A fogueira acesa em Higienópolis

O mundo viaja a Stratford para ver algum Shakespeare e agora Hamlet está aqui, ao lado do Pacaembu

Aderbal Freire-Filho, O Estadao de S.Paulo

24 de julho de 2008 | 00h00

A temporada de Hamlet vai muito bem, obrigado. Teatro cheio. Quando saíram os artigos e críticas publicados no Estadão sobre o espetáculo, pensei em comentá-los, considerando que a maior parte das resistências ao nosso Hamlet, especialmente de um dos críticos, o cronista Daniel Piza, era à minha encenação. Como não quero nunca acrescentar posfácio algum aos espetáculos que dirijo, o que me deu vontade de escrever, neste caso, foi a intenção de evitar que alguém perdesse a oportunidade rara de ver um Hamlet encenado por causa de maus-olhados. Não falo de qualquer tipo de superstição ou bruxaria, está bem, maus olhares.Um espetáculo de teatro é uma fogueira, tem vida breve. É madeira, o fogo queima, é chama, depois vira cinzas, vem o vento e leva as cinzas. Fica uma lembrança, às vezes uns belos registros filmados, como será o caso de Hamlet, uma doce ilusão de sobrevivência de uma porção/poção de teatro. Seria uma pena que algum cidadão paulistano que quisesse ir a esse espetáculo mudasse de idéia pelo que leu aqui sobre ele, digo, sobre mim, digo, contra mim e perdesse a oportunidade rara de ver um Hamlet vivo em sua cidade. Muita gente do mundo inteiro viaja a Stratford para ver alguma peça de Shakespeare representada, com os personagens vivos, nos corpos e almas dos atores. E agora Hamlet está aqui, em Higienópolis, ao lado do Pacaembu, futebol e teatro bem perto, como deve ser.Mas como a temporada vai muito bem, achei que esse meu cuidado não se justificava. Outro dia, entrei no blog do Piza. Pra quê? Vários leitores dizendo que não foram ver Hamlet e não gostaram, as opiniões do cronista causando exatamente o mal que eu temia. Então, vejo que o mais certo é mesmo contrariar minha disposição de não acrescentar nada ao que o espetáculo diz e contrariar algumas afirmações feitas aqui nesse caderno, enquanto essa fogueira, Hamlet, está acesa na cidade. O cronista chega a dizer que atropelo Hamlet e, se além do poder que ele tem escrevendo em um grande jornal tivesse também poder de polícia, eu podia até me submeter ao bafômetro, para ao menos não perder minha carteira de diretor de teatro.Escrevo, então, para garantir ao caro leitor, com o aval dos muitos críticos que elogiaram o espetáculo, que eu não atrapalho em nada. A fogueira é agora e agora você pode ver com seus olhos que o fogo do espetáculo há de queimar, e ouvir com seus ouvidos que o vento das belas palavras há de atormentar, uma tragédia forte, vigorosa, emocionante e duas vezes presente. O presente real, o dia e a hora em que você e os atores se encontrarem, e o presente ilusório, a Dinamarca medieval agora, na sua frente. Nenhum ator está no palco repetindo umas palavras gravadas em bronze, umas palavras sagradas da história da literatura universal. Tudo é dito porque precisa ser dito, provocado pelas ações. O que não significa dizer que é barateado, como supôs um blogueiro (bloguista?) pelo que leu no cronista. Ou que é trivial. Pode apostar que algum personagem vai dizer ''há algo de podre no reino da Dinamarca'', mas vai dizer isso porque as circunstâncias exigem, sem nenhuma solenidade. Aí sim, as palavras ficam mais belas, elas não são reverentemente declamadas, elas são necessárias. O que procuramos foi o equilíbrio entre natural e poético, ou como ser natural sem ser coloquial, ou como ser poético sem ser impostado.Como diz Polônio, falando dos atores que vêm a Elsinore, que são também os atores que chegam a São Paulo, você vai ver os melhores atores do mundo, na comédia e na tragédia. Por isso, você também vai rir, como Shakespeare quis que você risse, pois escreveu personagens de comédia na sua tragédia e fez muitas vezes do próprio Hamlet um comediante. E é natural. Hamlet, que teve a infância embalada pelas piadas do bobo da corte Yorik, é quem diz os melhores trocadilhos, faz os comentários de mais fino humor. É surpreendente ler que Piza me acusa de acentuar o humor e a ação da peça por ''medo de entediar a platéia com o texto elaborado e metafórico de Shakespeare''. Pelo contrário, o humor e a ação destacam o texto elaborado e metafórico, que, também ao contrário do que ele diz, não entedia ninguém. Como um bom leitor de Machado pode dizer que um texto elaborado e metafórico é entediante?Os melhores atores do mundo dão uma vida luminosa mesmo aos menores personagens. Os menores, os menores. Por exemplo, dois marinheiros que entram em cena para trazer uma carta. Parecem tão vivos como se estivessem vindo de um romance de Melville, como se estivessem vindo do mar. Não são só funcionais, não estão lá, indiferentes, só para a função de entregar a carta que é importante para a história. E os personagens importantes da história, além de Hamlet? Veja com seus olhos e ouça com seus ouvidos Horácio, Guildenstern, Rosencrantz, Laertes, Bernardo, Cláudio, Gertrudes, Ofélia, Polônio, todos palpitantes de vida, corações pulsantes, o caráter e a complexidade de cada um presentes nas interpretações, espelho da vida.Se não puder tirar a placa ''cuidado com o diretor'', que Daniel Piza quis pendurar na entrada do teatro com sua crônica, pelo menos aviso, manso, que não tema as ameaças que o cronista diz que represento. Não tema as imagens que são feitas, ao vivo (como se diz nessa época de gravações para o futuro), o presente para o presente. Elas não são uma insistência em filmar o Wagner de todos os ângulos, o que ''parece dizer que esse é o tema central''. Ele não viu que. Primeiro. Não sou eu quem diz que Hamlet é o tema central, é Shakespeare. Segundo. Filma-se os outros em proporção pelo menos equivalente (não medi, mas aposto) à proporção entre as falas de Hamlet e as dos outros. Filma-se Cláudio e Gertrudes assistindo à peça dentro da peça. Cláudio e Polônio. Ofélia, quando Gertrudes descreve sua morte. Os irmãos, na cena das medalhas. Mesmo quando se filma Hamlet, filma-se com objetivos vários. Dou um exemplo: quando se filma o rosto do filho que fala ao fantasma do pai. Enquanto, diante de nós, está o pai na armadura, na tela está só o rosto do filho, e esse recurso duplica o ator, separa (e junta) filho e pai. E quando Horácio, o que vai contar a história, o documentarista, está filmando a cena final, Hamlet afasta a câmera e fala com ele diretamente. Como é possível dizer dessa cena que os personagens nem se olham?Podia nem falar da tradução, que Piza até elogia. Mas, como sua intenção era ser do contra, diz que ''em momentos fundamentais deixa a desejar''. E cita dois exemplos. Se é por eles, não perca essa fogueira, Hamlet, São Paulo, 2008. Está bem, nada contra criar palavras, como Shakespeare criava, mas ''indescoberto'', que o cronista sugere, é uma palavra feia, pedante, dita ficaria mais dura ainda, não vale a pena. E a frase que ele cita, cita errado, a tradução é ''logo, pensar nos faz covardes''. Nem é ''o pensamento nos faz...'', e tem um ''logo'' (thus conscience...) que dá o sabor. E acrescento ainda que estamos apoiados por muitos comentadores, como T. J. B. Spencer, Stanley Wells, David e Ben Crystal, entre outros. Traduções no mundo inteiro seguem esse entendimento, entre elas a ótima tradução brasileira de Millôr Fernandes. A caça do cronista aos vacilos da tradução, que devem existir, não acertou nenhum tiro. E por que não procurar os destaques, os melhores acertos, se não fosse por sua intenção declarada de ir contra a ótima acolhida que o espetáculo teve?O espetáculo é agora, vai virar cinzas, como é da natureza do teatro. E está lá Wagner Moura, um ator brasileiro ampliando as possibilidades desse personagem, que todos dizem que é inesgotável. Por mais que eu tentasse, não conseguiria diminuir a grandeza da sua criação. O Wagner comprova que Hamlet é inesgotável, combinando humor, uma finíssima inteligência e uma emoção explosiva.Está lá, a fogueira acesa.Serviço Hamlet. 170 min (c/ intervalo). 14 anos. Teatro Faap (500 lug.). Rua Alagoas, 903, 3662-7233. 6.ª e sáb., 20 h; dom., 18 h. R$ 80. Até 28/9

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