A explosão da bolha definitiva

Em 2031, o presidente do Conselho das Empresas Transnacionais que formavam a Nova ONU, o norte-coreano Kim Jong-IX, gesticulava em frente dos telões que mostravam o mundo na mais recente supercrise financeira - a Bolha Definitiva (the Ultimate Bubble). As telas lembravam antigos filmes russos com as massas de São Petersburgo correndo sob metralhas de policiais superarmados como Dart Vaders do capital financeiro do futuro. A explosão da superbolha criara uma rebelião de massas planetária.Apesar das horrendas imagens de desespero e fome nos telões, a voz de Kim Jong-IX se alçava: "A normalidade somos nós! O liberalismo é a natureza!" (oh, ardilosa escolha - um membro dos excluídos presidindo a Assembléia dos países ricos!)A fome mundial tinha criado Mega-Somálias (a Somália antiga era encarada agora como reles dieta para emagrecer). Ele gritava, com seu sotaque anglo-coreano: "A fome auto-regula o mercado dos vivos, a fome controla a superpopulação."No superturbo-capitalismo de 2031, a cada progresso seguia-se uma crise financeira que aumentava o desemprego e o desespero.Os excedentes não eram mais as mercadorias; os excedentes eram os ex-consumidores.Aumentara a massa de países excluídos e Great Wall Street declarava: "O capitalismo se auto-inventa sempre e tudo se normalizará!"Os presidentes dos guetos ricos (os OAs - "oásis", em robótica) sabiam que a evolução da indústria financeira com os mais recentes "power-derivatives" alavancavam seus lucros, mas arrasavam as populações pobres num efeito dominó. Tudo bem, pois a compaixão era considerada um ridículo vício romântico.Desde a grande bolha de 2008, iniciara-se em toda parte uma guerra não de países, não de blocos, mas de violência cega entre seitas, gangues e etnias.Daí nasceu a ONU-SWAT, uma espécie de Bretton Woods militarizado, convocada sempre para baixar o pau e manter a lógica mercantil do mundo.Essa nova Polícia Planetária lutava contra os terroristas-vingadores, comandantes dos excluídos (seu fundador supremo era o saudoso Osama Bin Laden, para sempre lembrado em bustos eternos) que germinavam aos milhares em todo o ex-Terceiro Mundo (hoje Exclusion Zones) e que, se comunicando num patuá mesclado de socialismo tardio e fundamentalismo jihadista, eram a brutal interface entre a miséria e os guetos de prosperidade (os OAs).Esses vingadores, paradoxalmente, fizeram progredir brutalmente a fabricação de armas nucleares táticas e do assassinato tecnológico. A indústria do extermínio florescia como nunca.Nesse dia de grande pavor, o presidente Kim IX falava para o mundo em pânico.O perigo era total porque o comandante do complexo militar Rússia-Venezuela-Irã, liderado pelo bisneto de Ahmadinejad, o aiatolá Al Khagafi, que sempre pareceu concordar diplomaticamente com a ONU, agora ameaçava o mundo rico (os OAs) com bombas MOAB (American Massive Air Blast Bomb), também conhecidas como "as mães de todas as bombas", usadas contra o Taleban no início de século 21."Loucura ou nova forma de chantagem?", gritavam as TVs dos países ricos.Essas ogivas tinham sido vendidas a preço de banana por uma bisneta de Donald Rumsfeld que, bêbada e sádica, abrira os ex-arsenais americanos e fugira para Cubanacan.Os líderes mundiais tremiam de pavor: "Como? Al Khagafi está jogando para valer?" A inteligência da ONU-SWAT afirmava que sim, era para valer.Khagafi apontara as ogivas nucleares contra as ilhas bem-aventuradas que ainda havia no mundo, "the Very Happy Few - VHF"."Não haverá na Terra lugar nenhum que não seja um campo de fugitivos!", ameaçara o líder terrorista. As ogivas de Al Khagafi roncavam em sinistra contagem regressiva.Por isso, Nueva Iorque tremia, como tremia Paris-Rive Droite, como tremia Madrid-Movida, como tremiam Berlim 1 e Berlim 2 (reconstruído o muro contra os turcos imigrantes e invasores africanos), como tremia White Los Angeles, como tremia Canadian Club, como tremiam Tokiorama, Hawaii-Disney, Arizona Dream e tantas outras ilhas de consumo, sabendo que as ogivas vendidas pela neta de Rumsfeld a Khagafi partiriam a qualquer momento.Por isso, a Assembléia-Geral da ONU-SWAT fervia com discursos apavorados.No entanto, o presidente da entidade, Kim IX sabia mais que todos, era hábil e conhecia bem o método de chantagem de seu antigo amigo Al Khagafi.Assim, foi genial sua interpretação teatral de pétrea intransigência nas negociações com ele, quando levou propositadamente as conversações a um impasse "trágico", o que destruiria a humanidade rica.Foi genuíno o seu ódio, quando pareceu que Al Khagafi, em nome dos famintos e de um rancor secular, iria destruir as prósperas OAs. Foi genial a ostentação de desespero de Kim IX (merecia o Oscar), quando as ogivas partiram e o terror se espalhou no mundo rico.Kim IX fingiu um convincente pavor até o momento em que os foguetes mudaram subitamente suas rotas e começaram a atingir os pontos pobres do mapa-múndi (?Exclusion Zones? - "cus-do-mundo", na gíria), inclusive a própria base de lançamento de foguetes na Mesopotâmia.Kim IX ostentou surpresa e dor, mesmo sabendo que Al Khagafi, conforme combinado, voava naquele momento num Boeing 7777 para seu feliz exílio em Canadian Club. Foi um alívio mal disfarçado nos oásis ricos do mundo, quando as bombas exterminaram apenas os CEPO?s (Centros Excedentes de População Ociosa), lugares remotos e esquecidos como Safari Lands, New Bangladesh, Rwanda Tours, Brazilian North-East, Sarajevo Park, Apartheid Europe, etc...O mercado mundial se auto-regulava com a extinção do excedente de excluídos, e o liberalismo podia então começar um novo ciclo."Quem disse que o capitalismo não se planeja?" foram as palavras sussurradas por Kim Jong-IX, em off para seus colegas da ONU-SWAT, enquanto - online - ele jorrava lágrimas de desespero pela catástrofe que exterminou milhões de ex-consumidores.A operação de raspagem do perigo malthusiano fora um sucesso!

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.