A face terrível da América Latina

La Teta Assustada, de Claudia Llosa, capta realidade do Peru e Garapa, de José Padilha, escancara fome no Brasil e no mundo

Luiz Carlos Merten, BERLIM, O Estadao de S.Paulo

13 de fevereiro de 2009 | 00h00

Após a produção uruguaia Gigante, dirigida pelo argentino Adrián Biniez, chegou ontem a vez do segundo filme latino da competição. La Teta Assustada vem do Peru, dirigido por Claudia Llosa, parente distante do escritor Mario Vargas Llosa. O título refere-se às crianças nascidas de estupros da guerrilha e às quais as mães transmitem seu medo por meio da amamentação - superstição sem fundamento científico, como diz o médico ao tio da protagonista. O garota sangra pelo nariz, mas o realmente estranho é que, para evitar o risco de estupro, ela carrega uma batata na vagina - batata que não cessa de estender seus tubérculos.Poderia ser um signo de realismo mágico, mas Claudia Llosa não se interessa por isso. Seu filme tem lado documentário muito forte sobre as vidas das comunidades indígenas que abandonam o altiplano peruano para viver (e trabalhar) na periferia de Lima. É uma cultura em que vida e morte andam juntas. A protagonista quer enterrar a mãe, que morreu. Enquanto isso, o cadáver, conservado com óleo, vai sendo escondido pela casa, onde deve ocorrer um casamento. Numa cena, o tio transforma em piscina a tumba que havia começado a escavar no quintal. Cria-se um ambiente de festa. A tumba-piscina poderia ser uma imagem retirada de um filme da argentina Lucrecia Martel.A diretora Claudia Llosa conta para o repórter do Estado de sua admiração pela cineasta argentina, que cria uma realidade para a câmera e faz com que personagens e situações ganhem vida na tela. Lucrecia cria camadas de realidade, que adquirem dimensões simbólicas para que ela fale sobre seu país. Claudia não deixa de tentar fazer a mesma coisa, é verdade que com menos rigor - ou felicidade - estética, mas seu filme é interessante. La Teta Assustada foi bastante aplaudido. A pedido dos jornalistas, a atriz Magaly Solier, que também é cantora e compositora, cantou em quíchua na coletiva. Claudia também recebeu muito aplausos quando disse que filma para mostrar nossa cara (de latinos) ao mundo.José Padilha mostrou outra face terrível, e não apenas da latinidade. Seu documentário sobre a fome, Garapa, deixa claro que ela não é um problema brasileiro, embora ele acompanhe três famílias sob condições crônicas de subnutrição. Será preciso voltar especificamente a Garapa, que desconcerta com suas exposição que o diretor quis mais emocional do que intelectual do problema. No caso específico do Brasil, Padilha emite opiniões polêmicas. O Fome Zero funciona porque o governo dá dinheiro sem se preocupar em educar os miseráveis. Cada vez que tenta interferir, o governo erra a mão - a educação, ou falta de, é um problema gravíssimo no País. Ainda em choque com as imagens de Garapa, a imprensa segue o festival que se encaminha para o final. Os últimos concorrentes vão sendo apresentados. O destaque anunciado de ontem foi Farewell to Love (Tatarak), do polonês Andrzej Wajda, exibido à noite na sessão oficial.Wajda está aqui competindo, depois de receber seu Urso de Ouro especial - de carreira - no ano passado. O vencedor deste ano foi o compositor Maurice Jarre, que recebeu seu Urso honorário ontem à noite. Jarre compôs as partituras de 180 filmes, muitos assinados por grandes diretores como John Huston, Alfred Hitchcock, William Wyler, Elia Kazan, Fred Zinnemann, etc, mas a parceria que marcou sua carreira foi com David Lean. Ele fez a música de quatro filmes, todos épicos intimistas, do mestre inglês. Ganhou três vezes o Oscar, por Lawrence da Arábia, Doutor Jivago e Passagem para a Índia. Jarre reconhece que deve tudo a Lean. "Ele me deu as melhores oportunidades, meus três Oscars, mas acima de tudo me deu sua amizade." Um grande festival de cinema como Berlim é ponto de encontro de novos talentos e nomes consagrados. A jovem Claudia Llosa está no seu segundo longa - após Made in USA (2006) -; Wajda arrisca-se competindo. Outros grandes veteranos, como Manoel de Oliveira e Theo Angelopoulos, preferem vir à Berlinale fora de concurso. Oliveira foi honrado com prêmio especial, Berlinale Kamera. Ele também mostrou seu novo longa, Singularidades de Uma Rapariga Loira, adaptado de Eça de Queirós. Oliveira tem minimizado a importância de seu centenário de nascimento. Diz que se trata de um capricho da natureza, que quis que ele vivesse tanto (e ele não tem pressa de ir embora, garante). Mas não há mérito dele nessa longa vida. Em compensação, se existe mérito é na sua obra, pela qual, essa sim, ele se sente inteiramente responsável. Oliveira adaptou a história de Eça, retirando-a do século 19 e situando-a na Lisboa atual, onde Ricardo Trepa conta seu infortúnio - o romance com a rapariga loira - a uma estranha.No original, a história é contada para um homem, um estranho. Oliveira transformou a personagem em mulher. O que ele conservou integralmente foi o diálogo do grande escritor, "que não pode ser melhorado", disse. Angelopoulos volta ao mito de Helena, uma das pedras de toque da cultura grega. Eleni já inspirou o primeiro exemplar de uma trilogia - Eleni, A Terra Que Chora (2004) -, que agora prossegue com Dust of Time. Um diretor de cinema, Willem Dafoe, conta a história de seus pais, que atravessa décadas da história grega (e europeia) do século 20. Paisagens na neblina e estátuas caídas de Stalin, duas obsessões do diretor, assombram a narrativa, que tem cenas deslumbrantes, nas quais a música e lentos travellings produzem encantamento. Mas a história desta vez não junta e Willem Dafoe não ajuda muito. Ele é intenso demais. Em mais de um momento, o espectador pega-se pedindo ?Menos, menos?. Seria ótimo poder falar integralmente bem de Angelopoulos. Mas, por este filme, não dá.

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