasília

Cópia restaurada de São Bernardo, de Leon Hirszman, encanta a platéia

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

20 de novembro de 2008 | 00h00

Foi uma noite especial a de abertura do 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Como sempre, no Teatro Nacional e com belo concerto da orquestra do teatro que, desta vez, tocou Camargo Guarnieri e Ravel (La Valse). Mas o destaque tem de ficar para a exibição da cópia restaurada de uma das obras-primas do cinema nacional, São Bernardo, de Leon Hirszman (1937-1987). Antes da projeção, subiram ao palco dois dos filhos de Leon, Maria e João Pedro, o fotógrafo do filme e restaurador, Lauro Escorel, e dois dos atores, Othon Bastos e Nildo Parente. Maria Hirszman, crítica de artes plásticas e colaboradora do Estado, leu um texto enxuto, porém muito emocionado. Essa emoção serena contagiou a platéia e, de certa forma, preparou-a para o que viria.E o que veio foi um filme restaurado com todo o rigor, cores e sons intactos, tais como foram concebidos no original. Uma luz especial, com poucos recursos, e sempre que possível com registro na luz natural. Uma pintura na tela. E a pintura tematizando aquilo que Graciliano Ramos pensara em seu romance - uma saga da destruição humana pela cobiça, pelo embrutecimento causado pela ânsia da acumulação.A narrativa se dá em primeira pessoa. Paulo Honório (Bastos, magnífico) rememora sua vida. De como havia começado no eito e se transferido, à custa de esforço e esperteza, para o outro lado da vida. Negociando com o herdeiro da fazenda São Bernardo, Padilha (Parente), Honório consegue tomar-lhe a propriedade. É a realização do seu sonho, tornar-se proprietário de terras, homem poderoso e rico. Falta-lhe uma companheira, para dar-lhe um herdeiro. Ouve falar de uma mulher bonita, Madalena (Isabel Ribeiro). Honório a convida para vir à fazenda, lhe faz uma proposta, que é aceita. O arranjo poderia ter funcionado, não fossem os ciúmes de Honório. Talhado para ser proprietário, não poderia deixar de se sentir dono da própria mulher, como se sentia dono dos trabalhadores e dos que orbitavam em torno dele.Essa parábola da destruição dos outros e de si pela ambição capitalista é dirigida com rigor, o que evita o discurso ideológico rançoso. Hirszman constrói cada plano com minúcia de artista plástico. Liga-os de maneira necessária, nunca aleatória. Tudo é rigor e invenção, da fotografia à trilha, de Caetano Veloso, que poucas vezes foi tão experimental. A cópia restaurada, também em DVD, traz entre os extras curta de Leon Maioria Absoluta, de 1964. O repórter viajou a convite da organização do festival

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