À espera da chegada da corte de d. João

Banda estréia hoje a cantata O Rei Que Ninguém Viu, com texto de Mário Viana

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2008 | 00h00

"Naquela casca de noz/ Que atravessou oceano/ Dormita a real majestade,/ Futuro rei deste reino/ E de outros que virão./ Parece mentira, tão perto/ Estamos do tal dom João." Na onda das comemorações pelos 200 anos da chegada ao Brasil da família real portuguesa, faltava a música se pronunciar. E ela o faz agora na forma de uma cantata irônica, escrita pelo compositor Alexandre Travassos e o dramaturgo Mário Viana, O Rei Que Ninguém Viu, que a Banda Sinfônica estréia hoje no Teatro São Pedro, em concerto que, na segunda parte, tem também homenagem aos 150 anos do compositor italiano Giacomo Puccini.Com a peça, a banda dá continuidade ao interessante projeto de encomenda de novas obras a compositores brasileiros, intensificado com a chegada à direção artística do maestro Abel Rocha. "O convite inicial, feito pelo Abel, era para escrever uma cantata, sem tema definido. Alexandre Travassos e eu conversamos bastante e lembramos de histórias de escravos, especialmente de Caetana, que tinha sido tema de um livro muito bonito, da historiadora Sandra Laurderdale Graham, Caetana Diz Não. Chegamos então aos 200 anos da família real no Brasil e assim foi nascendo a cantata", conta Viana, que já havia trabalhado com o maestro na peça Pantagruel, montada pelos Parlapatões, em 2001.O texto de Viana não está preocupado em descrever fielmente a chegada da corte ao País - transforma d. João em um personagem onipresente, ao mesmo tempo em que não se preocupa em descrevê-lo a partir de elementos históricos específicos. "A primeira coisa que nasceu foi o título, O Rei Que Ninguém Viu. Comecei a trabalhar a partir dele, da idéia de um monarca a quem todos querem fazer pedidos, mas a quem ninguém consegue ver, realmente. O rei permanece o tempo todo a bordo, despertando a imaginação das pessoas no cais. E quando desce à terra, ninguém consegue chegar perto", diz, ressaltando o diálogo com o presente do País. "Acho que isso continua acontecendo no Brasil. As pessoas aguardam o salvador da pátria, o emissário divino, e não tem acesso a nada ou ninguém do poder. O pior é que se mantém a tradição de alguém ter sempre o que pedir ao poderoso. A síndrome de dependência parece que está no DNA... Nesse sentido, o mais importante pra mim era não recriar o dom João, mas as pessoas que o aguardavam. Quem eram os brasileiros de então? O que eles enxergavam naquele barco ancorado na Baía de Guanabara?" Para o maestro Abel Rocha, a partitura chama atenção pela sua fluência. "Travassos foi durante anos instrumentista da Banda Sinfônica. Conhece a fundo as características e possibilidades musicais do conjunto. Sua música é fluente, extremamente ágil e eficiente", diz.A cantata será apresentada por um elenco composto pelas sopranos Cláudia Riccitelli e Eliseth Gomes, a meio-soprano Sílvia Tessuto, o tenor Bruno Facio, o baixo Carlos Eduardo Marcos e o barítono Leonardo Neiva, além do Coral Jovem do Estado (com regência de Naomi Munakata e Nibaldo Araneda). Os mesmos artistas fazem, depois da cantata, um breve recital em homenagem aos 150 anos do italiano Giacomo Puccini, um dos mais importantes autores de ópera da tradição italiana, autor de obras como Madama Butterfly, Tosca e La Bohème, interpretando algumas de suas principais árias, duetos e cenas de conjunto. ServiçoO Rei Que Ninguém Viu. Teatro São Pedro (636 lug.). Rua Barra Funda, 171, 3667-0499. Hoje, às 21 horas. R$ 40TrechoPADRE - Ouçamos o homem que esteve/ No barco da realeza./ Conte lá, senhor barão,/ Relate com toda firmeza,/ Como fala o bom regente,/ Que encantos tem a princesa?BARÃO - Causa espanto, sô Vigário,/ Ver assim tão alquebrada/ A família que governa/ Corte e colônia juntada,/ Sofreu como o pão do diabo/ Nessa viagem apressada.SERAFIM - Diz por aí que o rei fede,/ Que a princesa tem sarna/ E por achar que o demo encarna/ a doida rainha só grita/ Diz o povo tanta coisa,/ Que a gente até acredita.BARÃO E PADRE - Quem te chamou à conversa?/ Não te pedimos palpite./ Então, do lodo em que vives,/ Achas que enxergas a corte,/ Os que mandam teu destino,/ Que comandam tua sorte./ Dobra a língua, engole seco,/ Ajoelha-te e beija o chão/ Onde pisam os que te mandam,/ Que tanto orgulho te dão.

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