A esperança existe no primeiro romance de Ivana Arruda Leite

Hotel Novo Mundo fala de ex-prostituta que larga o luxo por um amor verdadeiro

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

22 de junho de 2009 | 00h00

Acredite-se ou não, Renata trocou o conforto material desfrutado no Rio para viver numa pensão barata, no Centro de São Paulo. Ex-prostituta do Sofia?s, casa de acompanhantes de luxo, ela abandonara César, advogado bem-sucedido, corrupto e sedutor. Além da vida abastada, Renata renunciou a uma terrível frustração afetiva. Essa rebeldia pode soar inverossímil se não se conhecerem detalhes da história daquela mulher. "O passado dela justifica a coragem", diz Ivana Arruda Leite. E Hotel Novo Mundo, primeiro romance desta contista de 58 anos, mostra que "é possível encontrar, ainda hoje, tanto um amor verdadeiro, após abrir mão da falsa riqueza, quanto ilhotas de humanidade na selva do individualismo." Previsto para ser lançado na Livraria da Vila, às 19h de amanhã, Hotel Novo Mundo (Editora 34) pode ser considerado um melodrama, no bom sentido da palavra. Assim como na arte, certos detalhes da vida são feitos de propósito para causar as emoções mais fortes - como as surpresas patéticas do amor. "No meu romance, a saída existe num relacionamento imprevisível." Ivana fala de Renata e Divino, bancário gordo e baixinho que a ex-prostituta, uma beldade, conhece no hotel e pelo qual se apaixona.A romancista diz não haver um ideal guiando Renata. "Ela apenas está tentando se salvar", diz. "E acha uma turma de outros coitados para se aninhar e se proteger." Os coitados são os moradores do hotel barato: Genésia (a dona), Leão (companheiro de Genésia e pianista), Divino, Jurema (enfermeira apaixonada por Divino), Ritinha (estudante), Deise (mãe de Ritinha), Zema (vendedor), Lauro (pai de santo e companheiro de Zema). Naquela pensão - um oásis de solidariedade - em meio a um ambiente degradado pela pobreza, prostituição e tráfico de drogas - um microcosmo do Brasil -, Renata descobre o prazer de um purê de batatas e do cheiro de sua roupa bem lavada, serviços feitos pelas mãos de Genésia. Autora de Eu te Darei o Céu (Editora 34) e Ao Homem que Não me Quis (Agir), Ivana preservou o conhecido tom coloquial em Hotel Novo Mundo. Manteve a concisão da contista - "meu fôlego sempre foi curto" -, embora se surpreenda por não ter enjoado de "dançar com os mesmos personagens" por um tempo maior. "A novidade é que antes as pessoas me identificam com os meus outros textos, com este romance não, pois ele é pura imaginação, os personagens do livro não são inspirados em ninguém que conheço." O enredo se realiza em sete dias, o mesmo tempo que o mundo demorou para ser criado, segundo a Bíblia. A princípio, o título do hotel pode sugerir uma metáfora irônica para uma mulher em busca de outra vida. Tudo leva a crer que ela será massacrada pela realidade. "Mas o título não é nada irônico, existe a esperança", diz Ivana. "Meu livro é otimista, está na contramão da literatura atual." Nos dias vigentes, a recusa convicta ao pessimismo impressiona.

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