A Favorita ousa sem desperdiçar clichês do gênero

Folhetim de João Emanuel Carneiro atrai por esconder quem é a vilã

Crítica Cristina Padiglione, O Estadao de S.Paulo

04 de junho de 2008 | 00h00

Ousar sem desperdiçar clichês é a conjugação da Favorita que a Globo estreou anteontem. A nova novela das 9 (que a emissora ainda chama ''das 8'' para não espantar o hábito do público) é sobretudo honesta, daí inusitada, ao anunciar que mocinha e vilã não têm vaga definida no enredo do autor João Emanuel Carneiro, estreante no horário. Assim, ninguém há de ficar estarrecido com aquele bando de canalhas que se transformam em heróis no capítulo final. Dessa feita, não se sabe quem fala a verdade, a despeito de todo o estereótipo da coitadinha versus dasluzete, digo, da ex-detenta Patrícia Pillar e da abastada Cláudia Raia. É um contexto que leva a platéia a crer mais na interpretação de Pillar do que na de Raia.O texto expõe vertentes raras de se ouvir na TV comercial, e mais ainda em telenovela. ''Na juventude, todo mundo é de esquerda'', justifica o ricaço da história, Mauro Mendonça, para a neta, Mariana Ximenez.Corta para o embate cênico entre Mendonça e Tarcísio Meira. Câmera lenta. Amigos de juventude, amam odiar-se um ao outro pelo atual distanciamento ideológico. Claro, Mendonça, como acabara de dizer à neta, mudou de lado. E Meira agora lidera piquete de greve na fábrica do outro. ''O Muro de Berlim já caiu há mais de dez anos, você está ultrapassado'', diz o patrão. ''Lutar por um mundo melhor nunca é estar ultrapassado'', responde o empregado.Obrigatoriamente didático para apresentar a história, o primeiro capítulo de A Favorita cumpriu essa missão sem perder a chance de entreter. Diálogos breves encerraram a essência de cada personagem: o político corrupto (Milton Gonçalves), a filha chantagista (Taís Araújo), o jornalista pegador (Carmo Dalla Vecchia), o marido suspeito - e no caso dele, Murilo Benício, nem foi preciso diálogo, bastou a cena em que ele apanha a mala cheia de dólares. E tem Glória Menezes com um tipo que é um afago na alma. É ela, a mãe do assassinado que motivou a prisão de Pillar, quem suscita as dúvidas em torno da verdadeira assassina.Dalla Vecchia, o jornalista, trabalha num grande jornal, mas é funcionário multiuso: fotografa, escreve e dirige o próprio carro! Na vida real, e fala-se aqui com conhecimento de causa, não é bem assim. Vá lá, isso é novela, salve a ficção.Ao fim do primeiro capítulo, o encontro entre Raia e Pillar em pleno Viaduto do Chá despertou na memória a fúria por vingança carregada por aquela Uma Thurman de Kill Bill. A lembrança latente por Tarantino talvez se reforce pelo tango eletrônico do Bajofondo que embala uma das aberturas de mais bom gosto já vistas na Globo.Oxalá a emissora não ceda à tentação de dispensar a ousadia para buscar mais audiência. O capítulo de estréia bateu nos 35 pontos de média. É o mais baixo alcançado por uma novela dita das 8, mas que se explica pelo insucesso do final de Duas Caras.

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